quinta-feira, 22 de novembro de 2012

AUTOPSIA DO DOUTOR


AUTOPSIA DO DOUTOR (Por Jefferson Acácio)



Percebi afinal que aquela pele, interconectada por tubos a aparelhos, estava desabitada.
É estranho e poético quando fazemos nossa passagem da vida para a morte
Toda nossa realidade torna-se meramente experimental, sem destino aparente.
Para mim foi como se eu fosse feito de água
Ou como se estivesse anestesiado por endógenos de beta-endorfina
Não havia mais dor, agonia, medo, e nenhuma outra forma de caos.
Pelo contrário, eu mergulhei e emergi envolvido por um relaxamento incomparável
Me senti navegando entre paisagens de lembranças vividas
Como se pudesse ter a chance de retocá-la com pincel em aquarela
E antes que eu percebesse o tempo desse passeio de saudades...
Outra sensação de consciência elevada me prestava em clarividência
Uma retroavaliação que varreu dos meus pés à cabeça
E por todos os órgãos do meu soma.
Pude sentir hiperbolicamente minha batida cardíaca
Senti o que é um coração bater de verdade, sem metáforas.
E ainda sem estetoscópio, tive a certeza de 220 batimentos por minuto
Era bem diferente que um exame médico, a qual minha profissão fora.
Muito mais sofisticado e sensorial, afinal eu navegava dentro de mim
Por entre uma rede de fibras neurotransmissoras. Inacreditável não é?
As moléculas de serotonina, acetilcolina e dopamina eram amigas de bordo
Continuei ao passeio de aprendizagem pelo roteiro de experiências
Parecia transportado à minha áurea juventude desperdiçada
Havia excesso da motivação do viver.
E embora separado da carne, fui permitido ainda a sentir
a vibração imensurável de prazeres e outros efeitos adrenérgicos
Tudo através da memória, tão vivas, que a sensação era de realidade palpável.
Compostos voláteis eram percebidos novamente via retronasal
Minha língua térmica e táctil reconstruíam o processo de degustação dos vinhos
Os sabores e aromas mais exóticos repetiam a saciedade para as mucosas olfativa e salival
Os beijos também reacendiam clareiras em minha memória e liberavam mais adrenalina
Estive em níveis tão ativamente catabolizados que...
A minha morte poderia ter sido causa imediata de cardiopatia hipertensiva
Mas infelizmente não se morre duas vezes, pois seria uma maravilha
Voltar a essa sensação sinestésica de morrer tão vivo de viver,
refazer essa passagem fantástica, como em “A viagem ao centro da terra”.
Mas por outro lado, vibrações desagradáveis também vieram velejar no barco
O gosto da desaprovação, da negação, e do ressentimento estavam à bordo do velho marujo
Todo segredo, toda verdade, todo mistério estavam impudicamente expostos.
E nada podia ser refeito em favor do meu protesto de correção
Ações e reações, atitudes e pensamentos, escolhas e consequências...
Estavam ali diante de mim, ao alcance das minhas mãos,
mas nem um risco poderia ser modificado.
Senhor, de qual terá sido a autopsia da minha fajuta forma de viver?
De que padeceu aquela matéria cujo habitei?
Qual a avaliação final do meu registro?
Quero esclarecer até que ponto pude ter provocado
as circunstâncias que resultaram na minha morte.
Quero diminuir o risco de acusações injustas com outras pessoas
Choque hipovolêmico, Diabetes, Cardiopatia chagásica, Traumatismo,
Parada cardiorrespiratória, Falência múltipla dos órgãos?
Em resposta, os anjos enviaram mais arquivos de imagens do meu histórico.
Em instantes, pude tomar conhecimento do laudo certo:
Eu fui um ser humano estúpido - solitário por livre e espontânea escolha.
Pus âncoras naquele navio chamado coração
Naveguei por mares sem margens, por ondas de ilusão.
Até os animais estavam na primeira categoria do afeto, e eu? Zero a Zero
Ainda na pré-condição de inviolável, e de autentica liberdade em si e por si.
Continuei inconsequente, intolerante, ignorante, intransigente, amargo e cadavérico
Pudera eu reparar estes e muitos outros itens do meu jeito de “ser e pensar”
Que tanto eu defendia, e ficava no alto inalcançável da “Estupidez”
– Essa é causa da minha morte, presente na autopsia!
A estupidez me levou ao isolamento, que me enclausurou na escura depressão.
Ato implícito de suicídio. Quanto arrependimento!
E daqui de onde estou assistimos os episódios dos que se dizem “vivos”.
Chega ser humilhante para a condição humana, o modo que se vive.
Daqui, vemos como o mundo se tornou um parque humano de superficialidades.
Logo, não fui o único estupido na terra. Existem outras perspicácias por aí.
Vemos como a vida foi se tornando um modo de viver banalizado,
Um verdadeiro espetáculo de mediocridade,
Um extremo horror de obscenidade, pornografia, orgia, e impudor.
É o cúmulo da degradada existência. Não há nada mais para se ver.
Os vivos parecem se obrigar de viver numa irônica ilusão simbólica de realidades
O mundo está fedendo a sexo por cumprimento de protocolo
O homem sem escrúpulos, sem qualidade, sem amor, esta beatificado
Está um território de seres humanos biologicamente modificados, zumbis!
Não foi essa a criação divina, não foi esse o plano redigido das Alturas.
A violência, a promiscuidade e a falta de amor viraram esquemas de viver habitual
Estão caminhando em passos ligeiros para uma extinção da espécie.
Depois que morremos, nossos impulsos são irrepetíveis
como nossa própria identidade celular e espiritual é.
Tudo o que fizemos e pensamos fez parte de um filme finalizado, cujo nós somos os autores
Com múltiplas participações de autores, co-diretores, figurantes...
Podemos até re-assistir, retroceder as cenas mais marcantes, mas não mudamos o roteiro
Nossa chance fora de quando the belle film estava em edição, em curso do existir
Ninguém parou para se dar conta disso, e depois que morremos somente nos resta consentir.
Achei até que minha alma anarquista finalmente havia encontrado em si a liberdade
Logo verifiquei a existência de Soberania sobre meu expectroplasma
Em outras palavras, outro filme havia iniciado, desta vez sob o comando do Autor (não eu).
Isso que chamamos de “morte” é arte da transcendência e imanência
Morrer foi mais ou menos assim como no processo de sublimação da água
Engraçado dizer, mas estou claro de que simplesmente “vaporizei”.
Despi-me da pele que vestia os órgãos e o corpo, imperceptivelmente
Foi como uma retaliação humana, sem corte, sem foice...
Foi nesse despir-se que começaram os desbloqueios da matéria
Nesse momento, os gráficos do aparelho hospitalar
Estabilizaram, conforme representado por um risco vermelho que corria sem fim.
Emitindo aquele som agudo, contínuo e agoniante.
Do outro lado, gradualmente foi aumentado o fluxo de energia em alta velocidade.
Expandindo, ao máximo, um volume de força, por dentro e por fora do meu soma.
E tão logo senti perfeitamente a ocorrência do estado de aura, completamente acesa.
Agora sou um espectro de luz, sem rupturas, de écran multicolor.
A chance que tive de me tornar espectador de mim mesmo, em retrospectiva,
Era apenas um prognóstico para apreciação e conferência de dados.
Era apenas a leitura de um livro que revela a vida crua.
Fiz uma leitura imersiva de todas as páginas do filme-vida
que produzi desde a formação biológica de cada órgão...
E após todo o diagnóstico conferido e analisado, tive ainda o privilégio
De assistir de camarote o último instante e a última palavra proferida na despedida.
Eu repeti um trecho de Carlos Drummond de Andrade,
Cujo Doutor relata o laudo de um garoto à uma mãe preocupada
com a incapacidade de seu filho de ser verdadeiro.
Diversas vezes era surpreendida com histórias mentirosas.
Mas não passava de elemento figurativo da  imaginação e fantasia
Não compreendido, foi encaminhado ao médico Dr. Epaminondas
O Doutor após ouvir as mirabolantes histórias do garoto
“...abanou a cabeça: - Nada a fazer dona, esse menino é um caso de poesia”.

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