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quinta-feira, 1 de abril de 2010

* Taurinos, Arenas e Touradas

Por Jefferson Acácio


Quando terminamos um namoro, resolvemos ser donos da nossa própria vida, mesmo sem saber ao certo o que fazer, e ainda assim caímos nas armadilhas do entretenimento pra servir de comida, cobaia e mercadoria nos braços de monstros pitorescos. Eu ja cai em muitos desses abísmos. Com isso, já tive medo dos vampiros, sangue-sugas, feiticeiros, caçadores, e do lobo malvado das histórias infantis. Eu já havia superado a covardia por essas figuras masculinas sinistras, monstruosas, viris ou encantadoras, entretanto me deparei com um novo terror, que prefiro chamar de toureiro. Estes são tradicionalmente conhecidos como coches de gala, porque vestem-se como os rapazes do século XVIII ou os trajes do fim do século XIX. Sua aparência doce é contestável.

Taurino, como sou, busco a segurança, e por isso tento sair da rota de atração dos toureiros, mas o meu perfume exótico é captado vilmente pelo olfato apurado desses cavaleiros, e não há tempo de esconder-se, pois eles podem também chegar a cavalo, e interceptar minha fuga. Músculos, confrontos, suor, espadas e principalmente um talo verde de rosa vermelha carregado entre os dentes, e logo sou capturado pelo encantamento, do mesmo modo como atraio os jovens coches com meu inevitável temperamento sensual e a suavidade de meus cabelos.

Sou um taurino vulnerável, e carrego a senciência na minha natureza, assim tenho a sensível capacidade de sentir prazer, sofrimento ou fúria. A vulnerabilidade e a abstinência são minhas fraquezas confessas, assim escondo-me na pele invisível, áspera e empoeirada. Se tocarem minha pele serão despertados pela maciez, e farão de mim como os animais não-humanos - uma mera propriedade - dispondo da minha pele e da minha carne, para suprir seus desejos volumosos, e satisfazendo suas curiosidades volúveis, desde o paladar ou simplesmente por diversões voláteis.

Não escondo-me por muito tempo, pois a música me chama, assim como o cheiro de comida farta, de vinho doce, ou o cheiro de gente. Levo muito tempo resolvendo se quero um relacionamento realmente sério, pois tal conquista, quando vitoriosa, leva a minha noção de realidade, ou mais claramente, torno-me surdo por qualquer advertência de incompatibilidade apontadas pelos amigos. Quando apaixonado, quero transformar a semente em substância, aproximar o sol da lua, banhar-me de santa chuva e mergulhar em mil outras fantasias.

Certo domingo, um velho amigo visitara-me, contando nossas anedotas do passado, e outras lembranças das Ilhas Canárias, localizada numa região da Espanha, sendo Santa Cruz de Tenerife, a capital e nossa cidade natal. Rimos a beça, num clima descontraído, com bebidas e uma boa mesa, quando ele fez o convite para irmos a uma balada noturna. Convenceu-me rapidamente, pois tratava-se de um grande amigo, e não o deixaria insistir. Shasár é um dançarino, espanhol, da minha idade, 24 anos, quase do mesmo porte físico. Atualmente passamos uma vasta temporada no nordeste do Brasil, onde vim a turismo e nunca mais voltei até então. Trocamos figurinos, relembrando os velhos tempos, e fomos ao clube Tropicália, um luxuoso e recém reformado espaço de entretenimento de música eletrônica.

Ao chegar no local, assim que passamos pela porta que dá acesso à pista de dança, com os refletores quase hipnóticos e luzes vermelhas, enxerguei os olhares famintos. “Encontraram-me”, eu disse em pensamentos, balbuciando as palavras. Eles pareciam decifrar meus lábios simultaneamente. Um tocava nos ombros do outro, passando o comentário, e como um rastro de luz, todos os outros toureiros já estavam comunicados, que mais um taurino estava na arena eletrônica, e totalmente desprevenido. Shasár puxou-me pelo braço dizendo-me “Vamos Vegan, como nos velhos tempos!”, e assim me conduziu até a arena principal, próximo ao equipamento do DJ da noite. Eu sentia-me como um coelho numa armadilha, pronto para ser atacado.

Parecia a Plaza de Toros de las Ventas, em Madrid, mas tinha o clima atmosférico semelhante com a Plaza de Toros do México. Os outros touros estavam gastados, e no momento eu era a carne nova, que havia de ser repartida em pedaços iguais. Um novilho. O espetáculo havia começado, anunciado pela música estridente, e pelos assovios do público. A torcida estava eletrizante e expeliam fumaça de objetivas expectativas. Queriam ver a lide, e o touro completamente dominado.

Os forcados, grupo amador que enfrenta o touro a pé, foram os primeiros a avançar. Vestidos de adornos de ossos, pêlos e marfim. Os dentes trincavam, cheirando a sexo, e com um papo insolente e avassalador, com a tentativa de levar-me a uma vida social intensa, e me “castigar de prazer!”, dizia um deles, mascando um chilete, provavelmente antes de entrar no clube, e assim acreditava que chamava atenção. Foram muito insistentes, e tentaram imobilizar meu corpo com a força dos braços malhados, com um tom de madeira envernizada. Mas, eu continuei firme, enraizado na terra, e não cai na conversa.

Os bandarilheiros vieram em seguida, efetuando algumas manobras com um capote, com coreografias sincronizadas e sensuais, que pareciam dançarinos contratados para animar o ambiente. Admirei-os e até segui alguns passos. Havia um empinado, cintura curvada, com aqueles dois gumos na cintura. Outro derramou-lhe uma bebida nas costas. Este desceu, e ficou agaixado por alguns segundos, e então levantou-se como as morenas dos grupos de forró aqui do Brasil, jogando todo o traseiro para trás, faltando cinco centímetros para encostar em mim. Se eu estivesse nu, teria feito alguma diferença. Estes quase me cativaram, mas ainda não foi o bastante para derrubar este tauro. Vieram também os novilheiros, os campinos e outros intervenientes, aplicando as técnicas da arte tauromáquica.

Meu amigo Shasár estava o tempo todo ao meu lado, e corriqueiramente debruçava-se sobre os braços dos cavaleiros, enquanto eu media forças para defender-me. Estávamos no primeiro piso da Tropicália, e descemos para comprar um drink. Uma pausa para a entrada de um aventureiro, desconhecido para mim e Shasár, mas acalentava a espera dos demais. Era como a estrela daquela noite e vestia uma bela indumentária de rigor. Um tecido vermelho amarrado a cintura. Adornos de pérolas, penas, couro e camurça. Um tanto vampiresco, a pele alva, provavelmente fria e gélida do inverno fora daquele clube. Uma versão eletrônica de um tango tocou nesse exato momento. Em murmúrios e sussurros seu nome se repetia – Éduard Manert. Ele não olhou-me.

Eu continuava com a mesma sensação, como se estivesse correndo toda a arena pueril, repleta de pagantes ao redor, sentados nas arquibancadas, como no formato circular dos estádios de futebol, porém com um estilo romano, mais precisamente o Circo de Termes, na península ibérica, onde os celtiberos sacrificavam os touros em rituais sagrados. O vinho era servido em taças de ouro, e estes faziam as apostas em moeda, como nas competições de jóquei. A torcida clamava por sangue e desejavam o castigo do corpo. O meu corpo era o jogo. O corpo de um taurino, o corpo de um touro. E quem havia de ser meu capataz se todos os cavaleiros coches não conseguiram me derrotar? Mas confesso, que cansaram-me, minhas pernas já estavam quase frágeis de correr e eu clamava por Vênus para reger meus passos. E minha regente só mostrava-me o saliente rapaz, que parecia não me observar, ou assistia meu escarnio, esperando a hora do seu ataque de feromônio e virilidade. Ao meu redor só havia ele, Éduard! Éduard! Éduard! Bradava a plateia perturbando-me os pensamentos. Éduard! Repetia-se com uma cantiga de capoeira, rabo de arraia, benção, ponta-de-pé, rasteira. Eu estava completamente embevecido . E onde estaria Shasár? Meu nobre amigo abandonara-me.

Cansado e completamente passivo, vulnerável, e submisso feito um animal de circo entretendo o povo. Gargalhadas, palavrões e diversos tipos de ofensas.. Diziam aos berros “Agarrem-no pelos cornos, e puxem-no pelo rabo! Puxem-no pelo rabo!”, e cuspiam o vinho de uvas amargas, tal como denunciava o olhar de nojo. Em plena semana santa, e o pecado a flor da pele. Que frívolos e cruéis!

Vênus ainda não havia se manisfestado. Arrastei os pés no chão e supliquei por Gê, semelhante ao meu apelido na infância, embora seja mais conhecida como Gaia ou Géia, segunda divindade primordial após Caos, deusa da Terra, e dona de uma força absurda capaz de gerar sozinha o Urano, os Pontos e as Montanhas. Podia enviar um de seus doze filhos titãs, ou emprestar do peito o aço em foice afiada. Mas, nada. Eu estava mesmo sozinho, e rendido naquela noite de saga.

Quando a minha primeira gota de suor molhou o chão, Éduard curvou-se em minha direção, como um vampiro quando pressente o sangue latente de sua presa. Já fui mordido diversas vezes que acostumei-me, tanto que um dos meus últimos noivados falidos foi com um vampirinho de presas afiadas e olhar fulminante. Éduard aproximou-se tão rapidamente que eu poderia dizer que teletransporte existiu naquele momento, tal como os filmes contemporâneos. Em segundos suas mãos agarravam-me como uma águia, imobilizando-me, então passou a língua pelo meu pescoço da base do ombro até a ponta da orelha, arrepiando meus pêlos, e disse-me em latim “redemptio, corpus, taurus”.

E o grand finale havia chegado... A lide... o Confronto... A pega... Os demais cavaleiros vieram enfincando longas farpas e culminando em freqüentes enfiadas com ferros mais curtos, ditos “de palmos”. Éduard montou em meu dorso, ferozmente, amansando meu corpo até eu aceitar a dor. Aquela mesma dor de paixão, que eu havia recuperado do último namoro, estava novamente plantada no meu pulmão, pois no coração já seria crueldade demais. Em seguida, prometeu-me que iria me colocar ao lado das três estrelas mais brilhantes de tauri, Aldebarã, Alnath, e Hyadum I. Eu seria Delta, uma quarta estrela no espaço sideral.

Após o final deste espetáculo, saímos da balada no clube Tropicália, o sol radiante anunciava uma paixão ou no mínimo o coração amolecido, enfraquecido de tantas lutas e escudos, e praticamente esquecido dos próprio direitos de não ser tratado como propriedade. Desta vez escapei, mas aqui fora a arena tem a dimensão do planeta, e em qualquer lugar que eu vá, eles podem estar a minha espreita, a todo momento, exalando fumaça dos poros, a todo vapor. Estou a beira de novos confrontos... Taurinos, arenas e touradas.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

* Belo, Coincidência, Testosterona

Por Jefferson Acácio


Eu estava no meu caminho do trabalho para casa. Vim caminhando como de costume, pois são apenas algumas léguas que economizam o transporte para tomar uma cerveja no fim de semana. Poucos dias antecediam a semana santa, e eu já estava em clima de omissão dos pecados. Não ria de mim, não faço isso por maldade intencional, mas realmente prefiro omitir, pois é tanto pecado que uma semana me deixaria em dividas. Foi logo no cruzamento da Avenida Memorial com o Largo da Mariquita, que tombei num rapaz. Não foi nada proposital, asseguro que da minha parte não foi, pois eu andava descontraído com meus pensamentos. Tenho esse hábito de conversar sozinho pela rua.

Ao passar pelo rapaz, acho que suspirei de cansaço, e disse em voz baixa "Só me falta uma cama agora". Para ser mais preciso, eu fitei a presença do garoto que parecia estar também distraído, quando cruzou ao meu lado muito lentamente. Nesse mesmo momento que suspirei, e disse a tal frase, em segundos olhamos ao mesmo tempo para trás. Ele desculpou-se pelo pequeno e quase despercebido esbarrão. Nesse instante, observei-o e pensei em voz alta "é belo". O rapaz voltou-se e chamou-me dizendo "Me conhece?". Parei envergonhado, e sem respostas, com expressão de quem não ouviu a pergunta. Ele aproximou e refez "Disse que sou Belo. Como sabe meu nome?". Eu ri da situação, e realmente “não sabia seu nome, apenas pensei alto e surtiu a coincidência”, respondi-o. Suei frio, mas logo me subiu um calor.

Ele já movia o corpo pra continuar sua caminhada, quando compreendeu o elogio e voltou-se "E o que disse antes da coincidência?". Já estávamos reféns da circunstância, e no clima de uma paquera. Poeticamente, eu diria que estávamos reféns do destino. Repeti meu comentário, dessa vez intencionalmente semeei o apetite pelo belo com um olhar incisivo e compenetrado, articulando as palavras: "Só me falta uma cama agora", disse a frase com um meio-sorriso sádico.

“Safado”. Pode jogar na minha cara. Nem precisasse, ele mesmo o fez. Eu ri dissimuladamente pelo elogio retribuído e apontei o caminho para minha casa, mas a dele estava mais próxima. “Coincidência”, dissemos juntos. Ele envermelhou-se. Licença para uma narrativa poética, deliciada de figuras de palavras. Nossa! Só em pensar dá água na boca. Refiro-me à narrativa poética da nossa foda.

Sou um cuidadoso fazendeiro, e costumo arar muito bem a terra, deixar regada e macia. Corro todo o pasto molhando-o lentamente, apalpando o chão molhado. A textura estava muito boa, justamente como presumia baseado na minha experiência. Realmente farta terra! Um belo solo que fiz questão de sentir com todo o meu corpo, numa interação entre a carne e o barro. Adoro essa natureza! Como foi bela essa mistura de mim com a terra, que logo eu já fazia parte do ecossistema, criando raízes e entregando-me ao esquecimento do tempo. Enterrei um pedaço de pau. Procedimento de fazendeiro antes de cavar o fértil solo e plantar a semente. Sinceramente, eu já não sabia se era eu o fazendeiro ou eu era a terra tamanha interação. Um poder tremendo se manifestava entre nós. Testosterona e fertilizante aliados ao bom adubo afastavam todas as pragas e joios ao redor da fazenda Marquês.

"Belo, as nádegas"... Ele não se esquecia das boas palmadas, pois gostava da reação do meu contrair e dos gemidos. Ele enterrou toda a vergonha na cova, enquanto eu enterrava a minha no travesseiro. Quando entramos pra sua casa, ele gaguejava que estava curioso de saber como essas coisas acontecem. Curioso como ele gostou tão rapidamente das ‘coisas’. Como um iniciante em montaria, que, em segundos, toma as rédeas e sai cavalgando como um belo cavalheiro. “Você é aplicado e aprende rápido” – Comentei percebendo o short estufado. ‘Curioso’

Papeamos no sofá, pouco falatório, eu falava vinho e ele respondia vodka. Rasgamos nossas embalagens, nossos rótulos no percurso do sofá até cama. Minto, antes passamos pela cozinha acho que pra tomar mais um gole de cana. Logo ele exercia o poder fálico e nada falamos desde então. Nada decifrável e traduzível. Apenas monossílabo e expressões de linguagem coloquial, interjeições no intransitivo direto "Vai! Mete! Ah! É isso! Humm! Vem! Mais! Caralho!"...

O tempo arruína tudo, já era metade da madrugada, e dormir era necessário!