quarta-feira, 30 de junho de 2010

Canção particular

Por Jefferson Acácio

Há uma canção que não requer músicos
Uma canção que só nós mesmos ouvimos
Uma melodia íntima e singela, silenciosamente nossa!
Vibrante e incrivelmente poderosa
A canção do nosso viver...
É uma canção que exige do silêncio e da concentração


Observe ao fechar os olhos,
O som da engrenagem do pensamento,
A respiração em forma de percussão em diferentes ritmos
Obedeça a ordem natural dessa canção
Uma cadência repetitiva incessante
Assustada... Serena... Contida...

Imagine por onde seus pés caminharam ontem
Imagine que os pés tivessem olhos de gato
Olhe à altura do chão cabisbaixo como um cão farejador
Explore a beleza de cada imagem minimalista
As poças d’água e os ruídos do cotidiano
Pois é, tudo o que está fora e dentro é a melodia do viver

Linda canção
Que estão destruindo com partituras esquisitas
Linda canção
Da pena de não mais ouvi-la



Emparedado

Por Jefferson Acácio


De frente pra parede
Azulejos amarelados ajustados
E eu ajoelhado em penitência
O chão molhado de pecado

Do corpo escorre o suor pro piso esverdeado
Na ponta do nariz encontro-me com o limite
O muro na minha testa se faz de fronteira
Sinto um abraço desse muro de tinta azul e madeira

Uma força de cimento e areia envolvendo meu corpo
Aqui me conforto das convenções sociais
Dos desesperos e desilusões de cada dia
Esta casa, esta parede, este chão amigo... minha covardia

Emparedado caminho pelas ruas sem nome
Eu de frente pra porta fechada
Reflexo de um espelho no próprio espelho
Um rosto estranho desgastado, com fome

Lá fora uma euforia de futebol e carnaval
A janela aberta e eu preso no quarto
Sinto a culpa social imobilizar minha fuga
Aqui dentro um velório descomunal

A pia e a água no rosto desculpam-se por mim
Somente para amenizar os arrependimentos
Quanta história e progressos jogados pelo ralo
Sigo as sobras na correnteza da descarga, lindo estrago!

Esqueço as horas no silêncio desperdiçado
Lágrimas secas, vidro embaçado
A torneira pingando e o chuveiro ligado
A porta trancada por dentro e o choro bloqueado

Saliva entalada na garganta
Meu país, onde está a minha liberdade?
Santo Cristo Redentor, onde está a verdadeira verdade?
Meus pais, onde está a nossa felicidade?

Palavra Contaminação

Por Jefferson Acácio


Torpes e dilacerados mortais
É de morte, é de Guerra
Esse chão que tu pisa tem pedra suja de sangue
Tudo se enfeita e se modela de mentira
Tu mesmo se rompe e se refaz

Lamaçais e chuvas de vírus
Jorra pra todo lado veneno e perigo
Essa voz que tu ouve é um velho amigo
Olhos castigados de luxúrias
Corpo batizado de prazeres e lamúrias

Hoje é o dia de você olhar pro alto
Uma gota de sangue e aos poucos um choro cai do céu
Na sua fronte, nos seus lábios
Molhando seu corpo inteiro num velório de verdade
Não tem raios, terremotos, nada além de uma chuva

Chove verdades que você não conhecia
Chove verdades que você ignorava
Chove uma contaminação de verdades
Chove Palavra!
Chove Poesia!

Noites de Silêncios

Por Jefferson Acácio

Já denunciei o espelho
Que revive fantasmas
Já acusei as paredes
Que escondem o real de mim

Mas nunca me julguei
Bem ou mal, não pensei
Afinal a verdade do homem
Eu sei - "É a contradição!"

Já me fizeram marcas
Nenhuma delas sangraram
Já me machuquei com flores
Já repeti a dose...

Doze...Treze...Outra dose
E olha eu refletido ali no copo
O espelho me persegue
Eu persigo o espelho

Perseguições cegas, inúteis
Procuro o "eu" no outro
E só o encontro no silêncio
Nas noites nuas, paredes descoloridas e chão frio

Aventuras pelo desconhecido

Por Jefferson Acácio

De repente eu levantei da minha cama com muita disposição. Era uma força tremenda que se manifestava dentro de mim. Eu podia senti-la como se fossem formigas pelo meu corpo. Ao mesmo tempo era uma sensação forte e também era leve. Sim, porque eu não sentia um peso sequer, mais sentia que era forte.

Na minha pele havia essa reação estranha que caminhava como formigas mesmo, acho que transportando a energia da cabeça aos pés. E por dentro, era como se eu tivesse inspirado uma proporção maior de oxigênio. Sentia meus pulmões trabalhando mais rápido pra controlar os impulsos.

E então eu levantei da cama com esse inexplicável poder, “prefiro chamar assim”. Ainda liguei o celular para ver as horas, eram exatamente cinco da madrugada. Abri a porta do meu quarto devagar, caminhei até a sala e por curiosidade entrei nos quartos para vigiar se todos dormiam bem.

Vagarosamente sai da casa e, como um leão, eu observei se algum perigo os ameaçaria. Visto que estavam em segurança, entrei guardando meu urgido no peito carregado de ar. Fui à cozinha, pois havia em mim uma fome de boi, e meu abdômen se contraia inteiro. Comi o que havia na geladeira, e bebi do vinho que guardavam na adega da casa. Então voltei à sala, abri cuidadosamente a janela e subi.

Em frente à janela havia o muro da minha casa, pois eu cheguei ao muro levemente num salto. Olhei para frente e bem longe, com olhos de águia, avistei o mar e as nuvens estavam lindas. Um céu em tons de azul, laranja e vermelho se emaranhavam no despertar do sol. Enchi novamente meus pulmões daquela energia firme e constante e então pensei:

- EU POSSO VOAR!

Foi um levantar de vôo tão seguro de mim, sem asas nem nada. Somente aquela energia que girava ao meu redor, desta vez dos pés a cabeça. A energia estava mais concentrada nos pés, para me dar o impulso do vôo. Voei e lá de cima tudo ia ficando distante. Eu via a cidade do mesmo jeitinho que vemos no cartão postal, tão pequena que podia se vê de um só olho. Uma brisa leve no céu, que me soprava do oeste. Acho que era o vento de Zéfiro.

O gosto de voar era tão grande em mim, que me parecia não haver mais o chão. Enfrentei Bóreas, Eurus e Nótus, afinal tinha que haver os grandes ventos. Assim também os pormenores ventos Kaikias, Apeliotes, Lips e Síroco sopravam em mim. Fiz então um pouso em Constantinopla, cidade mais importante da Trácia. Descansaria por lá para seguir jornada ao Olímpo. Mas ao chegar à cidade não sabia que estava em pé de guerra.

Meu primeiro confronto foi com o deus do caos. Toda aquela desordem e confusão que se gerava na terra de Trácia. Eis que surgia então, em meio à multidão, o deus Eros, filho de Afrofite. E lutando contra o Caos, com o coração flechado por Eros, me vi numa guerra entre a razão e a emoção.

Mas logo, aprendi a desenvolver o equilíbrio e o poder da ordem. Não temi ao caos, nem me entreguei aos devaneios da paixão. Aquela energia era meu combustível de vida, para conquistar novas terras. Vivi mais essa aventura e voei do Olímpo, como Hercules fazia, sempre em busca de novas aventuras promovidas pelo desconhecido.

Ambiente de Guerra

Por Jefferson Acácio






Nosso corpo é constante campo de batalha
Arcos, flechas, espadas e escudos.
Somos primatas prematuros incompletos e impuros
Medo, inocência, credulidade.
Tanto amor no peito acolhe também a maldade

Abraça-me com emergência
Venha para perturbar meu estado de sanidade
Enfrenta minha louca tempestade
Estou numa luta interna de querer você pela eternidade
Mas a ordem social indica que seja pela metade

Ambiente de guerra no peito caloroso
Cortes de beijos secos e tempestades vazias
Na garganta uma palavra morta
Assoalhos molhados, roupa macia, pele desidratada
Meus medos malcriados levam-me a sacristia

Que pena, tantos nomes perdidos na multidão
Nesse exército de fábulas nenhuma fada
Nenhuma paixão avassaladora
Somente a pacificação das vontades vestindo corpos esguios
Eu quero terrorismo de amor invadindo os meus territórios
Quero guerra do amor vencendo a minha carne

Alice

Por Jefferson Acácio

Conheci Alice
Vou com Alice
Não volto com Alice
Na fantasia me jogo com Alice
Iludir-se por amor não é tolice

Aprendi nos tempos de meninice
É bom ter um amor que me enfeitice
Vou correr, pular e cair na sandice
Se amar é uma ilusão, uma ceguice...
Prefiro ainda ser a própria ALICE!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

* Insônia, Pânico e Silêncios

Por Jefferson Acácio

É um engano acreditar que as madrugas foram feitas para o silêncio e para o sono. A madrugada é para os oprimidos. Durante o dia é um congestionamento de pessoas e automóveis, uma poluição de sons de todas as origens. E tudo se expressa e faz ruído ao mesmo tempo, competindo até mesmo com o nosso próprio pensamento. Então chega finalmente a madrugada e... Preste bem atenção... Lá fora...

Uma sacola dançando na pista da Rua dos Aflitos. A sacola plástica é carregada pelo vento que bate nas janelas e portas convidando para assistir ao espetáculo. O vento agressivo parece não ter força para atirar longe a sacola que voa levemente e dança sozinha um ballet clássico no asfalto, na calçada e arrastando-se de baixo para cima, de cima para baixo nas paredes das casas do bairro.



As janelas de vidros sambando frouxas, e as portas rangendo com os sopros frios e juntas emprestam um ritmo incessante de suspense ao vôo da sacola. Tudo parece um delírio, mas é uma grande orquestra. A cadência contínua é incrementada com o remexer de plásticos, garrafas e latas. O ruído produzido parece ser de algum rato revirando os lixos domésticos. Ou talvez um rato vestido de trapos, coitados, eles buscam os nossos desperdícios. E dentro de casa, os ratos fazem uma festa particular, e correm maratonas nos quatro cantos, atrás e em cima do guarda roupa e na cozinha. Nada roubam, apenas esticam as patas, uma exima liberdade





Todos instintivamente querem se comunicar e eu querendo dormir. Enquanto eu me queixo da insônia prejudicial a minha mente, ouço barulhos de alguma festa que provavelmente encerrará com o nascer do dia. Num momento estou coberto dos pés a cabeça, depois estou girando na cama, sem cobertor, então me levanto, ando pelas dependências da casa escura, o chão e as paredes geladas. Insights, murmúrios, sussurros duvidosos do apartamento ao lado. Se eu atravessasse as paredes... Se eu flutuasse como a sacola lá fora... Tenho certeza que escreveria sobre tantas coisas que não vemos a essa hora.


Um gole de vinho e volto para o quarto com um copo d’água, sento-me na beira da cama, e olhando as horas, o relógio marcando 2h, repito comigo mesmo “O que estou fazendo a essa hora? Meu Deus, por que não dormi ainda? Esse sono que não chega... E tudo ainda se move, o dia não se esgota, tudo ainda se agita! A noite não dorme, eu não durmo, a noite passa e eu continuo”.

De onde vem esse sono que ainda não chegou? Em que estrada ele anda? Todos os dias se perde no caminho e só chega pela manhã me derrubando de vez. Meu Deus, se acaso ouves meus pensamentos, Tu que também não dormes, com o barulho de todos os planetas juntos, Senhor... Silencie tudo, silencie meus pensamentos, eu lhe peço. Já estou sufocando a caneta contra o papel em branco para fazê-la confessar até o último jato de tinta sobre tudo o que vejo, ouço e penso que parece não ter fim. Isso não é para mim. Não vivo somente para escrever, eu preciso de outros meios de sobreviver.

E o que faz o sol que demora tanto a chegar? Nos esqueceu visitando outras terras e nos deixou aqui sob a companhia da lua? Ela, a única que não diz nada, nem emite luz própria, mas fica de lá influenciando as marés e o cântico das matilhas. E esse pássaro da noite, que tanto grita? Coitado, também não consegue dormir.

Há outros escritores com insônia? Transiente, intermitente ou crônica, em qual estado estaria a minha? Essa agonia, essa angústia, esse estresse inconivente, essa ansiosidade desnecessária e essa expectativa à toa. Da vontade de cuspir tudo, porque parece estar tudo na própria garganta, ou no pulso ou no peito. E um gole d´água às 3h, mas eu gostaria mesmo era de mergulhar no silêncio aprisionado desse copo.

Já rabisquei tanto que não sei a ordem dos escritos no papel. Tem coisa escrita de cabeça pra baixo, de traz para frente, em todas as direções e nos rodapés. Daqui a pouco estarei a escrever pelo meu corpo, nas mãos, braços, rosto... Olhei agora a pouco no espelho e vi o cansaço em mim.

- “Queria tanto ajudá-lo” – disse minha imagem refletida no espelho e continuou “mas estou aqui dentro, num silêncio inesgotável”

- “Deve ser triste aí dentro” – comentei

- “Durante o dia você nada diz... mas se penteia, escova os dentes, faz caretas, procura defeitos, tenta corrigi-los, às vezes desiste, às vezes volta com cremes e máscaras, às vezes arrumado, outras vezes nu, se olha inteiro... Às vezes fixa tanto o olhar, como se fosse dizer algo... Mas só agora você...” – Confessou a imagem fazendo uma pergunta “Está sem companhia?”

Eu balancei a cabeça respondendo que “sim”, e após uns segundos, passei a mão no rosto e toquei o espelho. “Seus dedos estão úmidos”- comentou a imagem.

- “Deve ser o suor das minhas mãos” – disfarcei e interrompi a conversa sem deixar alguma palavra de despedida, afinal se essa insônia não passar, mais tarde estarei de volta, pois um novo dia começou, mas pra mim, é o mesmo trivial dia com a mesma pergunta “Hoje começo a nova vida?!”.

domingo, 11 de abril de 2010

Cinzeiro

Por Jefferson Acácio


Aqui, reduzido às cinzas do teu cigarro.
Produto das tuas chamas apagadas
Consumistes-me até os calos e valores
Sou metade do teu vício jogado fora
Sou as sobras e as sombras de cada hora

Aqui, essa labareda entreapagada
Que aspira pelo teu oxigênio para reacender
Mas é perigo que caias de novo no vicio
Mas consumir-me é tua função,
Venha cheio de voracidade e excitação.

Antes das cinzas eu sou o cinzeiro
Antes do cinzeiro eu sou o teu cigarro e fumaça esvaída
Antes da fumaça eu sou chumaço de fogo e faísca
Eu sou um amante que causa dependência química
Eu sou a própria química da tua vida absenteísta.

Foto Vinicius Neves(http://www.vestudio-portfolio.blogspot.com/)

Amor Primitivo

Por Jefferson Acácio

Cuidado, sou homem da caverna
Sou de lá da pré-história
Só conheço o amor primitivo
Sou do tempo da pedra

Escrevo nosso nome com fogo
Feito escravo me entrego acorrentado
De geração por geração, de selva em selva
Desde ancestrais comuns, evoluirei ao teu lado

Sou um indelinquente apaixonado
Fugindo desse planeta modernizado
E por ti sempre desarmado
Nada mais tenho, que o amor primata

Não sou nenhum diplomata de terno, gravata e indecências
Estou por cima da pele viva, transcendendo a própria carne.
Explodindo de nostalgia, de essencialidade,
Recusando amores da artificialidade!

Não quero um amor de relicário
Desses que enfeitam cartas e porta-retratos
Quero o amor de Primitivos, quero falar essa linguagem!

Arrependimento Mata?

Por Jefferson Acácio

O teu “não” desencadeou meus passos amedrontados para o asfalto
Sem cuidado invadi o trânsito que parou contra meu delito.
Enfurecido, continuaram as pernas na desordem e no perigo
Desmontando-me entrei no meu carro.
Retrovisor quebrado.
Peguei a chave, sem controle, encarei o volante.

Não era dia chuvoso mais liguei o pára-brisa.
Não era noite, mas acionei os faróis.
Carro e lágrimas em alta velocidade
Não estava embriagado, mas via tudo girar.

O “não” martelava na cabeça e eu mastigava-o na boca.
Ele era o fonema, meu combustível infinito fugindo da garganta aos soluços.
Eu seguia somente a sinalização na pista
E uma idéia fixa de delinqüente, dirigindo na contramão.
Sem freios cruzando as esquinas e bairros sem nome.
E na curva à direita não enxerguei as placas
O susto!...Outro carro!... E meu grito desesperado:
- Não!

Esse foi o pesadelo de uma noite perturbada
Quando o teu não me pareceu uma faca afiada
Ao acordar assustado, estava você ainda ao meu lado
Dizendo-me um “Sim” atrasado, constrangido
Então veio na minha cabeça uma pergunta
Que só a mim fazia sentido:
- Arrependimento mata?

Amor Introvertido

Por Jefferson Acácio



Fixamos o olhar e nossos disfarces se revelam.
Está implícita a exaltação de ânimos
Cada vez que nos encontramos
Nossas almas se amassam antes que o corpo confesse

Está claro que nos enamoramos escondidos
Numa intimidade em algum mundo paralelo
E não há resgate desse universo isolado
Intimados pelos julgamentos convencionados

Em plena modernidade, reside ainda o clero
E nossos sentimentos exilados dessa repressão
Cada sorriso nosso nos condena
Convivemos em cada suspiro etéreo

E nossas línguas se acariciam em ambientes esotéricos
E tudo se torna tão introspectivo
Um amor que se expressa cá dentro
Nesse peito envergonhado, achando que amar é pecado

Fixamos o olhar
É doçura
E habitamos num lugar
Onde se conservam o amor introvertido

Amor Calculado

Por Jefferson Acácio



Aprendi nos tempos de escola
Que a matemática está presente em tudo na vida
Eu ainda não tinha conhecimento da tabuada
E ainda apanhava de palmatoria para aprender a raíz quadrada

Muito eu treinava de tanto teste mal feito
Pelo menos a matemática do amor não podía ter defeito
Levei os cálculos à risca e aprendi o amor nas sentenças
A matemática não falha, pois que tudo é equilibrado

Então amor, nao duvide de mim quando lhe dou essa flor
Reconheça meu cálculo e minha lógica matemática
Somos produtos notáveis apaixonados!
Uma relação de pertinência, eu sou teu, e você é meu. (Ponto)

Não há como fugir dessa condição.
É adição e não subtração! É uma relação de inclusão!
Formamos um conjunto de intersecção que não se divide em frações tolas!
Nosso amor é unidade de medidas, proporções de mesma massa na balança.

Multiplique o mínimo de aproximação comum entre nós
E teremos conquistado o máximo de amor nos resultados.
Somos sistemas de equações simultâneas.
Desenhando juntos planos cartesianos num feixe paralelo de pernas.

Que bela composição de ângulos! Que enquadramento mágico na cena!
Resolva as sentenças abertas com duas variáveis:
- Ou leva zero no meu teste de apaixonado... Ou se entrega à fórmula natural do amor!
Não trago nenhum castigo pela sua nota
Ainda apanho igualzinho como na escola
Pois ainda estou aprendendo as regras do amor calculado

Alto-Programada

Por Jefferson Acácio

Não sou alto-programada!

Lava, enxuga, dobra e passa
Escuta e obedece, executa e agrada

Não sou alto-programada!

Que empresta meu corpo à cama
Que empresta minha boca ao teu beijo
Nem que empresta minhas ancas ao teu deleite

Não sou alto-programada!

A qualquer momento posso precisar de gestos mais sensíveis
Um casamento não pode se limitar às tarefas domésticas
E a cama não pode se limitar ao descanso da carne

Não sou alto-programada!

Pelas manhãs, não basta dizer de longe, apressado – Tchau, te amo!
Quem disse que o maior compromisso é a casa?
Antes de lavar os pratos, o banheiro, as roupas...
A faxina começa com um beijo de sugar a alma.

Pois é, não sou alto-programada!

Do Big-Bang ao Bang-Bang

Por Jefferson Acácio

O iluminismo das velas, terços e patuás.
Sinalizam a procissão se aproximando
Maquiagem natural de sofrimento no rosto
Vestígios de trabalho desenhados na mão

Mãos cravadas ao rosário
Acompanham o menino Jesus
Mãos firmes, no símbolo,
Carregam a cruz


Signos de morte na romaria
Existencial de vidas póstumas
Seguem em busca ritual
Da pós-fome, pós-sede, pós-carne, pós-alma.

Sagrada romaria de fé
Esse é o espírito tradicional
Enraizado no mundo materialístico
Onde o poder do homem robótico é mais holístico

Do big-bang ao bang-bang
Assistimos confortáveis no sofá
Homens compressos e miúdos
Em cenas esmiuçadas na TV

Guerreando por lucros entre as nações
Manifestando o luto nas emoções
E a luta de todos nós
Sobrevivendo à aventura lunática

Tomamos comprimidos
Para não regurgitar
Ingerimos toxinas de ganância e ódio
Injetamos venenos de prazer para no remediar


Respirar, voar, nos locomover...
São valores meramente convencionais
Estamos cada vez mais convencidos
Que a realidade de viver é consumir a vida

A propina empina o nariz e ensina
Que Deus é dinheiro no bolso
E muito dinheiro no bolso
É plástica no nariz

Assim, entramos numa cegueira coletiva.
Que nos impõem as imagens televisivas
Imaginem que ate mudo ficamos
Para não resmungar

Estamos regredindo ao tempo zero
Regularizando os parafusos industriais da cyberlogia
Se adaptando às condições
Da nova hipocondria social

Viva à antropofagia entre os homens cegos!
Viva ao homem entrando no pântano!
Viva as nossas prisões pessoais!
Viva cada vez mais aos carnavais!

Armaram um atentado para o amor
É o terrorismo entre os homens
Erguendo os muros altos de Berlim
E fazendo fronteiras pelas terras-do-sem-fim!

Solidificando-se...
Compressando-se...
Com pressa voltando à caverna
Escura e lodosa de Platão

Filas plantão nos hospitais
Para ver Madalenas apedrejadas
Para fotografar Joana D’Arc queimada
Rir do Judas condicionado à corda proposital

Estamos a um passo da cova
Covardes que somos,
Esquecemos Lutero
E pagamos indulgências pelo paraíso eterno

É que inventaram que existe
Imposto ate no céu
E o orçamento do purgatório
Parece estar em promoção

Que SUS-to! E vejo filas enormes
Parece o SUS!
Voltem depressa para a estrada
Certa e segura das romarias de JE-SUS!

Regozijem-se da herança prometida
Nas profecias de João
Porque o tempo... Ao contrario de Cazuza:
- O tempo pára!


VERSÕES MENORES:



Do Big-Bang ao Bang-Bang


O iluminismo das velas, terços e patuás.
Sinalizam a procissão se aproximando
Maquiagem natural de sofrimento no rosto
Vestígios de trabalho desenhados na mão

Mãos cravadas ao rosário
Acompanham o menino Jesus
Mãos firmes, no símbolo,
Carregam a cruz

Signos de morte na romaria
Existencial de vidas póstumas
Seguem em busca ritual
Da pós-fome, pós-sede, pós-carne, pós-alma.

Sagrada romaria de fé
Esse é o espírito tradicional
Enraizado no mundo materialístico
Onde o poder do homem robótico é mais holístico

Do big-bang ao bang-bang
Assistimos confortáveis no sofá
Homens guerreando por lucros entre as nações
Manifestando o luto nas emoções

Estamos a um passo da cova
Covardes que somos,
Esquecemos Lutero
E pagamos indulgências pelo paraíso eterno

É que inventaram que existe
Imposto ate no céu
E o orçamento do purgatório
Parece estar em promoção

Regozijem-se da herança prometida
Nas profecias de João
Porque a qualquer momento
Passaremos dessa aventura como poeira no espaço!

Cegos no pântano!


Respirar, voar, nos locomover...
São valores meramente convencionais
Estamos cada vez mais convencidos
Que a realidade de viver é consumir a vida

A propina empina o nariz e ensina
Que Deus é dinheiro no bolso
E muito dinheiro no bolso
É plástica no nariz

Armaram um atentado para o amor
É o terrorismo entre os homens
Erguendo os muros altos de Berlim
E fazendo fronteiras pelas terras-do-sem-fim!

Filas de plantão nos hospitais
Para ver Madalenas apedrejadas
Para fotografar Joana D’Arc queimada
Rir do Judas condicionado à corda proposital

Viva à antropofagia entre os homens em suas prisões pessoais
Compressando-se com pressa de volta ao lamaçal
Viva a Platão e o mito da caverna escura e lodosa!
Viva aos homens lutando pela sobrevivência no pântano da cegueira existencial!



sábado, 3 de abril de 2010

Douradinho Meia-Dia

Por Jefferson Acácio


Quando você tirar a venda
Não vai querer me vender pra ninguém
Vai me levar pro escurinho
Amor, um cineminha cai bem

Quando você visitar minha casa
Não vai querer outro caso com alguém
Vai me comprar pela boca
Amor, uma cervejinha cai bem

Se me arrastar para a cama
Prometo que não faço um drama
Se pensar que eu caí no seu papo
Amor, aí que você se engana

Quando você toca um pandeiro
Arrepia meu corpo inteiro
E quando amarra meu nome num verso
Declaro esse amor para o universo

Irá se importar quando eu escrever uma modinha
Irá se incomodar quando eu papear sobre você pra vizinha
Irá se irritar quando o feijão pegar na panela
Irá me amar mais, se eu deixar no teu corpo aroma de canela?

Cai bem te fazer subir pelas paredes
Pra concertar as goteiras do assoalho
Cai bem refogar você de óleo e alho
Pra te comer douradinho, ao meio-dia, bem temperado

quinta-feira, 1 de abril de 2010

* Taurinos, Arenas e Touradas

Por Jefferson Acácio


Quando terminamos um namoro, resolvemos ser donos da nossa própria vida, mesmo sem saber ao certo o que fazer, e ainda assim caímos nas armadilhas do entretenimento pra servir de comida, cobaia e mercadoria nos braços de monstros pitorescos. Eu ja cai em muitos desses abísmos. Com isso, já tive medo dos vampiros, sangue-sugas, feiticeiros, caçadores, e do lobo malvado das histórias infantis. Eu já havia superado a covardia por essas figuras masculinas sinistras, monstruosas, viris ou encantadoras, entretanto me deparei com um novo terror, que prefiro chamar de toureiro. Estes são tradicionalmente conhecidos como coches de gala, porque vestem-se como os rapazes do século XVIII ou os trajes do fim do século XIX. Sua aparência doce é contestável.

Taurino, como sou, busco a segurança, e por isso tento sair da rota de atração dos toureiros, mas o meu perfume exótico é captado vilmente pelo olfato apurado desses cavaleiros, e não há tempo de esconder-se, pois eles podem também chegar a cavalo, e interceptar minha fuga. Músculos, confrontos, suor, espadas e principalmente um talo verde de rosa vermelha carregado entre os dentes, e logo sou capturado pelo encantamento, do mesmo modo como atraio os jovens coches com meu inevitável temperamento sensual e a suavidade de meus cabelos.

Sou um taurino vulnerável, e carrego a senciência na minha natureza, assim tenho a sensível capacidade de sentir prazer, sofrimento ou fúria. A vulnerabilidade e a abstinência são minhas fraquezas confessas, assim escondo-me na pele invisível, áspera e empoeirada. Se tocarem minha pele serão despertados pela maciez, e farão de mim como os animais não-humanos - uma mera propriedade - dispondo da minha pele e da minha carne, para suprir seus desejos volumosos, e satisfazendo suas curiosidades volúveis, desde o paladar ou simplesmente por diversões voláteis.

Não escondo-me por muito tempo, pois a música me chama, assim como o cheiro de comida farta, de vinho doce, ou o cheiro de gente. Levo muito tempo resolvendo se quero um relacionamento realmente sério, pois tal conquista, quando vitoriosa, leva a minha noção de realidade, ou mais claramente, torno-me surdo por qualquer advertência de incompatibilidade apontadas pelos amigos. Quando apaixonado, quero transformar a semente em substância, aproximar o sol da lua, banhar-me de santa chuva e mergulhar em mil outras fantasias.

Certo domingo, um velho amigo visitara-me, contando nossas anedotas do passado, e outras lembranças das Ilhas Canárias, localizada numa região da Espanha, sendo Santa Cruz de Tenerife, a capital e nossa cidade natal. Rimos a beça, num clima descontraído, com bebidas e uma boa mesa, quando ele fez o convite para irmos a uma balada noturna. Convenceu-me rapidamente, pois tratava-se de um grande amigo, e não o deixaria insistir. Shasár é um dançarino, espanhol, da minha idade, 24 anos, quase do mesmo porte físico. Atualmente passamos uma vasta temporada no nordeste do Brasil, onde vim a turismo e nunca mais voltei até então. Trocamos figurinos, relembrando os velhos tempos, e fomos ao clube Tropicália, um luxuoso e recém reformado espaço de entretenimento de música eletrônica.

Ao chegar no local, assim que passamos pela porta que dá acesso à pista de dança, com os refletores quase hipnóticos e luzes vermelhas, enxerguei os olhares famintos. “Encontraram-me”, eu disse em pensamentos, balbuciando as palavras. Eles pareciam decifrar meus lábios simultaneamente. Um tocava nos ombros do outro, passando o comentário, e como um rastro de luz, todos os outros toureiros já estavam comunicados, que mais um taurino estava na arena eletrônica, e totalmente desprevenido. Shasár puxou-me pelo braço dizendo-me “Vamos Vegan, como nos velhos tempos!”, e assim me conduziu até a arena principal, próximo ao equipamento do DJ da noite. Eu sentia-me como um coelho numa armadilha, pronto para ser atacado.

Parecia a Plaza de Toros de las Ventas, em Madrid, mas tinha o clima atmosférico semelhante com a Plaza de Toros do México. Os outros touros estavam gastados, e no momento eu era a carne nova, que havia de ser repartida em pedaços iguais. Um novilho. O espetáculo havia começado, anunciado pela música estridente, e pelos assovios do público. A torcida estava eletrizante e expeliam fumaça de objetivas expectativas. Queriam ver a lide, e o touro completamente dominado.

Os forcados, grupo amador que enfrenta o touro a pé, foram os primeiros a avançar. Vestidos de adornos de ossos, pêlos e marfim. Os dentes trincavam, cheirando a sexo, e com um papo insolente e avassalador, com a tentativa de levar-me a uma vida social intensa, e me “castigar de prazer!”, dizia um deles, mascando um chilete, provavelmente antes de entrar no clube, e assim acreditava que chamava atenção. Foram muito insistentes, e tentaram imobilizar meu corpo com a força dos braços malhados, com um tom de madeira envernizada. Mas, eu continuei firme, enraizado na terra, e não cai na conversa.

Os bandarilheiros vieram em seguida, efetuando algumas manobras com um capote, com coreografias sincronizadas e sensuais, que pareciam dançarinos contratados para animar o ambiente. Admirei-os e até segui alguns passos. Havia um empinado, cintura curvada, com aqueles dois gumos na cintura. Outro derramou-lhe uma bebida nas costas. Este desceu, e ficou agaixado por alguns segundos, e então levantou-se como as morenas dos grupos de forró aqui do Brasil, jogando todo o traseiro para trás, faltando cinco centímetros para encostar em mim. Se eu estivesse nu, teria feito alguma diferença. Estes quase me cativaram, mas ainda não foi o bastante para derrubar este tauro. Vieram também os novilheiros, os campinos e outros intervenientes, aplicando as técnicas da arte tauromáquica.

Meu amigo Shasár estava o tempo todo ao meu lado, e corriqueiramente debruçava-se sobre os braços dos cavaleiros, enquanto eu media forças para defender-me. Estávamos no primeiro piso da Tropicália, e descemos para comprar um drink. Uma pausa para a entrada de um aventureiro, desconhecido para mim e Shasár, mas acalentava a espera dos demais. Era como a estrela daquela noite e vestia uma bela indumentária de rigor. Um tecido vermelho amarrado a cintura. Adornos de pérolas, penas, couro e camurça. Um tanto vampiresco, a pele alva, provavelmente fria e gélida do inverno fora daquele clube. Uma versão eletrônica de um tango tocou nesse exato momento. Em murmúrios e sussurros seu nome se repetia – Éduard Manert. Ele não olhou-me.

Eu continuava com a mesma sensação, como se estivesse correndo toda a arena pueril, repleta de pagantes ao redor, sentados nas arquibancadas, como no formato circular dos estádios de futebol, porém com um estilo romano, mais precisamente o Circo de Termes, na península ibérica, onde os celtiberos sacrificavam os touros em rituais sagrados. O vinho era servido em taças de ouro, e estes faziam as apostas em moeda, como nas competições de jóquei. A torcida clamava por sangue e desejavam o castigo do corpo. O meu corpo era o jogo. O corpo de um taurino, o corpo de um touro. E quem havia de ser meu capataz se todos os cavaleiros coches não conseguiram me derrotar? Mas confesso, que cansaram-me, minhas pernas já estavam quase frágeis de correr e eu clamava por Vênus para reger meus passos. E minha regente só mostrava-me o saliente rapaz, que parecia não me observar, ou assistia meu escarnio, esperando a hora do seu ataque de feromônio e virilidade. Ao meu redor só havia ele, Éduard! Éduard! Éduard! Bradava a plateia perturbando-me os pensamentos. Éduard! Repetia-se com uma cantiga de capoeira, rabo de arraia, benção, ponta-de-pé, rasteira. Eu estava completamente embevecido . E onde estaria Shasár? Meu nobre amigo abandonara-me.

Cansado e completamente passivo, vulnerável, e submisso feito um animal de circo entretendo o povo. Gargalhadas, palavrões e diversos tipos de ofensas.. Diziam aos berros “Agarrem-no pelos cornos, e puxem-no pelo rabo! Puxem-no pelo rabo!”, e cuspiam o vinho de uvas amargas, tal como denunciava o olhar de nojo. Em plena semana santa, e o pecado a flor da pele. Que frívolos e cruéis!

Vênus ainda não havia se manisfestado. Arrastei os pés no chão e supliquei por Gê, semelhante ao meu apelido na infância, embora seja mais conhecida como Gaia ou Géia, segunda divindade primordial após Caos, deusa da Terra, e dona de uma força absurda capaz de gerar sozinha o Urano, os Pontos e as Montanhas. Podia enviar um de seus doze filhos titãs, ou emprestar do peito o aço em foice afiada. Mas, nada. Eu estava mesmo sozinho, e rendido naquela noite de saga.

Quando a minha primeira gota de suor molhou o chão, Éduard curvou-se em minha direção, como um vampiro quando pressente o sangue latente de sua presa. Já fui mordido diversas vezes que acostumei-me, tanto que um dos meus últimos noivados falidos foi com um vampirinho de presas afiadas e olhar fulminante. Éduard aproximou-se tão rapidamente que eu poderia dizer que teletransporte existiu naquele momento, tal como os filmes contemporâneos. Em segundos suas mãos agarravam-me como uma águia, imobilizando-me, então passou a língua pelo meu pescoço da base do ombro até a ponta da orelha, arrepiando meus pêlos, e disse-me em latim “redemptio, corpus, taurus”.

E o grand finale havia chegado... A lide... o Confronto... A pega... Os demais cavaleiros vieram enfincando longas farpas e culminando em freqüentes enfiadas com ferros mais curtos, ditos “de palmos”. Éduard montou em meu dorso, ferozmente, amansando meu corpo até eu aceitar a dor. Aquela mesma dor de paixão, que eu havia recuperado do último namoro, estava novamente plantada no meu pulmão, pois no coração já seria crueldade demais. Em seguida, prometeu-me que iria me colocar ao lado das três estrelas mais brilhantes de tauri, Aldebarã, Alnath, e Hyadum I. Eu seria Delta, uma quarta estrela no espaço sideral.

Após o final deste espetáculo, saímos da balada no clube Tropicália, o sol radiante anunciava uma paixão ou no mínimo o coração amolecido, enfraquecido de tantas lutas e escudos, e praticamente esquecido dos próprio direitos de não ser tratado como propriedade. Desta vez escapei, mas aqui fora a arena tem a dimensão do planeta, e em qualquer lugar que eu vá, eles podem estar a minha espreita, a todo momento, exalando fumaça dos poros, a todo vapor. Estou a beira de novos confrontos... Taurinos, arenas e touradas.