domingo, 11 de abril de 2010

Cinzeiro

Por Jefferson Acácio


Aqui, reduzido às cinzas do teu cigarro.
Produto das tuas chamas apagadas
Consumistes-me até os calos e valores
Sou metade do teu vício jogado fora
Sou as sobras e as sombras de cada hora

Aqui, essa labareda entreapagada
Que aspira pelo teu oxigênio para reacender
Mas é perigo que caias de novo no vicio
Mas consumir-me é tua função,
Venha cheio de voracidade e excitação.

Antes das cinzas eu sou o cinzeiro
Antes do cinzeiro eu sou o teu cigarro e fumaça esvaída
Antes da fumaça eu sou chumaço de fogo e faísca
Eu sou um amante que causa dependência química
Eu sou a própria química da tua vida absenteísta.

Foto Vinicius Neves(http://www.vestudio-portfolio.blogspot.com/)

Amor Primitivo

Por Jefferson Acácio

Cuidado, sou homem da caverna
Sou de lá da pré-história
Só conheço o amor primitivo
Sou do tempo da pedra

Escrevo nosso nome com fogo
Feito escravo me entrego acorrentado
De geração por geração, de selva em selva
Desde ancestrais comuns, evoluirei ao teu lado

Sou um indelinquente apaixonado
Fugindo desse planeta modernizado
E por ti sempre desarmado
Nada mais tenho, que o amor primata

Não sou nenhum diplomata de terno, gravata e indecências
Estou por cima da pele viva, transcendendo a própria carne.
Explodindo de nostalgia, de essencialidade,
Recusando amores da artificialidade!

Não quero um amor de relicário
Desses que enfeitam cartas e porta-retratos
Quero o amor de Primitivos, quero falar essa linguagem!

Arrependimento Mata?

Por Jefferson Acácio

O teu “não” desencadeou meus passos amedrontados para o asfalto
Sem cuidado invadi o trânsito que parou contra meu delito.
Enfurecido, continuaram as pernas na desordem e no perigo
Desmontando-me entrei no meu carro.
Retrovisor quebrado.
Peguei a chave, sem controle, encarei o volante.

Não era dia chuvoso mais liguei o pára-brisa.
Não era noite, mas acionei os faróis.
Carro e lágrimas em alta velocidade
Não estava embriagado, mas via tudo girar.

O “não” martelava na cabeça e eu mastigava-o na boca.
Ele era o fonema, meu combustível infinito fugindo da garganta aos soluços.
Eu seguia somente a sinalização na pista
E uma idéia fixa de delinqüente, dirigindo na contramão.
Sem freios cruzando as esquinas e bairros sem nome.
E na curva à direita não enxerguei as placas
O susto!...Outro carro!... E meu grito desesperado:
- Não!

Esse foi o pesadelo de uma noite perturbada
Quando o teu não me pareceu uma faca afiada
Ao acordar assustado, estava você ainda ao meu lado
Dizendo-me um “Sim” atrasado, constrangido
Então veio na minha cabeça uma pergunta
Que só a mim fazia sentido:
- Arrependimento mata?

Amor Introvertido

Por Jefferson Acácio



Fixamos o olhar e nossos disfarces se revelam.
Está implícita a exaltação de ânimos
Cada vez que nos encontramos
Nossas almas se amassam antes que o corpo confesse

Está claro que nos enamoramos escondidos
Numa intimidade em algum mundo paralelo
E não há resgate desse universo isolado
Intimados pelos julgamentos convencionados

Em plena modernidade, reside ainda o clero
E nossos sentimentos exilados dessa repressão
Cada sorriso nosso nos condena
Convivemos em cada suspiro etéreo

E nossas línguas se acariciam em ambientes esotéricos
E tudo se torna tão introspectivo
Um amor que se expressa cá dentro
Nesse peito envergonhado, achando que amar é pecado

Fixamos o olhar
É doçura
E habitamos num lugar
Onde se conservam o amor introvertido

Amor Calculado

Por Jefferson Acácio



Aprendi nos tempos de escola
Que a matemática está presente em tudo na vida
Eu ainda não tinha conhecimento da tabuada
E ainda apanhava de palmatoria para aprender a raíz quadrada

Muito eu treinava de tanto teste mal feito
Pelo menos a matemática do amor não podía ter defeito
Levei os cálculos à risca e aprendi o amor nas sentenças
A matemática não falha, pois que tudo é equilibrado

Então amor, nao duvide de mim quando lhe dou essa flor
Reconheça meu cálculo e minha lógica matemática
Somos produtos notáveis apaixonados!
Uma relação de pertinência, eu sou teu, e você é meu. (Ponto)

Não há como fugir dessa condição.
É adição e não subtração! É uma relação de inclusão!
Formamos um conjunto de intersecção que não se divide em frações tolas!
Nosso amor é unidade de medidas, proporções de mesma massa na balança.

Multiplique o mínimo de aproximação comum entre nós
E teremos conquistado o máximo de amor nos resultados.
Somos sistemas de equações simultâneas.
Desenhando juntos planos cartesianos num feixe paralelo de pernas.

Que bela composição de ângulos! Que enquadramento mágico na cena!
Resolva as sentenças abertas com duas variáveis:
- Ou leva zero no meu teste de apaixonado... Ou se entrega à fórmula natural do amor!
Não trago nenhum castigo pela sua nota
Ainda apanho igualzinho como na escola
Pois ainda estou aprendendo as regras do amor calculado

Alto-Programada

Por Jefferson Acácio

Não sou alto-programada!

Lava, enxuga, dobra e passa
Escuta e obedece, executa e agrada

Não sou alto-programada!

Que empresta meu corpo à cama
Que empresta minha boca ao teu beijo
Nem que empresta minhas ancas ao teu deleite

Não sou alto-programada!

A qualquer momento posso precisar de gestos mais sensíveis
Um casamento não pode se limitar às tarefas domésticas
E a cama não pode se limitar ao descanso da carne

Não sou alto-programada!

Pelas manhãs, não basta dizer de longe, apressado – Tchau, te amo!
Quem disse que o maior compromisso é a casa?
Antes de lavar os pratos, o banheiro, as roupas...
A faxina começa com um beijo de sugar a alma.

Pois é, não sou alto-programada!

Do Big-Bang ao Bang-Bang

Por Jefferson Acácio

O iluminismo das velas, terços e patuás.
Sinalizam a procissão se aproximando
Maquiagem natural de sofrimento no rosto
Vestígios de trabalho desenhados na mão

Mãos cravadas ao rosário
Acompanham o menino Jesus
Mãos firmes, no símbolo,
Carregam a cruz


Signos de morte na romaria
Existencial de vidas póstumas
Seguem em busca ritual
Da pós-fome, pós-sede, pós-carne, pós-alma.

Sagrada romaria de fé
Esse é o espírito tradicional
Enraizado no mundo materialístico
Onde o poder do homem robótico é mais holístico

Do big-bang ao bang-bang
Assistimos confortáveis no sofá
Homens compressos e miúdos
Em cenas esmiuçadas na TV

Guerreando por lucros entre as nações
Manifestando o luto nas emoções
E a luta de todos nós
Sobrevivendo à aventura lunática

Tomamos comprimidos
Para não regurgitar
Ingerimos toxinas de ganância e ódio
Injetamos venenos de prazer para no remediar


Respirar, voar, nos locomover...
São valores meramente convencionais
Estamos cada vez mais convencidos
Que a realidade de viver é consumir a vida

A propina empina o nariz e ensina
Que Deus é dinheiro no bolso
E muito dinheiro no bolso
É plástica no nariz

Assim, entramos numa cegueira coletiva.
Que nos impõem as imagens televisivas
Imaginem que ate mudo ficamos
Para não resmungar

Estamos regredindo ao tempo zero
Regularizando os parafusos industriais da cyberlogia
Se adaptando às condições
Da nova hipocondria social

Viva à antropofagia entre os homens cegos!
Viva ao homem entrando no pântano!
Viva as nossas prisões pessoais!
Viva cada vez mais aos carnavais!

Armaram um atentado para o amor
É o terrorismo entre os homens
Erguendo os muros altos de Berlim
E fazendo fronteiras pelas terras-do-sem-fim!

Solidificando-se...
Compressando-se...
Com pressa voltando à caverna
Escura e lodosa de Platão

Filas plantão nos hospitais
Para ver Madalenas apedrejadas
Para fotografar Joana D’Arc queimada
Rir do Judas condicionado à corda proposital

Estamos a um passo da cova
Covardes que somos,
Esquecemos Lutero
E pagamos indulgências pelo paraíso eterno

É que inventaram que existe
Imposto ate no céu
E o orçamento do purgatório
Parece estar em promoção

Que SUS-to! E vejo filas enormes
Parece o SUS!
Voltem depressa para a estrada
Certa e segura das romarias de JE-SUS!

Regozijem-se da herança prometida
Nas profecias de João
Porque o tempo... Ao contrario de Cazuza:
- O tempo pára!


VERSÕES MENORES:



Do Big-Bang ao Bang-Bang


O iluminismo das velas, terços e patuás.
Sinalizam a procissão se aproximando
Maquiagem natural de sofrimento no rosto
Vestígios de trabalho desenhados na mão

Mãos cravadas ao rosário
Acompanham o menino Jesus
Mãos firmes, no símbolo,
Carregam a cruz

Signos de morte na romaria
Existencial de vidas póstumas
Seguem em busca ritual
Da pós-fome, pós-sede, pós-carne, pós-alma.

Sagrada romaria de fé
Esse é o espírito tradicional
Enraizado no mundo materialístico
Onde o poder do homem robótico é mais holístico

Do big-bang ao bang-bang
Assistimos confortáveis no sofá
Homens guerreando por lucros entre as nações
Manifestando o luto nas emoções

Estamos a um passo da cova
Covardes que somos,
Esquecemos Lutero
E pagamos indulgências pelo paraíso eterno

É que inventaram que existe
Imposto ate no céu
E o orçamento do purgatório
Parece estar em promoção

Regozijem-se da herança prometida
Nas profecias de João
Porque a qualquer momento
Passaremos dessa aventura como poeira no espaço!

Cegos no pântano!


Respirar, voar, nos locomover...
São valores meramente convencionais
Estamos cada vez mais convencidos
Que a realidade de viver é consumir a vida

A propina empina o nariz e ensina
Que Deus é dinheiro no bolso
E muito dinheiro no bolso
É plástica no nariz

Armaram um atentado para o amor
É o terrorismo entre os homens
Erguendo os muros altos de Berlim
E fazendo fronteiras pelas terras-do-sem-fim!

Filas de plantão nos hospitais
Para ver Madalenas apedrejadas
Para fotografar Joana D’Arc queimada
Rir do Judas condicionado à corda proposital

Viva à antropofagia entre os homens em suas prisões pessoais
Compressando-se com pressa de volta ao lamaçal
Viva a Platão e o mito da caverna escura e lodosa!
Viva aos homens lutando pela sobrevivência no pântano da cegueira existencial!



sábado, 3 de abril de 2010

Douradinho Meia-Dia

Por Jefferson Acácio


Quando você tirar a venda
Não vai querer me vender pra ninguém
Vai me levar pro escurinho
Amor, um cineminha cai bem

Quando você visitar minha casa
Não vai querer outro caso com alguém
Vai me comprar pela boca
Amor, uma cervejinha cai bem

Se me arrastar para a cama
Prometo que não faço um drama
Se pensar que eu caí no seu papo
Amor, aí que você se engana

Quando você toca um pandeiro
Arrepia meu corpo inteiro
E quando amarra meu nome num verso
Declaro esse amor para o universo

Irá se importar quando eu escrever uma modinha
Irá se incomodar quando eu papear sobre você pra vizinha
Irá se irritar quando o feijão pegar na panela
Irá me amar mais, se eu deixar no teu corpo aroma de canela?

Cai bem te fazer subir pelas paredes
Pra concertar as goteiras do assoalho
Cai bem refogar você de óleo e alho
Pra te comer douradinho, ao meio-dia, bem temperado

quinta-feira, 1 de abril de 2010

* Taurinos, Arenas e Touradas

Por Jefferson Acácio


Quando terminamos um namoro, resolvemos ser donos da nossa própria vida, mesmo sem saber ao certo o que fazer, e ainda assim caímos nas armadilhas do entretenimento pra servir de comida, cobaia e mercadoria nos braços de monstros pitorescos. Eu ja cai em muitos desses abísmos. Com isso, já tive medo dos vampiros, sangue-sugas, feiticeiros, caçadores, e do lobo malvado das histórias infantis. Eu já havia superado a covardia por essas figuras masculinas sinistras, monstruosas, viris ou encantadoras, entretanto me deparei com um novo terror, que prefiro chamar de toureiro. Estes são tradicionalmente conhecidos como coches de gala, porque vestem-se como os rapazes do século XVIII ou os trajes do fim do século XIX. Sua aparência doce é contestável.

Taurino, como sou, busco a segurança, e por isso tento sair da rota de atração dos toureiros, mas o meu perfume exótico é captado vilmente pelo olfato apurado desses cavaleiros, e não há tempo de esconder-se, pois eles podem também chegar a cavalo, e interceptar minha fuga. Músculos, confrontos, suor, espadas e principalmente um talo verde de rosa vermelha carregado entre os dentes, e logo sou capturado pelo encantamento, do mesmo modo como atraio os jovens coches com meu inevitável temperamento sensual e a suavidade de meus cabelos.

Sou um taurino vulnerável, e carrego a senciência na minha natureza, assim tenho a sensível capacidade de sentir prazer, sofrimento ou fúria. A vulnerabilidade e a abstinência são minhas fraquezas confessas, assim escondo-me na pele invisível, áspera e empoeirada. Se tocarem minha pele serão despertados pela maciez, e farão de mim como os animais não-humanos - uma mera propriedade - dispondo da minha pele e da minha carne, para suprir seus desejos volumosos, e satisfazendo suas curiosidades volúveis, desde o paladar ou simplesmente por diversões voláteis.

Não escondo-me por muito tempo, pois a música me chama, assim como o cheiro de comida farta, de vinho doce, ou o cheiro de gente. Levo muito tempo resolvendo se quero um relacionamento realmente sério, pois tal conquista, quando vitoriosa, leva a minha noção de realidade, ou mais claramente, torno-me surdo por qualquer advertência de incompatibilidade apontadas pelos amigos. Quando apaixonado, quero transformar a semente em substância, aproximar o sol da lua, banhar-me de santa chuva e mergulhar em mil outras fantasias.

Certo domingo, um velho amigo visitara-me, contando nossas anedotas do passado, e outras lembranças das Ilhas Canárias, localizada numa região da Espanha, sendo Santa Cruz de Tenerife, a capital e nossa cidade natal. Rimos a beça, num clima descontraído, com bebidas e uma boa mesa, quando ele fez o convite para irmos a uma balada noturna. Convenceu-me rapidamente, pois tratava-se de um grande amigo, e não o deixaria insistir. Shasár é um dançarino, espanhol, da minha idade, 24 anos, quase do mesmo porte físico. Atualmente passamos uma vasta temporada no nordeste do Brasil, onde vim a turismo e nunca mais voltei até então. Trocamos figurinos, relembrando os velhos tempos, e fomos ao clube Tropicália, um luxuoso e recém reformado espaço de entretenimento de música eletrônica.

Ao chegar no local, assim que passamos pela porta que dá acesso à pista de dança, com os refletores quase hipnóticos e luzes vermelhas, enxerguei os olhares famintos. “Encontraram-me”, eu disse em pensamentos, balbuciando as palavras. Eles pareciam decifrar meus lábios simultaneamente. Um tocava nos ombros do outro, passando o comentário, e como um rastro de luz, todos os outros toureiros já estavam comunicados, que mais um taurino estava na arena eletrônica, e totalmente desprevenido. Shasár puxou-me pelo braço dizendo-me “Vamos Vegan, como nos velhos tempos!”, e assim me conduziu até a arena principal, próximo ao equipamento do DJ da noite. Eu sentia-me como um coelho numa armadilha, pronto para ser atacado.

Parecia a Plaza de Toros de las Ventas, em Madrid, mas tinha o clima atmosférico semelhante com a Plaza de Toros do México. Os outros touros estavam gastados, e no momento eu era a carne nova, que havia de ser repartida em pedaços iguais. Um novilho. O espetáculo havia começado, anunciado pela música estridente, e pelos assovios do público. A torcida estava eletrizante e expeliam fumaça de objetivas expectativas. Queriam ver a lide, e o touro completamente dominado.

Os forcados, grupo amador que enfrenta o touro a pé, foram os primeiros a avançar. Vestidos de adornos de ossos, pêlos e marfim. Os dentes trincavam, cheirando a sexo, e com um papo insolente e avassalador, com a tentativa de levar-me a uma vida social intensa, e me “castigar de prazer!”, dizia um deles, mascando um chilete, provavelmente antes de entrar no clube, e assim acreditava que chamava atenção. Foram muito insistentes, e tentaram imobilizar meu corpo com a força dos braços malhados, com um tom de madeira envernizada. Mas, eu continuei firme, enraizado na terra, e não cai na conversa.

Os bandarilheiros vieram em seguida, efetuando algumas manobras com um capote, com coreografias sincronizadas e sensuais, que pareciam dançarinos contratados para animar o ambiente. Admirei-os e até segui alguns passos. Havia um empinado, cintura curvada, com aqueles dois gumos na cintura. Outro derramou-lhe uma bebida nas costas. Este desceu, e ficou agaixado por alguns segundos, e então levantou-se como as morenas dos grupos de forró aqui do Brasil, jogando todo o traseiro para trás, faltando cinco centímetros para encostar em mim. Se eu estivesse nu, teria feito alguma diferença. Estes quase me cativaram, mas ainda não foi o bastante para derrubar este tauro. Vieram também os novilheiros, os campinos e outros intervenientes, aplicando as técnicas da arte tauromáquica.

Meu amigo Shasár estava o tempo todo ao meu lado, e corriqueiramente debruçava-se sobre os braços dos cavaleiros, enquanto eu media forças para defender-me. Estávamos no primeiro piso da Tropicália, e descemos para comprar um drink. Uma pausa para a entrada de um aventureiro, desconhecido para mim e Shasár, mas acalentava a espera dos demais. Era como a estrela daquela noite e vestia uma bela indumentária de rigor. Um tecido vermelho amarrado a cintura. Adornos de pérolas, penas, couro e camurça. Um tanto vampiresco, a pele alva, provavelmente fria e gélida do inverno fora daquele clube. Uma versão eletrônica de um tango tocou nesse exato momento. Em murmúrios e sussurros seu nome se repetia – Éduard Manert. Ele não olhou-me.

Eu continuava com a mesma sensação, como se estivesse correndo toda a arena pueril, repleta de pagantes ao redor, sentados nas arquibancadas, como no formato circular dos estádios de futebol, porém com um estilo romano, mais precisamente o Circo de Termes, na península ibérica, onde os celtiberos sacrificavam os touros em rituais sagrados. O vinho era servido em taças de ouro, e estes faziam as apostas em moeda, como nas competições de jóquei. A torcida clamava por sangue e desejavam o castigo do corpo. O meu corpo era o jogo. O corpo de um taurino, o corpo de um touro. E quem havia de ser meu capataz se todos os cavaleiros coches não conseguiram me derrotar? Mas confesso, que cansaram-me, minhas pernas já estavam quase frágeis de correr e eu clamava por Vênus para reger meus passos. E minha regente só mostrava-me o saliente rapaz, que parecia não me observar, ou assistia meu escarnio, esperando a hora do seu ataque de feromônio e virilidade. Ao meu redor só havia ele, Éduard! Éduard! Éduard! Bradava a plateia perturbando-me os pensamentos. Éduard! Repetia-se com uma cantiga de capoeira, rabo de arraia, benção, ponta-de-pé, rasteira. Eu estava completamente embevecido . E onde estaria Shasár? Meu nobre amigo abandonara-me.

Cansado e completamente passivo, vulnerável, e submisso feito um animal de circo entretendo o povo. Gargalhadas, palavrões e diversos tipos de ofensas.. Diziam aos berros “Agarrem-no pelos cornos, e puxem-no pelo rabo! Puxem-no pelo rabo!”, e cuspiam o vinho de uvas amargas, tal como denunciava o olhar de nojo. Em plena semana santa, e o pecado a flor da pele. Que frívolos e cruéis!

Vênus ainda não havia se manisfestado. Arrastei os pés no chão e supliquei por Gê, semelhante ao meu apelido na infância, embora seja mais conhecida como Gaia ou Géia, segunda divindade primordial após Caos, deusa da Terra, e dona de uma força absurda capaz de gerar sozinha o Urano, os Pontos e as Montanhas. Podia enviar um de seus doze filhos titãs, ou emprestar do peito o aço em foice afiada. Mas, nada. Eu estava mesmo sozinho, e rendido naquela noite de saga.

Quando a minha primeira gota de suor molhou o chão, Éduard curvou-se em minha direção, como um vampiro quando pressente o sangue latente de sua presa. Já fui mordido diversas vezes que acostumei-me, tanto que um dos meus últimos noivados falidos foi com um vampirinho de presas afiadas e olhar fulminante. Éduard aproximou-se tão rapidamente que eu poderia dizer que teletransporte existiu naquele momento, tal como os filmes contemporâneos. Em segundos suas mãos agarravam-me como uma águia, imobilizando-me, então passou a língua pelo meu pescoço da base do ombro até a ponta da orelha, arrepiando meus pêlos, e disse-me em latim “redemptio, corpus, taurus”.

E o grand finale havia chegado... A lide... o Confronto... A pega... Os demais cavaleiros vieram enfincando longas farpas e culminando em freqüentes enfiadas com ferros mais curtos, ditos “de palmos”. Éduard montou em meu dorso, ferozmente, amansando meu corpo até eu aceitar a dor. Aquela mesma dor de paixão, que eu havia recuperado do último namoro, estava novamente plantada no meu pulmão, pois no coração já seria crueldade demais. Em seguida, prometeu-me que iria me colocar ao lado das três estrelas mais brilhantes de tauri, Aldebarã, Alnath, e Hyadum I. Eu seria Delta, uma quarta estrela no espaço sideral.

Após o final deste espetáculo, saímos da balada no clube Tropicália, o sol radiante anunciava uma paixão ou no mínimo o coração amolecido, enfraquecido de tantas lutas e escudos, e praticamente esquecido dos próprio direitos de não ser tratado como propriedade. Desta vez escapei, mas aqui fora a arena tem a dimensão do planeta, e em qualquer lugar que eu vá, eles podem estar a minha espreita, a todo momento, exalando fumaça dos poros, a todo vapor. Estou a beira de novos confrontos... Taurinos, arenas e touradas.

quinta-feira, 4 de março de 2010

O Jeito de Pensar

Por Jefferson Acácio



Nem sempre estamos alinhados com os nossos reais propósitos, ou nem pensamos ainda sobre o que estamos vivendo, simplesmente nos permitimos usufruir do ato de existir. E assim por diante, envelhecemos a cada passar de horas, enquanto que nosso consciente julga-se jovem. Se alcançamos a melhor idade caímos no conceito primitivo de profetizar os acontecimentos respaldados da nossa enganosa sabedoria. O tempo não determina nosso grau de sabedoria sobre as coisas, quanto mais se nossos conceitos se endereçarem no passado.

Uma criança com toda a sua inocência, pode inconscientemente, perceber que viver não é apenas historiar. Isso também não significa que nossas experiências não tenham significados, pelo contrário, não merecem nossa barbárie e censura. A relativização do tempo é real, nossos relógios biológicos é que não estão sincronizados. Ver é olhar mais do que de perto, é enxergar do outro lado, é exorcizar os fatos e diagnosticá-lo às aversas. Há uma selvageria de simbolos, convenções sociais, estigmatizações e subalternizações de identidades para que um indivíduo esteja consolidado socialmente.

Nunca teremos aprendido o suficiente, e ainda assim acreditamos na lógica orgânica que o envelhecimento responde a conformidade com o nosso processo de amadurecimento. Muitas pessoas dedicam-se a um estilo de vida recolhida de meros anceios e metas capitalistas, ou sonhos emergentes. Nosso ato de viver é condensado pela necessidade de sobrevivência. É nesse abismo existencial de discentramento que construimos nossas realidades. O tempo não abre nossos olhos, nem os fecha, e a morte não é a redencão ou o caminho da verdade. É o teu processo de pensamento, seu jeito de perceber esse mundo que determinará a tua sabedoria. Você pode viver cem anos e não ter mudado sequer um ponto de vista, e ter cometido cem vezes o mesmo erro, e ter se arrependido em dobro por cada falha, e depois chamar isto de "experiência de vida”, e filosofar belamente sobre as cenas que viveu.
Só para exemplificar, certa vez, um sábio senhor caminhava por um jardim, na verdade, um corredor florido. De um lado, flores delicadamente murchas e desbotadas, e do outro flores grosseiramente perfeitas. Não era algum caso de descuido ou desmatamento. Havia um segredo mágico e misterioso. O sábio manifestou um ar de obviedade e balbuciou estas palavras: - “Tenho vivido longos anos, e em muitas estradas já andei. E mesmo por ser a primeira vez que vejo um jardim com flores tão desiguais como essa, ainda assim não me surpreendo. Posso compará-las às sociedades em que visitei”.

Um garoto, aproximara do mesmo jardim, e logo foi convidado pelo sábio senhor que anciava por discursar sobre a vida. E começou a teorizar sobre a sociedade, e explicando que aquelas flores representavam as desigualdades sociais, e assim por diante discutiu sobre probreza, governo, histórias e tudo o que conseguiu pescar da sua memória arqueológica. Após horas de conversa, o garoto ilustrou a situação das flores daquele jardim, do qual inspirava as observações de vida do sábio senhor e contrapôs as predileções que ouvira. “Senhor, não acredito que essas flores representem a desigualdade social. Se observar mais de perto verá claramente que as flores com aspectos envelhecidos, na verdade, são reais e evidenciam um processo natural, enquanto que as flores belas são simplesmente artificiais”, retrucou o garoto discordando do senhor. O sábio senhor, obviamente, ficou perplexo. Ele não havia observado as flores tão de perto. O seu modo de pensar estava radicalmente baseado no passado, tanto que esqueceu de abrir os olhos para a realidade evidente.

É o seu jeito de pensar que julga os fatos e as pessoas, e se não tomar cuidado com as visões que desenhou sobre a vida, o espírito leviano poderá tomar conta da sua fronte.

Minha Nudez

Por Jefferson Acácio

Nas manhãs e nas madrugadas
Meu corpo se ilumina e se apaga
Veste-se de purezas e pecado
Lembranças da noite passada

Da noite no cais e os cortejos do luar
Dos carnavais de cada noite serena
Das minhas caçadas noturnas por uma graça
Por uma troca de prazer de graça

Começo a nudez já no olhar
Sem mascaras à minha frente a me vestir
Despido da inocência é réu confesso
Meu corpo corre campos de batalhas

Meu querer e o meu fazer
Banha-se nas ribeiras, brinca de se molhar no outro
De fazer festa! De fazer euforia! De fazer navegações
É um oceano imenso que nunca adormece.

Corpo, traços e desejos
Impetuosamente destemido de pecados
Sacia fome e sede, agita e esgota
Corpo, benção, pulso, nudez premeditada

Sabedoria do Existir (Juventude)

Por Jefferson Acácio



Não espere envelhecer para conhecer a sabedoria do existir
Não espere as rugas para reconhecer sua beleza
Não crucifique tuas falhas, retraindo novas tentativas
Não basta apenas viver e esperar pelos acontecimentos

Você pode criar as suas próprias situações no tempo
A vida não é uma narrativa categorizada por capítulos
O ontem não precisa necessariamente repetir-se hoje
Cada dia você exerce os seus poderes

Quando se está triste você pode cantar
Quando se está monótono pode-se também dançar
Quando se tem medo de alguma coisa, é válido enfrentar
Quando o tempo é curto você pode ao menos sorrir

Esteja próximo de quem você ama
E se não estiver perto, mande cartas de amor
Há muito tempo não enviamos cartas com nossa própria letra
Depois que aprendemos a digitá-las

Se não sabe fazer um belo poema, conte então uma piada
Se não sabe desenhar, ao menos rabisque
Se não tem idéia do que fazer pra se divertir, viaje
Se não acostumou-se com o escuro, oriente-se pelo tato

Rime
Dramatize
Pinte
Estique-se

Antes de dormir, ore
Antes de vencer, agradeça
Antes de fazer sexo, use camisinha
Antes de fazer um filho, cresça

Após as refeições escove os dentes
Após olhar nos olhos diga a verdade
Após beijar, ensine ou aprenda a namorar
Após uma mentira insignificante, perdoe

Beije
Ame
Namore
Case

Para cada lágrima um abraço
Para cada abraço, energia
Em cada energia, retribuição
Em retribuição basta carinho

Chore
Perdoe
Erre
Tente

No lugar de palavrões, uma rima
No lugar da maldade e vingança, oração
No lugar da fraqueza, coragem
No lugar do sedentarismo, exercício físico

Descanse, ninguém é de ferro!
Arrisque-se, já que não tem certeza!
Acredite, só você conhece a própria capacidade!
Sonhe, não há mal acordar na mesma realidade!

Grite, num lugar que tenha algum eco
Registre, para evocar esse momento no futuro
Mergulhe, é uma sensação de estar noutro mundo
Voe, afinal de olhos fechados tudo se pode imaginar

Brinque, do mesmo jeito que fazia quando criança
Para matar a saudade, relembre
Pule o mais alto que conseguir alcançar
Se jogue no que você deseja, mas cuidado para não se machucar

Invente
Observe
Medite
Estude

Preste atenção nos conselhos
Escolha direito para não se arrepender depois
Se fez a escolha errada, concerte
Não consegue dizer com palavras, use os gestos

A juventude não tem idade
O envelhecimento é atemporal
Contemple a vida o quanto pode
Não se lamente pelo o que não fez no final

Homem, Decadência, Evolução

Por Jefferson Acácio


O homem descobriu a comunicação e fez a linguagem
A linguagem é ferramenta ideológica e com ela faz-se guerra
O homem foi coroado com o poder da escolha
A escolha levou o homem à vergonha do pecado
O homem inventou a justiça
A justiça libertou Barrabás
O homem institui as religiões
A religião condenou a revolucionária Joana D’Arc.
O homem, para entender o universo, desenvolveu a ciência
A ciência foi o calvário de Giordiano que defendia Copérnico.
O homem categorizou os povos por raça
A raça é a diferença recusada, por isto morreram revolucionários
O homem estudou a fé e formou uma doutrina
A doutrina castigou os índios e roubou-lhes as crenças
O homem em fuga de tanta atrocidade adoeceu de esquecimento
Natureza Humana... Perfeita contradição!
O Homem está na Decadência, e não na Evolução!

Arquivo Inativo

Por Jefferson Acácio


De volta ao meu sistema operacional
De volta aos meus planos, ao meu radical
Meus arquivos de origem, meus megas
Meus discos rígidos todos formatados

Estou novamente zerado, novo de fábrica
Pronto para outras convenções
Instalando modernos aplicativos

Minha mente é ciberespaço
Meu corpo é um maquinário siliconado
Cada ar que respiro é um byte estocado
Meu sexo é um programa de simulação virtual
Meu suor é lítio e minha inteligência é digital

Tenho de tudo nessa nova base sistemática
De tudo posso nessa fase tecnológica
Tenho de todos os recursos do poder humano

Sou ISO. Só me falta ligar alguns dispositivos
Só me falta ligar o amor
Que até então, é arquivo inativo.

Alma e Flores, Corpo e Bosques

Por Jefferson Acácio


Minha alma se deleita no berço dos amores
E meu corpo caminha por bosques encantados
Mas estão fazendo de mim um inventário
O que estão dizendo sobre mim é o contrário

Eu quis me contrapor, eu pensei em me impor
Eu reneguei, eu revoguei propostas de amor
Meu autocontrole desprogramado.
Sou agora um protagonista deste documentário

Minha vida documentada
Meus sonhos redirecionados
Eu queria flores todos os dias na minha cama
Eu queria ainda os verdes bosques nessa trama

E o mundo, com sua beleza mórbida
Foi tomando de mim os contos de fadas
E o mundo, com sua arte surreal
Foi dizendo que o amor não é real

E onde estou afinal?
Em que mundo ficou os meus sonhos?
Em que pomar se escondeu minha amada?
Em que bosque se isolou a minha alma?

Meu amor não é um evento fútil
Em que se repetem beijos e declarações emocionantes.
Nem é uma fase relâmpago de cenas novas
Meu amor não é fábrica de futuras amantes.

Não estou contracenando Shakespeare
Minha alma não quer um amor que acredita no próprio fim.
Alma está para flores
Meu corpo está para os bosques

Adoro-te

Por Jefferson Acácio


Adoro sua inconstância
Suas peraltices de menino desatinado.
E quando você está ligado
E quando se desliga.

Quando parte não leva nada de mim
E quando volta traz tudo o que preciso
Rouba-me as verdades e me compra com as mentiras

Adoro seu vendaval
Quando me arrasa por dentro
E consome minhas horas
Derrota minha paciência
Me esgota em lágrimas
Esvanece meu tempo

Adoro-te...

Como uma flor no jarro
Água na chaleira
O verbo ainda não conjugado
O dia que ainda não nasceu

Adoro sua ausência nos lugares que ando
E ainda assim, sua presença em mim
Onde o tenho de verdade como minha propriedade

Adoro como faz comigo e com as outras
Quando busco por você nas bocas sedentas
Somente adoro em palavras desmedidas
Em suspiros altos, que acordam as paredes da casa
Adoro-te em pensamentos e cegueiras

A Volante

Por Jefferson Acácio


Colocaram-me a volante, no controle do meu arbítrio
Devo me dirigir nas vias da conduta e bater o carro na censura.
Voar para sentir-se livre e cair desenfreado
Ultrapassar cada obstáculo e avançar os sinais vermelhos.
Enfrentar tempestades, buracos, nuvens e pedras no asfalto
Fazer o possível para chegar em algum lugar

Em busca de portos marítimos, aéreo e rodoviário...
E sempre preparado para os constantes embarques e desembarques.
Entre tantos faróis, comandos, e semáforos.
Às vezes perdendo as rotas, e desconhecendo o chão que me sustenta

Não estou tão seguro de mim
Vou sair atrasado, vou correr contra o tempo
Perder a direção, manobrar na contramão
E vou cantando pela estrada, guiando-me sem volante
E enxugando o rastro da chuva no pára-brisa...
Sem medo, vou sem freios na rodagem.

A Lenda

Por Jefferson Acácio


Reza a lenda que o ser humano sabe viver em sociedade, e desde que aprendeu a comunicar-se, foi abençoado por técnicas que segregariam a melhor convivência e desenvolvimento das relações humanas. Silenciosamente a lenda é desmistificada quando deparada com a realidade do mundo. De fato, é uma aldeia global, de muitas tribos, de diminuição das fronteiras da informação. Uma aldeia na mensura de um planeta.

Por sorte ou azar, estamos endereçados nesse mundo, e querendo ou não rupturas sociais nos envergonham em face a idealizações que asseveramos vilmente que mudariamos a realidade refletida em processos hegemônicos de confrontos sociais, politicos, relgiosos e culturais. O homem dedica mais tempo com a morte dos seus principios que a vitalização da lenda que se concebeu em suas ancestralidades. A derrota do amor e da paz mundial é rogada por nós pecadores como prova da nossa ignorância.

Temos uma meta de construir a melhoria dos relacionamentos, e não o isolamento. Muitas vezes sublinhamos como paz a eliminação da presença de quem nos oprime, do que nos provoca e de quem nos inveja. É uma meta incrivelmente simples, que depende apenas da resignação da ignorância humana de pensar apenas no próprio nariz.
Enquanto que substanciados nas metas universais, há pequenas e inúmeras ações que deviamos desempenhar a cada instante da nossa vida, contribuindo para a solidificação do amor. Se soubessemos diluidamente cada segundo de estar sozinhos, saberiamos valorizar melhor a presença do outro. Estamos no escuro, descumprindo promessas, errando os caminhos, contemplando as individualidades, rompendo com os principios e preceitos do amor.

Quantas vezes a cegueira ou miopia da consciência nos fez desmoralizar a alma? Corrompendo-se na entrega dos seus valores essências por uma troca simples e diversificada de prazer, seja pela vaidade e ganância, ou pela obsessão de saciar a carne. Precisamos nos refazer e fazer valer a lenda.

terça-feira, 2 de março de 2010

* Anônima, Café e Melodia

Por Jefferson Acácio


“Quero café!” – Foi seu penúltimo pedido assim que acordara. Meus olhos já espojavam sob o corpo dela. O cetim rasgado do lençol, as peças de roupas ainda espalhadas pelo chão do meu quarto e minha admiração por ela confirmavam que “gozei!” – repetia meu subconsciente provocando um sentimento de penetração.

A conheci nas minhas caçadas noturnas por uma graça que geralmente tem um preço que costumo pechinchar. Algumas madrugadas me renderam promoções do tipo ‘Pague menos por mais’, ‘cliente satisfeito come outra vez’ ou ‘se indicar mais freguesia ganha cortesia’. Mas essa noite me ocorreu o inusitado, pois não tratava-se de uma prostituta. Era uma bailarina, combinação perfeita comigo, pois sou um pianista. Música e dança se encaixando através das suas linguagens. As mãos e a voz manipulando o som, e temperando os sabores de cada emoção produzida pela música, simultaneamente traduzida pelo corpo a cada milésimo de segundo através da dança.

Fazia um absurdo calor aquela noite, eu dirigia de janelas abertas quando parei na sinaleira. Enquanto eu aguardava pelo sinal, ela atravessou a rua e pude senti-la atravessando verticalmente pela minha garganta e descendo com minha saliva. Eu precisava salvá-la de um possível afogamento no percurso que fazia até meu peito, correndo o risco de impedir meu fôlego. Ela não me viu, e sem saber estava na minha câmera subjetiva, registrada e mantida como cárcere na minha mente.

O Teatro XXII, Avenida dos Amores, Bloco A, travessa dos Acostumados, às 21h apresentava o espetáculo de ballet clássico e contemporâneo “Estranho Esgotamento”. Poesia, música e dança emolduravam a obra artística que abordava a relatividade do tempo, a espera, e a frustração pelos desejos. Eu estava esgotado de circular de rua em rua na esperança de encontrá-la novamente. De repente esse cartaz do teatro tornou-se uma pista que me levaria até a minha Anônima.

Afinal, ela estava apressada, com a polpa do cabelo arrumada, previamente pronta para vestir o figurino, e agora confirmo que havia um entusiasmo e talvez uma ansiosidade nos seus passinhos de garça. Ela ia se apresentar para toda aquela plateia, cerca de 700 pessoas, e ainda não fomos apresentados.

Primeiro toque, eu sentado na primeira fileira, como se ela fosse me reconhecer. Por outro lado, eu poderia contemplá-la mais de perto. As Cortinas estavam ainda fechadas, assim como meus olhos na tentativa de lembrar-se do seu rosto para que eu pudesse identificá-la entre as outras bailarinas. Tarefa difícil, pois são todas padronizadas com chitas, filós, saias, anáguas, sapatilhas, a base excessiva nas madeixas, e o mesmo sorriso ensaiado.

Segundo toque, ouvia-se ainda o burburinho do publico, todos ansiosos pelo espetáculo. Certamente haviam ali seus familiares, os amigos da escola, pois não escondia ter uns 22 anos. Possivelmente devia ter um namorado da mesma faixa etária, embora meus 43 não me desconcertavam da chance de conquistar sua atenção. Na verdade, eu estava mesmo preocupado.

Terceiro toque. “Silêncio, Silêncio. Já vai começar” – alguém da plateia, por coincidência tirara essas palavras da minha cabeça. Aos poucos, todos diminuíam o volume sonoro de suas vozes, agora sussurradas. Quando, de repente: Cortinas abertas, iluminação, pulsação vital, trilha sobe lentamente com entrada e saídas do corpo de ballet, iniciando uma cena.

Ela apareceu divina num vestido florido, deslumbrando os mercenários com pernas e braços nus, esmalte vermelho, batom... Ela se enfeitava no espelho do cenário. Na ponta dos pés, e braços erguidos, ela desenhava uma fada com o corpo refletido das luzes cenográficas, e fazia um movimento de rotação, assim como a lua. Eu desejava movimentos de translação e revolução, beijos e talvez tocar para ela, e desposá-la ali mesmo naquele palco. Minha atenção a ela se convergia e somente aquela deusa era o meu foco ritualístico.

Corria o tempo em fast motion e o relógio apontava meia noite, a lua minguante estava cheia de beleza, e meu peito invadido de uma intenção de cortejá-la, mas também invadido de uma tensão. “Ela não é uma prospituta, mas eu sou um cachorro no cio”, eu dizia para mim mesmo, interpretando um equilibrista, contendo meus impulsos e temendo não se precipitar. “Por que a deixei partir? Por que não fui elogiá-la no palco? Que espécie de homem sou, em deixar uma mulher daquela escapar de mim?” – eu agonizava pela minha falta de atitude.

Terceiro gole de um licor caribenho, num barzinho decadente, quando ela entrou e pediu café. – “Dois dedos, por favor. Bem quentinho!” – disse com um sorriso mágico. Me espantei, e por pouco sentia-me borbulhando dentro de sua chicara quentinha esfumaçando o desejo pelos dois dedos de café. Pensei comigo mesmo “Mulata, cor de café, também quero dois dedos”. Graças ao licor, levantei e me aproximei elogiando a bela apresentação.

Conversamos despercebidamente, como se as horas se escondessem no preparo do vinho que degustamos discutindo sua tese de monografia sobre a crise da masculinidade. Reconfigurações das identidades e as mudanças do comportamento do homem na sociedade pós-moderna... O discentramento dos sujeitos, homem submisso e mulher ocupando o topo das decisões. Finalmente, chegamos ao sexo, na discussão... Eu, objeto de análise, e ela, a minha bailarina de contemplação. “Qual o estado dessa arte? Qual o universo epistemológico nesse corpo nu?”, eu a imaginava sem anáguas.

Começamos esses estudos teóricos no barzinho decadente, passando por um restaurante requintado de culinária francesa, para afinar melhor nossa conversa, ao som de Villa Lobos. O pianista da noite, conhecido meu, ofereceu-me a honra de mostrar meus dotes à bailarina, que mostrou tambem seu número. Terminamos o passeio com um beijo ao deixá-la em frente ao seu apartamento. Foi inevitável, pois meu encantamento me polia de cometer um erro de tomar qualquer atitude, que podia ser julgada “indecente”. Mas, o beijo não partiu de mim. “Suba comigo!”. Este foi seu primeiro pedido, logo concebido e confesso ‘ela dirigiu a mim e o meu carro’.

No elevador, seus lábios visitavam os meus, minhas mãos visitavam a curvatura da cintura às coxas marcadas pela meia do ballet. Perdi o controle de mim entoando a melodia do apartamento, prova do meu delírio: A porta... O trinco... O arco... A flecha... A bailarina... Os olhos... O pianista... Os braços... Mãos... Cintura... Um laço... Os lábios... O calor... É amor?... A cama... Nós na interação em castidade e o tempo na cidade congelado ao nosso redor.

Estávamos zen e num zoom-in fazíamos um closer do beijo que decodificava o choque de prazer que sentíamos. Parecia uma incorporação de sentidos mágicos. Dois corpos celestes desabrigando-se do espaço e tempo zerados. Uma sinuosa trama de entregas... Suspiros! É festa!... O zíper... Encosta. O peito... Respeito?... Carinho... Os lençóis... Um nó... Pernas e braços nus... Pão-Francês... Garganta... Leite... Pescoço... Lingerie... Os beijos... Uma cena... Incenso... No quarto... Alfazema e também um perfume de rosas... Pecado nos quadris...

Eram melodias de maestro, sem ensaio, sem plateia. Eram as linhas implicitas dos nossos olhares. Os acordes eruditos do piano insistindo em tocar uma melodia fértil e dionística. As partituras do corpo dela faziam-se de melodia. Como bailarina, ela interpretava um perfeita pianista, agarrou-me por trás como se abraça uma harpa, e servi de instrumento. Ela me guiava num tension-release como ao ballet moderno de Martha Graham. Pensei que estivesse flutuando tamanha intensidade... Carnudos lábios... Negrume.

Numa ‘volta’ segurei seu corpo e girei-a sobre mim. `Contratempos`. Voltamos para os tombes e cabriolés, entrelaçamo-nos seguindo mise-en-scenes calorosos. Bailamos suados em pas-de-deux. Empinadas... Rebeldias... Que figura bela, quase simétrica de formas geométricas desenhava com ela em meu colo. Ela sem collant, eu colando-se... Sapateado... Fox Trot... Duelavamos compenetradamente irracionais... Alma... Corpo... Num ritual sagrado-profano dualístico... Um espetáculo de energias multidimensionais... Aplausos! Assovios! Chegamos ao apogeu ufânico do prazer.

Enfim o cansaço... O sono... A madrugada... Embrulhado nos abraços e entrelaçado... No relance dessa seqüência me apaixonei. O despertar... "Minha bela adormecida de Tchaikovsky", dizia eu em voz baixa enchendo-a de beijos minuciosos desde as mãos suaves, até os seios medrosos que se escondiam no sutiã, naquele vestido florido que estava jogado no chão. Arranquei-lhe tudo. "Perfeita", eu balbuciava.

Nos meus cálculos, minha puberdade começou aos oito anos se eu contasse a primeira vez que debrulhei um brotinho avermelhado, mas, de fato, foi aos dezesseis anos que eu projetava a barba, a voz... Aos dezoito, eu era um homem feito, e meu coração já começara a descontrolar-se com batidas apaixonadas. Desde então, vinte e cinco anos se passaram, namoros, noivados e casamentos falidos, e ali estava eu novamente, numa nova composição e cheio de esperança. Não era uma prostituta, era uma bailarina adormecida.

Ela despertou e pediu café, então levantei-me com passos imprecisos ainda numa espécie de transe até a cozinha. Som BG da porta que me despertara da derrota. Na mesma velocidade em que despiu-se, na noite passada, eficientemente vestiu-se, e sem maquiagem, sem café, partiu deixando um bilhete que dizia "Uma noite... Um sonho... Mas peço que guarde esse sonho por mim, não posso seguí-lo. Meu único sonho é o palco". Ao terminar de ler, sua presença foi se reduzindo a uma mancha desbotada, e sua imagem distorcia meus sentidos, que desapareceu como um vulto, como zoom-out seco e amargo.


Velas e terços... Lenço e patuá.... Incenso e chamas no meu travesseiro.... Taças quebradas próximo à cama... Sangue no meu pé direito... "Não era só sexo!", eu gritava em prantos, como um muleque indefeso magoado... "Não era só sexo!", essa foi a canção do dia inteiro... Rua fria, sob a lua morta... Nem lembro ao menos seu codenome... De volta ao clube decadente... De volta às caçadas noturnas sem sentido... Às canções líricas do piano envenenado e envelhecido... Anônima, café e melodia.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Seu Olhar

Por Jefferson Acácio


Te vejo despojado debaixo desse teto
E contemplando a luz que visita-o pela greta da janela
Te vejo andando descalço na rocha pôlida do banheiro
Sob a cascata do chuveiro
E lá fora as nuvens derramam lágrimas no asfalto
Te vejo deitado o dia inteiro revirando o corpo pra lua
Que reflete no oceano formando um véu encantado que você só conhece pela TV.
Pode-se também escolher uma grama macia, uma rede sob uma árvore ao entardecer
Te vejo tão pouco que quase ninguém saberá de ti
Se acaso vives ou se acaso finges viver
Se o seu entorno é somente concreto, cimento e gesso
Ou se há a distração das vistas em overdose de imagem
Se acaso vives, deixe pistas...
Rabisque o que sabe do mundo...o que conhece de você mesmo diante do outro.
Esse mundo resumido que conheces através da janela virtual
Ainda tem o tato, ainda pode em tudo tocar
Ainda pode derrubar esse teto e o céu explorar
Você ainda é o tal que vive o seu próprio olhar

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Quando te escondes

Por Jefferson Acácio




Por mais que as tuas cartas eu devolva
Estou vuneravelmente envolvido
Como uma música esquecida pelo tempo
Que surge inesperadamente para re-expressar
Da mesma forma que antes sentiamos
A sensação transcorre os espaços vagos que dividiamos
E como um exército invade os territórios da memória
E como uma doce luxúria fingida o agradável se re-estabelece
Domina minhas nações
Converte minha noção
Desarma minhas células
Amolece meu corpo de vã esperas
E quando vejo, estou de volta à janela
Admirando tenazmente a natureza com um olhar vistoso
O som do vento enobrece as estruturas de uma ruína
Preenchida de uma luz irradiante de perfeito astral
E as paredes antes caídas e envelhecidas de rancor
Tijolo por tijolo alicerça uma paixão antiga
Mas num estralar de dedos, a música acaba
E abandona toda a lembrança inevitável
De como foi majestoso sentir você
E de como é ainda mais magnifico
Quando se escondes na saudade

Santa Chuva

Por Jefferson Acácio

Vi por aqui passar uma grande tempestade
Começou com jorros de alegria
Num belo dia nublado de outono
Em pouco tempo, a terra já não se agüentava
De alegria se fazia também tristeza
Assim como os belos dias de amor
Até que o tempo comece a destruir tudo
É assim, irreversível mudança climática
Cada dia santa chuva aqui rendia

O teto então rompia
E rompia também o que por uns se prometia
O chão molhado de amor, jaz fonte de lágrimas se fazia
Como um dilúvio, tudo foi carregado, rua abaixo.
Até mesmo as boas memórias são arrastadas
O medo de outra tempestade é o que resta
Tende piedade, tende piedade da minha alma
Que não quero vê-la banhada outra vez desta santa chuva.