quarta-feira, 6 de abril de 2011

Vamos dar um tempo?

 Por Jefferson Acácio







- “Vamos dar um tempo?” - disse-me após uma discussão inútil e saiu.

Não deu tempo para cuspir de volta o resto do seu beijo. Nem tempo de retocar a maquiagem borrada. Sinto ter perdido o meu tempo com a farsa desse relacionamento com a qual ele levava como um endosso. Assim ele mastigava o malfeito debaixo dos meus olhos freados de estupidez. E agora ele mesmo fez o trabalho sujo de empurrar a bagunça pra debaixo do tapete.

- “Quero você o tempo todo!” – dizia-me com intensidade.

Nem parecia que tivesse ouvido essas palavras há pouco tempo tamanha contradição. Acho que me teve tão freneticamente que o tempo expirou.

- “E o tempo nunca chegava” – Eu reclamava.

As semanas passaram fluidamente despercebidas e as madrugadas incompreendidas, e mais nada rendia senão a espera pelo tempo prometido. Pensei em subordinar o tempo, mas sua função é bem paga: atrasar, apressar e interromper.

- “Quero um tempo!” – Desejei.

 Sem pedir licença, vou aproveitar que não tenho mais o tempo para me impedir de sair atrasada, sem hora marcada, sem compromissos e tomar umas tequilas numa balada. Ah, quero blackouts na memória. Quero fazer um escarcéu e expulsar o infeliz de mim com um grito de liberdade. Estou cheia de vaidade!

- Pode chegar tempo com uma profunda ressaca que eu já apaguei.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Poema das metades

Por Jefferson Acácio





Você - A outra metade de mim - que me trazia alegria

Agora é metade de outra que me traz inveja e agonia
E a metade que era eu virou silêncio
Por me acostumar em sua metade,
Metade de mim quase morre.
Tive que abandonar a sua metade ainda tão morna e modesta
Em minha vida que um dia foi inteira.

Juntei os farrapos de memórias.
Alinhavei, costurei e transformei tudo em ponto cruz
Feri o dedo que manchou a manto de retalhos
Costurei tudo, cobri-me do manto, e parti em busca de uma nova metade.

Se a outra metade que foi embora com outra metade
Não tivesse deixado a mim pela metade
Agora não estaria sozinho
Pois soube que foi deixado pela outra metade
Tudo poderia ser diferente e não estaríamos os dois pela metade.
Nem esse poema seria o das metades! 




sábado, 26 de março de 2011

Restos de Amor


Por Jefferson Acácio



Prometa-me que há amor no fundo do poço
Que eu vou me reduzir à lama para buscar
Por dentro de mim apodreceu o coração
Desidratado na falta do liquido
Ardente e suave que somente o amor proporciona.
Desde então me tornei um resto de vida predatória,
Um corpo quase inorgânico
Que duraria 100 anos para se decompor.
Sou uma natureza quase morta,
Um andarilho quase biodegradável,
Bem capaz de nunca morrer de vez
Para não poluir o ventre da terra.
Por isso, suplico-te, força invisível,
Mago ou qualquer ser oculto.
Ouça atentamente ao meu chamado,
Pois te rogo por esta causa particular.
Varra o planeta com sua magia e
Revele-me o esconderijo do amor
Estou numa guerra fria dos sentimentos devastados.
Prometa-me que há amor num terreno genocida
De uma civilização contaminada pelas piores doenças
Quero deslizar minha língua sob o solo
Pior é padecer de incompletude
Não dispensarei qualquer fagulha ou resto de amor
Eu faria o milagre da multiplicação;
Prometa-me cirurgicamente arrancar de mim
As memórias dos amores inventados;
Sugar toda a saliva dos que já me profanaram;
Dilacerar e escalpelar da minha derme todo disfarce
Prometa-me provar a existência do amor
Quero esse sabor mesmo no último segundo de vida
Contamina-me de amor radioativo,
Pois de agora em diante eu sou puro
Para ser revestido unicamente pelo amor!
Amor!
Ferva em mim como larvas de um vulcão adormecido! 

Com ou Sem emoção?

 Por Jefferson Acácio




Davi girou a pedra... Girou... Girou...
E antes de acertar o gigante, perguntou-lhe:
- Com ou sem emoção?
O gigante respondeu-o:
- Atire logo essa pedra!

A multidão após arrastar a mulher pecadora pela Galileia
Cuspiram denuncias sob ela e escolheram no chão
A pedra mais pontuda e lhes perguntaram:
- Com ou sem emoção?
A mulher respondeu-lhes:
- Atire logo essa pedra!

Você apareceu como que nada busca
E resolveu arriscar um pouco e nada mais
Parece querer ficar e não fica
Parece querer ir, mas não vai
Então me pergunta:
- Com ou sem emoção?

Ora! Atire logo essa pedra!

Love is Business Baby

 Por Jefferson Acácio



Surpreendente o espírito de empreendedorismo nas relações quase comerciais das paixões inventadas ou incrivelmente fantasias que se esgotam como encantamentos.
Começa com comprimir dos lábios entre os dentes, dos olhos esmagados entre as pálpebras entre abertas e o sorriso no canto da boca – tudo para causar uma única boa primeira impressão. Há uns protagonistas da vida real que molduram com riqueza de detalhes os minuciosos retoques de um amor meramente encenado. Isso é espetáculo!
Por aí afora há um coral de amores administrados como um processo transgênico, hipoteticamente naturais e verdadeiros que realidade pode ser confundida com ficção! É quase uma obra de perfeição. Um gesto de subversão, crueldade e criatividade o amor fingido e calculado. O discurso da mentira é muito bem delineado para sustentar as aparências. De fato o amor causa cegueira e o silêncio militante antagonicamente faz orquestra nas relações.
A verdade é estilhaçada e despedaçada fragmento por fragmento e misturada aos cacos teatrais da mentira. Bom, o resultado final é uma bebida doce e quente de estilhaçados. Minha garganta adoece de imediato com os cortes irreparáveis. Não há emplastos!
O doce vinho é servido em cerimônias honrosas da nossa carência ou da nossa dependência química do amor. E não me cabe mais a valentia de denuncias e isenções pois qualquer esforço seria tardio e desnecessário. Prefiro degustar do vinho e cair tonto na cama com as conseqüências do álcool diluído na minha corrente sanguínea. Se o amor é um ato inventado, quero então o melhor papel num belo espetáculo do imaginário. Viva os novos negócios do amor porque Love is business Baby!

Flash Flime

 Por Jefferson Acácio


Está passando um filme inteiro numa cena curta

Curta-me… Curta-me ligeiro

Que está chegando o fim no embalo do tempo

Fragmentos… Fluidez… Rompimento!

O Fenômeno da Magia

 Por Jefferson Acácio

Nada disso é causalidade...
A formação orgânica de cada célula que compõe o meu todo.
Cada elemento do meu corpo que é uma só unidade,
Que mesmo num recorte ainda seria o meu todo genético.

Nada disso é causalidade...
Esse ar que varre a poeira, as folhagens,
Que entra pela minha janela, derruba os folhetins,
Apaga as velas e alastra o fogo nas folhas secas,
Que também é aspirado pelas minhas narinas,
E que é combustível da vida.

Nada disso foi causalidade...
O primeiro minuto indivisível de tempo
Em que sua natureza humana se prostrou em fronte à minha,
As idéias se plasmaram no ar convergindo em linguagens subliminares através de gestos e olhares,
Conformados numa influência chamada de impulso vital,
Que nos fez selar os lábios.

A causalidade é um mero instrumento a serviço de potências invisíveis porque não nos acostumamos a sair da esfera dos fatos verificáveis para a esfera primitiva e desconstruída dos parâmetros da convenção social. A lógica é a Magia!

Não é causalidade...
O semelhante evoca o semelhante
E o possui num simples contato de pele e visão
Nesse ato indivisível do tempo os fenômenos acontecem.

Não é causalidade...
Que eu aceito a magia do que vem em segundo lugar - O alguém, o lar e o luar; o melhor do que há por traz do que enxergamos; e as coisas como elas vêm.

Aceito você com toda a sua magia!


Amor para Animar Matérias (We are Fuckmuchines)

 Por Jefferson Acácio



Paixões passageiras causam uma morte lenta e letal
Sinto calafrios só de imaginar ser capturado pela paixão
A paixão passa depressa como areia corre das mãos

E sempre que caímos com cada paixão escorrida
Novamente estamos de pé para novas paixões
São dores acumulativas o despedir de cada paixão turística

Uma vez morto nunca mais nos permitiríamos amar e ser amados
Só aos nobres corajosos cabem essas façanhas da sorte
A esperança de encontrar “o alguém” só aumenta as expectativas
Quando sabemos perfeitamente que as pessoas temem em expressarem-se
Estão todos cheios de amarras no peito
Uma violência estúpida que as pessoas travam contra si
E encontram nos prazeres imediatos uma distração confundida com liberdade
De repente a liberdade parece estar hibernada numa felicidade inventada
Castigada de gozos elétricos porque “We are Fuckmuchines”
Parecem mendingar por beijos e trepadas que quanto mais mecânicas melhor é
Puras recriações do que acontece nos filmes pornográficos


A indústria da pornografia realmente transformou algo íntimo em um processo comercial
E as fadas (para não dizer “fodas”) suprindo o tédio e a carência.
É tudo um carnaval de alegrias que vem e que passa
É tudo uma grande orgia social
Every time someone younger than me says “Fuck”

Já cheguei a acreditar que o sexo fosse uma mistura homogênea não destilável
Um castigo de impurezas perdoado pelo amor transbordando no suor
Estou num estrada sem volante e sem freios
Enxugando o rastro da chuva no pára-brisas
Fugindo de possíveis paixões, padecendo de covardia
E com uma vontade de me arriscar em alta velocidade
De ser imprudente!
Estou vivendo tudo pela metade em detrimento de não ter a outra parte de mim
Que liberdade é essa que escolhi para mim?
Liberdade confundida com felicidade


Que mal há em dizer coisas vãs respeitando os impulsos e soluços do coração
Que mal há em ouvir “Venha me ver, Quero você...”
Que mal há mandar uma mensagem digital, ou encher a caixa de entrada de palavras apaixonadas
Bem, eu adoraria ser mesmo próprio leviatã e não sofrer mais com esses silêncios
Puro orgulho! Tolice! Covardia!
Falta mais nostalgia no espírito!
Meu propósito na terra é sentir e ousar
Posso ser sincero?!
- Eu quero morder o fruto da sua boca!
Mergulhar num profundo esgotamento do seu corpo!
Banhar-me no Oasis escondido em algum canto do seu olho
E morrer abraçado em você num sexo transcendental
E renascer a cada dia ao seu lado com forças renovadas
Quero que meus átomos se aliem aos seus átomos

E que dentro de nós sejamos poeiras no espaço
Diante de um universo de paixão maior que nós
Quero que sejamos mais que um simples choque
Quero a revolução no encontro de nossos olhares
Como o impacto que gerou o mundo
Quero rebeldia
Ebulição
Quero animar matérias!



Coisa de Carnaval

 Por Jefferson Acácio

* Inspirado na minha crônica "Cédulas, Amores e Abísmos"


Meia volta olhinhos de gude
Preste bem atenção
Foi através da minha oração
Engendrada aqui dentro
Desse meu coração vazio
Foi com essa oração
Pronunciada em alta voz
Em meio àquele carnaval
Onde nos conhecemos e nos perdemos de vista
Foi através dessa oração
Que acreditei com a força pelo qual as pessoas gritavam
- É CARNAVAL
Foi com essa oração de esperança em rever-te
Em desprezo à toda alegria ao redor
Foi essa oração que me manteve obstinado
Em achar-te em meio à massa de foliões
Oração que derrubou as muralhas do meu orgulho
Do qual pude varrer toda a avenida com os olhos
Enxergando através das pessoas
E incansavelmente procurar-te
Foi essa oração que guiou seus passos
Intrépidos de quem o álcool estava quase no domínio
Foi essa oração que nos reuniu e pude confirmar
Logo no primeiro beijo que “É paixão”
Mas veja bem olhos de gude...
Pare de deixar um aberto e outro fechado
Fazendo esse biquinho de papagaio danado
Conheço bem esse sorrido sádico e safado
Procurando me distrair com seu jeito engraçado
Mordendo os lábios, me convidando ao perigo
Para que eu caio de vez no abismo dos seus encantos
Pare! Tem amarras no seu coração que tirado à pressas
Causaria dores irreparáveis!
O teu peito respira uma liberdade inventada de prazeres
Então olhinhos de gude
Não me encante
Não comece o que não pode continuar
Vou agora fazer outra oração que é para te afastar!
Vou pedir que água transcorra no meu peito oco e vazio
Transbordando de mim todo o seu encantamento
Que me causou arrepio
E tudo vai ser transbordado pelos meus olhos
E vai se embora rio abaixo carregando-lhe na correnteza
E vai se embora, vá depressa que já vem a doce lembrança
De um Carnaval que um dia quem sabe
Iremos pular!

Sem Ficção

 Por Jefferson Acácio

Sem Se o sol fosse temporário
Se a lua fosse um relicário
E as estrelas um rochedo
E você nada mais que um desejo
O mundo seria apenas chão e firmamento
E eu seria apenas carne e osso
Mas o sol ilumina eternamente
E a lua está sempre nova a cada dia
E as estrelas são corpos celestiais
E você a abstração de tudo que me distrai
Que sempre me completa, e me traz paz
Que desperta com teu corpo tão iluminado que me atrai
Então sou mesmo teu homem
Feito de carne e osso e espírito
Feito sob medida e sob demanda para você amar
Projetado desde unhas, dentes e fios de cabelos
Para estar contigo aderente como um selo
Sou mesmo um sonhador num paraíso sem ficção!

Homem de Sucesso

 Por Jefferson Acácio


Perfeito lance de esquerda que me acertou
Pensei que fugiria na esquiva, mas teu golpe me pegou
Vê que estou despreparado, cai na armadilha
Minhas estratégias de fuga falharam na primeira tentativa
Sou o arquiteto das informações:
Consuma a notícia desse fato inédito
- Fui tomado e tombado pelo amor!
Foi de rasteira, nem deu tempo para contra-ataque.
Tentei correr ao som do atabaque
Mal cheguei até a esquina e tomei um baque
Foi meu calcanhar que não caminha aderente
Preciso das suas pegadas para seguir em frente
Mas quando não tem teus passos, fico tombado.
Tropeço, tomo topadas e bato a cara no chão
Pinto, bordo e chamo todo mundo pra mão
Que truque, que tática, que trama você usou
Beijos, olhares, gestos, reconheço todo esse encarte
Lábios, pupilas, unhas, nada disso me conquistou
Batom, delineador, esmalte, nada disso me derrubou

Deve ter sito teu nome, ou deve ter sido tua voz
Ou quem sabe o golpe veio do amor a fazer os nós
Quero sempre mais lutar por você
Porque descobri que a vida trouxe a novidade que não quis ver
Amar é somente para quem tem sucesso
E com você já me sinto premiado por essa graça!

Curto

 Por Jefferson Acácio


Um dia uma saliência de espírito
Outro dia um silêncio de perito
Só checando as reações de atrito
Com minhas ações de perturbador
Um dia caindo de risadas,
Outro dia somente fortes pisadas
Cada dia uma nova roupa, outra pele
E a audácia, a petulância e um olhar de insolência
Que assim tão bem moldado se disfarça na inocência
Muito tenho a cada dia uma alternativa aparência
Quando sou irônico e deixo irritado, o desamparo de carência
Vou testando assim seu grau de tolerância
Vejo nas expressões sinceras quando irradia ou arrebata a paciência
Esses são meus atributos de fatos enxutos
Do raciocínio lógico de poemas curtos.

Fato

 Por Jefferson Acácio



É fato que concluo o impacto
Do seu beijo que me deixa intacto
Cada amor que fazemos é um pacto
Delicio-me do seu olhar tático
Sou um alvo indefeso nesse berço aquático

É fato que concluo o impacto
Do teu jeito ao meu encontro estático
Com você por perto o mundo é fantástico
Abrace-me de imediato
Da tua boca quero mais que vogal e hiato.

É fato que entre nós há falsos cognatos
Vou me confessar do anonimato
Prefiro não ser julgado por Pilatos
Não quero ficar na sua historia como artefato
Quero que reconheça meu real amor, de fato!

Alinhados no Espaço

 Por Jefferson Acácio


Dirigir nas vias de conduta e bater o carro na censura.
Voar para sentir-se livre e cair desenfreado sem arbítrio
Todas as estradas interceptaram-se por medo de se extraviarem.
Frente a cada obstáculo, avançando os sinais vermelhos.
Enfrentando tempestades, buracos, nuvens e pedras.
Fizemos o possível para chegar até aqui.
Onde há portos marítimos, aéreo e rodoviário…
Pronto para os constantes embarques e desembarques.
Entre tantos faróis, comandos, e semáforos.
Perdemos-nos de avião, ônibus, e descalços.
Desconhecemos o chão que nos sustenta.
O arrebento vem do desconhecido tempo
E nos obrigamos a brigar a troco de esmolas.
É a sina sem sinos e hinos de aviso
É o passo desatinados sem segurança e sem corda.
Chegamos até aqui não porque vencemos
A prova que nós podemos é que alcançamos!
Mas para vencer é preciso nos alinhar no espaço.
Porque, lá dos satélites nos vigiaram e fotografaram.
E a verdade é que estamos navegando separados.

Ordem e Progresso

 Por Jefferson Acácio





Nosso amor se eterniza nos versos
De todas as formas, com todos os verbos
Nosso amor se impregna nos leitores
Com diferentes códigos, em outros valores
Nosso amor é palavra na boca dos apaixonados
É sorriso contagiante dos circos e palhaços
Nosso amor é independente
É o fato mais repetido da literatura
Nosso amor é oceano e furacão
É ritmo insistente nas canções e poemas
Nosso amor é reação física e resistência espiritual
É passa tempo nas horas vagas
Nosso amor é Bahia de Todos os Santos
E todos os santos na Bahia fazem amor
Nosso amor é capital de giro
Com altos índices de sustentabilidade
Nosso amor é lágrima de alegria e até de tristeza
É liberdade de expressão e conservação da natureza
Nosso amor é a expressão da saudade
É a negação repreensora da maldade
Nosso amor é palavra que não afasta
Não se cansa de existir e ser pronunciado
Nosso amor não se define
É poesia que não se conclui
Nosso amor não obedece aos pontos finais
É pontuado pelas reticências da existência
Nosso amor é sempre um coletivo
É a força que engrandece os covardes e as minorias
Nosso amor é poder absoluto
Nas nações, nas políticas, na justiça e nas famílias
Nosso amor é escudo e não é arma de guerra
É expansão de territórios da paz
Nosso amor não se constrói, já nasce pronto conosco
Amar é a ordem humana
Nosso amor é totalmente possível
É o caminho para o progresso mundial
Nosso amor simplesmente é

Precoce

 Por Jefferson Acácio





Esses olhos alegóricos são alérgicos

Estão impedindo minha carta de alforria de escravo teu

Assine minha liberdade da fantasia de submisso a ti

Estou planejando fugir da senzala que pusestes nos seios.

Quanto mais me machucava com sua arrogância

Mais ficava condicionado a sua fúria feudal

Meu resíduo de lagrimas esgotou e perdi o controle na fuga.

Mas não há esconderijo maior, sempre está monitorando meus passos.

Esqueço que tenho pernas e me acomodo nessa prisão.

Cada vez mais dependente de ti, o mais instintivo que seja.

Cada vez mais vulnerável e inferior no seu controle magnético.

Cada vez mais algemado e castigado pelos seus beijos.

Percebe-se que estou mesmo precoce, mas procede-se!

Turbulência

 Por Jefferson Acácio


Estranho sentimento de inconstância.
Amor magnético que causa turbulência.
Um dia estremece e abala, noutro dia escurece e acaba!
A cabeça e o coração elétricos.
Razão e emoção nu ritmo acústico
Segue descompassado em notas altas.
Quase uma orquestra sinfônica.
Permanece nessa paixão turística
Convencendo amores num jogo de sedução e covardia
Um dia nos enlouquece de suspiros, noutro dia nos liberta pela manhã.
O amor chega com prazo de validade vencido
Mas a vida sem ele é estática
Melhor sempre estar em turbulência!

Homem de Lata

 Por Jefferson Acácio



Avise a todos que estou chegando

Eu sou o homem de lata
Podem bater, mas farei muito barulho
Acordo toda a vizinhança e faço um reboliço
Aquele velho tempo acabou
Quando me usavam, amaçavam e jogavam fora
Eu me reciclei e agora ousei
Minha ousadia é minha palavra
Eu falo até que se gastam todos os meus verbos
Eu grito eu bato minha lata mesmo
Afim de uma real comigo?! Pode vir!
Bebam a vontade, mas cuidado como tiram a tampinha
Como me colocam na boca,
Como me viram num gole, devagar ou apressado
Olha lá como me degustar, de vez ou de pouco
Se me dividem entre outras bocas, olha lá…
Olha lá bem onde vai me jogar…
Depois não reclamem
Se a minha lata eu fizer tocar!

Guerras de Lençol

 Por Jefferson Acácio


Cuidado comigo porque carrego uma adaga na cintura

Aqui pendurada posso arrastá-la em defesa ou ataque a qualquer hora

Cuidado! Estou armado a favor de guerras…

Minha luta é intensa, deixa tudo desorganizado, por isso, deixo-te sob aviso

Quero que o mundo faça “boom” com meus suspiros em tenor

Se estou fazendo terror? Antes sentir medo do que dor

Não me desafie se não pode comigo lutar.

Posso lançar chamas quentes como larvas de um vulcão, tudo através de um simples olhar

Amanhã, na certa, irá jorrar e chover suor no campo de batalha

Estou bem próximo, com meu tanquinho invocado e você na minha mira

Amanhã, ninguém se assuste, se a terra trêmula ficar

Porque sou eu na cama dirigindo meu caminhão de guerra

Brincando que o lençol é estrada e tua pele é meu chão.

Vou cercar teus territórios com meus toques táticos

Te imobilizar e fazer tua língua ferver no meu caldeirão

Eu disse “cuidado”, mas você quis se arriscar.

Agora ateou fogo e vai aos poucos apagar

Vou lhe  partir em meridianos ou quem sabe fazer de você uma sopa

Se quiser faço como nos filmes de policia, ponho uma touca assustadora

E te arrasto para os mediterrâneos ou subterrâneos onde intenso é o calor

Eu disse “Cuidado” mas você fingiu não ouvir, agora virou mesmo amor!

Polêmicos

 Por Jefferson Acácio



Leva! Leva tudo!

Encha meu saco

Torre minha paciência

Deixe-me por aqui com você

Senta no meu colo, e me cale logo

Põe silêncio em minha boca

Faça-me calos, enfrente-me, não me entenda

Pire minha cabeça, bagunce meu cabelo!

Quebre os pratos, pare o trânsito por mim

Se afogue que eu te salvo

Rasgue minhas roupas, jogue meus pertences pela janela

Marque comigo e não apareça, deixe-me em vã espera

Believe me… Love me… Hate me… Beije-me

Grite meu nome, escreva-nos na areia, apague com o pé

Afasta meu corpo de ti… Puxe-me depressa

Arranha minhas costas, dê pinta para outros…

Peça desculpas ou me dê gelo ou me coma inteiro

Faça sexo comigo num canteiro

Vê se me acha lá na esquina, ou estou na casa de mãe Joana

Eu tomo no orifício por você quando faço teus prestígios

Castigue-me com teus seios, faça por mim alguns sacrifícios

Arrependa-se, desespera-se, cometa então novos sacrilégios

Joga na minha cara que me ama, e não me dê mais bola

Esmaga-me com tua presença, deixe-me impotente

Eu subo pelas paredes, mas quebramos as paredes

Seja cada vez mais irreverente, mais do que eu possa agüentar

Eu quero polêmica, eu quero tua novela

Eu quero audiência, te quero nua numa capela

Para fazer casamento à moda antiga, como adão e Eva

Eu quero turbulência, eu quero sua loucura e paciência

Eu quero impacto, eu quero tua insanidade e inocência

Eu sou santo, devasso, um prisioneiro, e teu pássaro que voa alto

Eu sou tudo, eu sou nada, eu sou um, e sou todos!

Eu sou a sala cheia, eu sou a sala vazia, mas eu sou…

Simplesmente sou quem te ama!

Meu Corpo Fala

 Por Jefferson Acácio


Vai me encarar?
Reaja aos meus beliscões na sua cintura
Se concentre nos meus olhares
Não pertencemos uma a outra, mas ando com os meus passos
Ando embutido nas suas sombras
Viver assim é bom, vê se entende, vê se me preenche
Não quero as horas vagas, eu quero os minutos inteiros meus…
Quero que esqueça o relógio, senão eu quebro os ponteiros.
Não quero um olhar ligeiro, de quem não me viu, de quem em mim nada viu
Quero tropeçar com esse embaraçoso olhar
Quero simplesmente perder o fôlego ao te beijar e te despir com a lingua
Quero chegar próximo como se fossemos imãs com os lados invertidos
Porque acho linda essa luta querer de tocar o mais intimo e a natureza não colaborar
Quero que me olhe com tanto desejo, que minha roupa escorrega devagar
Reaja! Estou aqui e meu corpo fala com você

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Avenida dos Quinhentos Navegantes!

Por Jefferson Acácio






Eu mergulhei nos poços de várias pessoas e havia felicidade lá
Eu andei sobre a avenida dos quinhentos navegantes
Um mar de gente furiosa e agitada
Euforias, ritmos e percussões aleatórias
Eu mergulhei nesse oceano complexo

São oceanos metafóricos dentro de cada um de nós
Somente lá se encontram ribeirões de felicidade
Precisa dar um salto confiante para esse mergulho
Como fazem os moleques nos altos rochedos
O impacto é forte, mas libertador!

... Prisões pessoais, catastróficas e desequilibradas
Quando saltamos e navegamos em nosso próprio oceano
Descobrimos avenidas antes nunca visitadas por nós
Esta é a Avenida dos Quinhentos
Poucos são os corajosos
Depois do mergulho, o corpo emerge das profundezas
Vê-se mais claramente o brilho do sol
A mente é o barco, as atitudes o leme e a alma o oceano!

Não se lamente por não conhecer seu oásis
Apenas mergulhe por endereços privados onde sua felicidade o espera
A felicidade é tão sua quanto imagina
É tão real quanto se pensa que sonha acordado
Mergulhe... Habite nos recantos do seu interior onde a presença da felicidade reside de verdade!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Uma luz

Por Jefferson Acácio
Foto ilustração



Luz no meu corpo!
Preciso de luz para escrever essa poesia
Preciso de uma iluminação ambiente
Filtrando cada camada do meu epitélio
Quero uma luz débil, calorosa, cheia de vivacidade
Uma luz que não produz sombras
Luz forte, econômica, fluorescente...
Preciso de uma luz assim ó... Cinema!

Luzes, câmera, ação!




Luz que ultrapassa paredes, esponjas e arrebatadores
Luz mágica, mitológica, mística
Que recria a sensação de congelamento, dispersão...
Luz da noite, luz do dia, e luz de um olhar
Que faz evaporar minhas lágrimas
De efeito 3D? De infinitos D’s, pode ser?!
Luz que registra cada momento como um flash eficaz
Luz que rompe as leis da física
Luz que me envolve num campo eletromagnético
Formando um invólucro por dentro e por fora de mim
Revestindo o meu coração, pulmão e cérebro
Luz que é minha armadura e meu escudo
Que estimula minhas células fotossensíveis
Luz que é minha visão, minha lente, meu prisma
Luz que chamam de fé, milagre, saída, passagem

Vida!
Simples luz...
Luz!
Luz?
Ué, apagou?



quarta-feira, 6 de outubro de 2010

* Cédulas, Amores e Abismos

Por Jefferson Acácio



Atenção: Antes ou depois desse texto leia Anônima, Café e Melodia (é uma continuação)

“Custa caro senhor! Senhor, Senhor... Senhor!” repetia o garçom ao pé do meu ouvido e, ao mesmo tempo, todos os ruídos de vozes das mesas sumiam, as luzes desciam lentamente e o grupo de músicos daquela noite também desaparecia com o “chorinho. A penumbra envolveu tudo numa cortina de fumaça. Ficou apenas eu, o balcão, meu chope e o belo par de pernas da moça que acabara de entrar no bar e restaurante Tartarugas.

Levantei o chope apontando em direção à jovem que acabara de entrar no bar. Inclinei a cabeça em forma de admiração e bebi uma cascata do chope – sem tirar o olho de suas pernas. Minha garganta estava regada do líquido gelado diluindo o álcool na minha corrente sanguínea. Silêncio total, até mesmo a própria respiração.

Foram longos dias prezo no apartamento. Eu estava totalmente decadente após uma surpresa desagradável: Uma garota bailarina havia destruído em mim o que restava de credulidade nisso que chamam de paixão. E mais uma vez estou aqui a remoer o ódio e a culpa por colocar o próprio coração nesse cárcere privado. Essa garota surgiu quando eu me sentia um velho fracassado que entrou numa jornada ao grosso estilo Indiana Jones, porém mais para um alpinista desconhecido do que um herói. Um aventureiro aparentemente destemido portando um coração arqueológico escalando o monte mana no Himalaia. fantasioso, não é? Era assim que eu levava a vida esperando no tempo para entrar numa história fantástica digna de roteiros cinematográficos de amor ou inspiração para alguem que traduzisse em arte.

Nem acredito nas minhas próprias atitudes, me sinto um patético solitário avassalando corpinhos esguios de moças recém chegadas na fase adulta e carregando o espírito desbravador, sonhador e irreverente da juventude. Sentia-me um herói protetor, sempre de peito e braços abertos, imensos olhos, muita luxúria nos lábios, mãos paternais e feudais. Quem sabe até em vidas passadas eu debulhava as cavidades de “escravinhas”, com todo dengo, claro.

"Sentir" é muito perigoso quando se tem carência exacerbada. Tenho carência do calor humano, especificamente das humanas. A música sempre esteve muito presente sombreando meus passos. Como pianista, eu busco nas pessoas as melodias que elas precisam ouvir para sentirem-se seguras de que tudo está bem. Provo para as pessoas que o coração bate forte só pra anunciar que ainda funciona e não por exprimir dor e felicidade, pois estas são engendradas no próprio sistema nervoso.

Foi numa noite metropolitana de sexta-feira como hoje,um inverno estranho, com chuvas e uma brisa quente angustiante que conheci Ligia Matarazzo, a tal, ela mesma, avassaladora. Exatamente essa mesma angustia que contamina meu corpo ao pronunciar seu nome. Sinto calafrios. Meus impulsos me levaram à sombria caça por uma noite de prazeres imediatos, prática comum entre tantos  outros solitários. São meus refúgios das dores acumulativas de cada paixão, uma morte lenta e letal! Uma vez morto, nunca mais me permitimos amar e ser amados, só aos nobres corajosos ficam essas façanhas. Mas ainda estou vivo para tentar.

Expressivo nome para uma garota de vinte e dois anos, brasileira de descendência italiana e uma estonteante miscigenação com a matriz africana, bailarina, cândida e convidativa. Eu precisava senti-la e não sei ao certo se a senti, mas é possível que ela tenha sentido o meu “eu” muito mais, sem maliciosas entrelinhas. De fato, eu a toquei com todo o meu corpo, cheguei a acreditar que fossemos uma mistura homogênea não destilável!

Ela castigou-me de todas as formas, me deixou construir sonhos ao seu lado e no dia seguinte simplesmente partiu. Eu ainda a chamava de minha “bela adormecida de Tchaikovsky”. No dia seguinte eu fui cruelmente desperdiçado como a sobra de uma comida estragada. Quem já provou desses dissabores da vida sabe bem do que estou falando. Esse incômodo, é de uma dor tamanha que poderia comparar ao coração retalhado num açougue de quinta categoria. Há quem diz que essa minha franqueza límpida, doentio, e sensível não é própria para os homens do diminutivo aglutinador "macho". da espécie dos meros reprodutores. Mas esse forte aperto no peito não passa de uma farsa engendrada no meu cérebro. Queria acreditar no que falo.

Ela havia recuperado minhas esperanças. A esperança? É como ver uma rara borboleta azul no meio de uma metropole caótica, sombria e poluída. Naturalmente deveria ser encontrada em lugares quase inacessíveis ao homem, em pequenas e camufladas áreas tropicais, mas é vista sobrevoando a cidade arrebatando nosso conceito sobre o "impossível".

Hoje quem sabe outra esperança incide novamente no meu peito hibernado e afagado nos vícios alcoólicos. Eu sempre fui um bom freqüentador do Bar Tartarugas, até me apresentei algumas vezes. É uma atmosfera de boemia, distração, um clima intimista, com focos de luzes vermelhas nos cantos induzindo as pessoas a deixarem os estímulos sexuais aguçados com as bebidas e o belíssimo repertório dos músicos. É um local indispensável para saciar ao menos o desejo de um delicioso drink e quem sabe levar uma companheira de brinde para casa.

Como de costume, eu troco conversas com os garçons, revejo amigos, confidenciamos nossos truques de raposas. Falamos de política, futebol, mulher e até mesmo de novelas. E quando não encontro os amigos, eu fico sozinho no balcão, onde aprecio as atrações musicais que enfeitam o palco. Faço bom proveito do momento para assistir a linda vida alheia. Já que a minha não está muito interessante para a telinha.


Recordo-me de como conheci Ligia. Eu aguardava o sinal, quando ela atravessou a faixa de pedestre em frente ao meu carro, e pude senti-la atravessando verticalmente pela minha garganta ressecada. Como havia dito, sentir é algo muito perigoso, altamente tóxico, e pode trazer esperanças cegas. Eu via até raras borboletas azuís como o colorido da sua roupa de ballet e a pintura facial. Aquela mariposa mulata, aquela linda borboleta que eu desejei colecionar, capturar, presentear com flores, ela havia fugido para seu ciclo natural: A liberdade imaginada. Ainda me questiono quem fora o predador.

Desde então não bebo mais café, pois me lembra também a sua estratégia de escape, o tom madeira sucupira da pele da minha mulatinha, do nosso encontro no barzinho decadente “Carpas”, da nossa conversa prolongada e da aventura no apartamento. Desde aquele dia, continuo na mesma frenética nota afirmativa de que não foi apenas sexo. Juro que da minha parte não. Ao menos eu queria que fosse mais do que sede, fome, fogo e miséria... Bebidas, culinária, sexo e rompimento... Gole, mordidas, gozo e castigo. Após o climax do gozo, eu também desejei abrir vôo para a liberdade. Liberdade de amar. Liberdade talvez inventada ou surreal. Liberdade que é confundida com prisão.

Três dias com as portas de casa trancadas, um mês de seguidas trepadas insignificantes com outras desconhecidas bonequinhas carregadas de maquiagem. Desculpe a minha porosidade, a falta de sutileza e polidez.Perdi a compostura! Envelheci mais um ano e estou com 43. Envergonhado com o meu reflexo. Pensei em abandonar meu piano envenenado e dedicar mais tempo na minha loja de instrumentos. Um desperdício.

A carência é o meu instrumento de sopro, age na minha mente e atinge o pulmão do qual eu castigo com cigarro, como se não bastasse o próprio ar poluído dessa cidade. Um ano passou e eu me sinto ainda estacionado naquela sinaleira onde avistei Lígia pela primeira vez. Desde então tudo ficou pela metade, café, trabalhos, sorrisos, inspiração, repertório, aplausos exceto os murros no próprio peito! Então dois dias antes de voltar ao Tartarugas, eu recebi uma carta da minha querida mãe Rosalinda. A carta estava suja de teias de aranha da caixa de correio que há tempos o zelador do prédio não zelava. Na verdade, não passava de um relato sobre as pessoas da vizinhança com o objetivo de me incentivar moralmente a encontrar uma parceira para mim.


Ao terminar de ler a carta, senti uma enorme sensação de pecado por estar sozinho. Meus irmãos, tanto que temiam se apegarem a alguém, que constituíram famílias, apesar das crises típicas. Ninguém quer ficar só. Muitos topam qualquer coisa pra não ficarem sós. A carência é um sentimento perigoso, o abismo da vontade, o lugar comum dos abandonados, desprezados e esquecidos. Esta carta não veio numa hora bem-vinda, quando ainda tenho medo de borboletas.

Revirei cartas antigas das minhas paixões traiçoeiras, entre elas, Mariana... (suspiro). Estudamos juntos no Colégio Suzano Alvorada. Enamorávamos na praça da cidade com beijinhos “estudantis” e sinceros... Era carnaval quando firmamos nosso namoro estreado com o nosso primeiro beijo seguido de abraços pueris. Dividíamos os mesmos sabores da vida. O que nos importava era experimentar.

Seu pedido de casamento surtiu após cinco anos de namoro e eu estava prestes a ingressar na faculdade. Era uma fase de idealizações, inquietações e principalmente de escolha. Meu desejo era conhecer outras civilizações, eu idealizava uma carreira exemplar em Medicina ou qualquer outra de status, e me tornei pianista. Mariana riria das minhas convicções. Pena não ter escolhido ela para continuar experimentando a vida. Essa sim é traiçoeira. A vida. Suas surpresas são reveladas depois que tudo passou. Queria viver no passado ou que o tempo fosse sempre o presente de finitas edições.

Cá estou eu e o garçom, divididos pelo balcão, momentos antes da triunfante chegada de uma mulher. Já tomei três caipirinhas, no preço promocional de dois reais, um inteligente chamariz para os habitues da casa. As prostitutas disfarçadas de boas moças estão sentadas às mesas, lógico, convidadas pelos melindrosos senhores de carros importados e cartões de créditos sem limites. Daqui vê-se uma competição entre recordistas: quem mais bebe e quem mais paga.

Olha só o que encontro! Uma nota de cinqüenta reais. Simbólica. Foi propositalmente esquecida no balcão por algum “palhaço” a fim de pregar uma peça em algum “bobo”.  Mas há algo escrito aqui que diz: “Qual o custo da sua felicidade?”. Boa pergunta para um bobo como eu responder. Enquanto eu acendo o cigarro vou pensar numa boa resposta. - Garçom, o isqueiro por favor - As chamas acendem a imagem de uma onça pintada. As “onças” se multiplicam até formar um safári. Então um leopardo carnívoro me avista de longe, e chego até a travar o cigarro entre os lábios. Então ele vem na minha direção com passos silenciosos e astutos, com uma marca no pêlo escrito “felicidade”, e de repente o salto! Quimera eu ser a presa capturada pelas mandíbulas da felicidade! Vou guardar essa nota no bolso.

E continuando no delírio do álcool...Por outro lado a felicidade poderia ser demersal como as garoupas, escondida em algum canto profundo de um oceano. Ou quem sabe fosse baseada na materialidade. Creio que não. Caso fosse, as pessoas se transformariam em moréias venenosas defendendo seus royalties da felicidade. Acho que a felicidade tem uma natureza mais fraternal, mais fundamentada na árvore da família como os micos-leões dourado - os sujeitinhos pequenos de vida social defendem seus territórios apenas com o grito. A felicidade precisa ter graça, precisa voar, e não apenas saltar. A felicidade precisa de asas coloridas e precisa nos fazer serem pessoas lúdicas como as araras. Ou quem sabe como uma garça. Já pensou, se ela pousa nas mãos de um sortudo. Como posso ver, a felicidade estaria então nas mãos de muitas pessoas ou escondida nos oceanos profundos de cada uma delas.

Muita gente devia ser feliz nesse país, nesse continente, nesse planeta. Mas encontrar a felicidade parece ser incoerente ou uma idiossincrasia. As propagandas, novelas e filmes vendem uma imagem de vida social feliz. Há outros felizes que investem na matéria, na carne... Cuidam da estética, do superego, da forma física e dos prazeres imediatos, da vaidade e da luxúria. É um investimento caro que, em suas particularidades, importantes, principalmente quando relacionado à saúde. E em centenas de casos, nos preparamos com a melhor roupa, acessórios e perfumes caríssimos apostando num ritual de atração dos relacionamentos.

Mas ao olhar profundamente cada um, vemos que a maioria não se sente feliz, completos e donos de si. Eu mesmo adoraria ser meu próprio leviatã e não sofrer mais com os sinônimos da depressão: solidão, carência e vazio. Tantos investimentos para no fim da noite ficar sozinho – quantos já não passaram por isso, não é? O quanto você gastou de tempo em frente ao espelho, em salões, lojas, SPA, centros estéticos, cirurgias, academias, regimes, e tal e tal, para merecer alguém, que em alguns casos chega até a dedicar-se a você, mas depois descobrem superficialmente que não era isso que queriam.
Então você se abandona? Então você cria fugas aparentemente positivas? As pessoas verdes temem serem "a presa" da felicidade. O impacto de suas mandíbulas carnívoras realmente assusta. Mas é preciso ter coragem de se permitir diante do próprio medo. As pessoas maduras lamentam por não terem se permitido mais, e vivem a triste culpa de confundirem amor com prisão e trocado a felicidade pela solidão. E quem sou eu para falar dessas coisas. Um solitário cheio de máscaras enrugadas, em delírios, contradições e decadências do espírito.

Resta-me o meu velho escape no Tartarugas em busca de sorrisos fracionados por unidades indivisíveis do tempo. Sorrisos simbólicos e prazeres imediatos. Abismos, Ilusões, prisões pessoais, carências, insônias... Quero tirar do meu corpo e alma estas tatuagens em troca pela mordida da felicidade, mergulhar no oceano perdido dentro de mim, em algum oásis escondido nos olhos de alguém.

Enquanto isso, aqui vai mais gole de inveja, de nostalgias e outro gole é meu remédio. O burburinho de risadas, conversa na ponta da orelha, taças e colarinhos marcados de batom vermelho, perfumes de homens e mulheres, cruzadas de pernas, lambidas no pescoço, piscadas de olhos, um rodopio, dor de cabeça e peço um chope para fechar a conta.


Neste  exato momento, à meia noite, a tal desconhecida entra.Sua beleza parece silenciar tudo para ouvir o som do seu salto no piso de madeira. Eu digo comigo mesmo -"É castigo!". Não era Lígia, era uma nova borboleta! Na minha admiração, o garçom diz “Custa caro senhor!”, mas como não dei atenção, ele insiste “Senhor, eu disse custa caro”, o malandro está debochando de mim.

Um passo dessa nova anônima e uma dor é cravada no meu peito, outro passo e vejo a ponta do vestido longo furtando do lugar toda cor, outro passo e seu par de pernas me causam uma febre interna. Ela chega até o palco, cumprimenta os músicos do chorinho, pega o microfone... Sua boca umedece e deixa escapar a ponta da língua. Seu pulmão se enche de ar para nos deliciar ao som da sua voz e seus olhinhos de gude remetem-me à juventude pueril e sincera. Quando ainda não aprendemos a mentir com alto grau de cumplicidade.

Então respondo ao garçom com vibração e esperança nos olhos – “Não custa caro não rapaz. É um beija-flor!”. E neste instante, imagino o meu beija-flor num lindo coreto, e o tecido do seu lindo vestido soprado pela brisa de primavera, seu corpo nu, seu pulmão elastecendo-se, seu salto alto, e os olhinhos de gude brilhantes. A minha anônima é um beija-flor que veio para transmutar e pairar na janela da minha mente! Cédulas, amores e novos abismos!