domingo, 9 de outubro de 2011

O QUE ME VESTIR MELHOR

Por Jefferson Acácio

O bom de ser EU é que não existo
Visto a roupa imaginária que me cabe
O mal de ser EU é que nada me cai bem
Não tenho medidas exatas na personalidade
Me falta o corte certo e o alinhamento 
A nudez é o meu manto eficaz
Não gosto do tecido da sua ignorância grudado no corpo
Colada ao meu corpo somente quero a tua pele - Nada a mais!
Não tenho vergonha dos traços que me desenham
E meu desenho tem colaboração artística do Bem e do Mal
Pro seu bem, venha e vista meu corpo de uma grife chamada amor
Pro seu mal, venha e vista meu corpo do seu corpo!
Para nosso pecado nos levar ao paraíso eterno!
E se não vier, entrego o meu corpo à poesia!
A poesia me veste melhor!


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Hipocrisia Hipodérmica (manifesto)



Por Jefferson Acácio


Silêncio! Não digam nada seus caóticos seres insuportáveis
Por agora dispenso os julgamentos prévios de quem lê esse gorfo azedo
Não me façam sensacionalismo enquanto perfuro meu próprio peito
Removendo cirurgicamente com bisturis uma mancha cinzenta
Que veio a tinturar esse coração hipócrita de poeta burguês
Eu sou um desses seres insuportáveis e infames igual à vosmecês.
Eu sou um desses que condenam condutas pútridas alheias
Enquanto assistem do alto do apartamento as enfermidades desse mundo doentio
E que antes de deleitar sobre um colchão reconflex pensa sobre as desigualdades
Então simplesmente movido de inspiração na desgraça do próximo redige uma poesia
E volta para o conforto e fecha os olhos para a miséria que beija-lhe a face todos os dias
Tantos Judas por aí meu Deus, e eu ainda ouço e ouso chamar pelo Teu Nome
E depois de escrito ainda surgem os elogios condizentes
“Nossa quanta sensibilidade!” “Lindo o seu desabafo” “Que bela poesia”
Por favor, sem julgamentos, não façam de mim mais hipócrita do que sou
Deixe-me vomitar sozinho o sangue coagulado, o joio, o berno, a bicheira...
Deixe-me cuspir as convenções sociais, as éticas massificadoras e pacificadoras
Tem um enfermo dentro de mim que precisa de água, comida, amor e ideais
Não vou tratá-lo como um número de hospital computado nas estatísticas
Tem um enfermo dentro de mim contestado e deteriorizado de estigmatizações sociais
Que adoeceu pelo efeito de um vírus emitido pelo transmissor “mídia”
O vírus da subalternização dos processos hegemônicos da sociedade organizada em massa
Esse enfermo que vos escreve está  iludido pelo sentimento de que faz parte
De uma sociedade secreta e restrita de pensadores, humanos sensíveis...
Preciso remoer e remover essa cartilagem cinzenta grudada na minha artéria
Inventando sentimentos tenros e sinceros de compaixão
Que compaixão coisa nenhuma! É covardia! É hipocrisia!
Fingimento de anseios, jurando ter uma vida difícil. Coisa nenhuma!
Uma vez ouvi uma prostituta com cheiro de gozo, de bosta, de chão, de lama...
Que disse em voz alta a uma senhora que se benzeu em sua intenção
Como se estivesse prostrada diante de uma entidade demoníaca ou uma inimiga publica
Então a “puta da alma vendida ao diabo” bradou “Venha benzer a minha fome, o meu frio, a minha dor de cheirar o corpo dos amigos que morrem todo dia nesse chão onde você pisa e cospe sua velha recalcada. Venha cuspir aqui na minha...” (digamos assim, “venha cuspir aqui na minha vergonha ou na minha genitália”).
Ah, puta, o recado pareceu ser uma indireta pra mim que não se benzeu, mas olhou com nojo
Agora, é um nojo do enfermo, lazarento, torpe, sujeito adoecido dentro de mim.
E do que adiantaria correr pra casa ou para uma igreja mais próxima e rezar?
Reza é falatório para não ouvir. Todo mundo quer falar, acusar, apontar e julgar. Há até cursos de oratória, mas nunca vi anunciado por aí algum curso de escutatória.
Além de tudo o enfermo acinzentado e hospitalizado dentro de mim é cego
Cheio de filosofias que lhe permite ver as coisas (árvores, prévios, flores, borboletas...)
Imagens que passam pelas janelas abertas e caem num mar de idéias que desfragmentam seus referenciais. Ficam outras coisas.
Estou farto desse poeta de muito falatório, filosofia, poesias, desabafos...
De poeta quero ser mergulhador, pois dentro do oceano faz-se silêncio
E assim posso exorcizar esse enfermo hipodérmico que se manifesta em forma de poeta hipócrita
Debaixo da minha pele e da minha alma reside uma catedral submersa
Pode ir, me deixe aqui com minhas chagas, meus leves infortúnios, minha hipocrisia
Eu me entendo com minha própria massa acinzentada
A qualquer momento degusto da “Bala mágica” ou do “emplasto” e tudo passa
Você não precisa dizer nada, se abrir a boca pode contrair dessa epidemia

terça-feira, 24 de maio de 2011

Mãos, Lábios e Línguas de Vulcão

 Por Jefferson Acácio



Elas vêm correndo  feito o balanço das gangorras
Correm soltas em direções paralelas
Avorassadas me abraçam tocando minhas costas
E puxam-me com força comprimindo dois corpos
Mãos abençoadas, santas mãos, beatificadas...
Trouxe para mim a energia da minha amada
E quando falo bobagem, elas rapidamente tocam minha boca
E minhas palavras voltam quietinhas pra garganta, soluçam e adormecem no peito
E meus lábios captam o tato de seus dedos quentinhos
Então me pede silêncio, pede minha tranqüilidade...
É quando suas mãos transmutam-se de santidade para sensualidade
Descem devagar escorrendo dos meus lábios, descem leves e suaves
Medicando meu corpo, estou cheio de chagas...
São mãos enfermeiras...
Encontra no caminho traçado no meu corpo o destino na vertical
Avassaladoras, as mãos, magnéticos os lábios, frenética, a língua!
Ouço harpas e flautas, ouço suspiros e flutuo nas asas da minha hárpia!
Esses seres mitológicos sempre me enfeitiçam, ninfas, sereias, deusas gregas...
Eu viajo para orientes e ocidentes
Meu corpo grita e jorra alegria!
Mas agora, suas mãos se despedem, estão distantes, num barco vazio sem direção
As mãos da minha majestade dançam bailarinas num sinal de adeus
Está muito longe para calar meus lábios...
Longe para por represas nos meus olhos...
Nenhuma arte é mais quente e verdadeira que o seu olhar,
Que seu corpo banhado do nosso suor...
Nenhuma arte resiste e nenhum poema se deitará nos seios d’outra mulher!
Minha ave de rapina partiu rápida no vôo
Despediu-se com mãos, lábios e línguas de vulcão

domingo, 15 de maio de 2011

Seu corpo, minha poesia!

 Por Jefferson Acácio



Eu quero freqüentar você
Para lavar meu corpo da monotonia
Para ser uni subserviente a você
Quero freqüentar sua boca com minha lâmina
Porque nosso corpo tem poesia

Eu quero encontrar você
Para eu escapar do transito da metrópole
Para ser uni presente onde quer que esteja
Quero encontrar sua cútis com minhas digitais
Porque nosso corpo tem poesia

Eu quero aplaudir você
Para ter um pouco mais de alegria
Para ser a tua platéia
Quero aplaudir sua cena em carnais fantasias
Porque nosso corpo tem poesia

Eu quero sentir você
Para ter a palpitação de novas poesias
Para ser a minha xamã, deusa cabalística e ninfa
Quero sentir teu pecado em meu dedo de acusação
Meu corpo sozinho só reproduz palavras e não fecunda vida

Se desprezar meus pedidos
E condenar-me do castigo de sua distância e abstinência
Não vou querer residir mais na monotonia, não...
Vou mudar-me para o vicio da boemia, sim...
Seu crime não terá sido a sua apatia
Mas a causa da morte da poesia
Minha poesia tem pacto com o seu corpo
É o meu caderno de caligrafia que percorrem silhuetas e retas!
Ela se constrói do suor do nosso sexo tântrico
Além do meu anatômico mora um poeta indissociável de você
Separar de ti é o esgotamento de mim
Sepultamos as poesias de morte súbita
E o corpo sem poesias é nudez vergonhosa e apenas produto de orgia!

sábado, 14 de maio de 2011

Moleque prodígio

 Por Jefferson Acácio





Do alto galho da árvore da vida
Eu clamo – não me deixe cair!
Lá de baixo, menino passou e disse – fruto maduro, mãe!
Será mesmo que apontou para mim?
- Não, não! Estou verde! Sou verde!
Verde é azedo, não faz suco doce nem misturando sumo da cana
Afastem-se de mim andorinhas com o tempo carregado no bico
Os ponteiros estão desajustados, ainda não é hora, ainda não está acabado!
Não me chamem de menino maduro, porque maduro cai do pé
Ainda estou conservado e juro sinto-me parte dessa árvore
Sinto a genética de suas raízes e como um produto vivo em desenvolvimento...
Sinto ainda o cheiro forte da grama lá em baixo, do vento acariciando-me...
É gostoso residir nessa árvore de tronco frondoso oxigenando a vida, semeando sabedoria e há muito o que fotossintetizar!
Chame-me de moleque prodígio - que tem casca verde e por dentro é vivido - 
Os frutos maduros são mais doces, mas os de cascas verdes não caem
A não ser que sejam colhidos mais cedo, mas não quero ir pra nenhum cesto!
É proibido chupar do fruto verde, não tem gosto bom...
Apesar do ditado do pomar - frutos proibidos são mais saborosos...
Não sei disso, não...
Mas olhe, sou muito verde!

Como eu saí da sua vida?

 Por Jefferson Acácio



O carma existencial que tanto te incomoda
É saber como eu saí da sua vida
Ora, acaso não sabes que sei nadar?
Achou que eu fosse me afogar por pular do seu barco em alto mar?
Ainda lhe afirmo vilmente que conheci incríveis arquipélagos
Juro que decorei as pigmentações de todos os corais que encontrei
Assim que achei firmamento, pisei e dispararei forte como um tornado
Tenho super poderes chamados felicidade, autodisciplina, coragem, positividade
Ah e combato todos os carmas com minha potente habilidade de amor próprio
E minha visão é meu prisma, a fé é meu talismã e os pés têm asas de Ícaro
Sou terrestre marítimo aéreo e mágico, capaz de me teletransportar!
Era assim que eu fazia quando estava no seu barco, eu me teletransportava
Levei-te a lugares mágicos, e também viajei por paraísos onde me isolava de você
Não saí da sua vida, saí do seu barco, que agora segue horizontes infinitos no oceano
Outros faróis, portos, tempestades, rezo pra não sofrer naufrágios
Bons ventos guiem o seu leme!

domingo, 24 de abril de 2011

UM TORNADO DE AMOR

 Por Jefferson Acácio


Ei
Não é esse tipo de amor que eu quero
Não adianta conceituá-lo como inexplicável
Não adianta defender-se com preceitos formidáveis
De que amor é isso aí, é o que você tem a oferecer
E que já está em suas mãos, também não discordo
Amor é isso aí mesmo, do jeito que você vê, é o que você sente
Não lhe cabem regras que não comprove que você ama
Você ama, eu sei, eu vejo e ponto.
Mas não é esse tipo de amor que eu quero
Via cruzes! Entenda!
Quero um amor do tipo katrina!
Devastador, demolindo ruínas e muralhas do sem fim
Quero um amor do tipo mar vermelho
Para eu fazer um mergulho relativamente inofensivo
Que  pode ser fatal, mas só o mergulho por si basta
Quero um amor do tipo Arco-íris de fogo
Com inteira participação do sol em vários espectros de luz
Quero um amor nobre, real, vulcânico e vitalício
Com freqüência diária de explosões
Quero um amor que me corte como a linha do equador corta o planeta
Sou metade teu pelo dia, outra metade sou teu pela noite
Quero um amor que de olhos fechados...
Eu veria eclipse, auroras polares e estrelas cadentes!
Quero um amor ardente, 100° na escala Celsius e Fahrenheit
E se eu chorasse devido à intensidade dessa força
Minhas lágrimas seriam ágata, quartzo e safiras
E quando eu sorrisse notariam facilmente meus olhos
Como brilhante de zircão, cristal de citrino e esmeraldas
Quero amor jóia, que brota precioso da natureza
Quero um amor do tipo diamante, nada o corta senão ele mesmo
Não é esse tipo de amor o qual você me oferece como carta comercial
Com divisão de bens, compartilhando benefícios...
Repartindo os resquícios da fonte 
    maior e magnífica que há dentro de ti
Quero um amor que entale minha saliva na garganta
E meus olhos se enchem como uma represa de tanta alegria
E jorre como maré alta do tipo tsunami
Um tipo de amor que aqueça as águas superficiais do meu oceano
Que seja pacífico, tropical, anormal, transgressor...
Hei, eu evolui tanto pra chegar até você
E o que tem a oferecer é esse amor do tipo água de torneira?
Perdão, não é desse tipo de amor que falo de dentro do peito
É o amor de fenômenos que me refiro, porque sou um tornado!






segunda-feira, 11 de abril de 2011

Crayons (Primeiras Poesias)

 Por Jefferson Acácio


Ah, saudade que dá do tempo de escola...
Eu cá da janela imaginando com meu caderno e lápis
Lembrando dos primeiros poemas escritos no quadro-negro
Os primeiros passos da alfabetização das poesias
Os primeiros ensaios de declamação para a sala de aula vazia
Os crayons coloridos destacando a poesia
Entre hieróglifos marcados nas paredes e carteiras
Passava horas lendo cada rabisco dos colegas
Os primeiros indícios da minha curiosidade social
As paredes eram o espelho confessionário de cada um
A necessidade vital de expressar e relatar
Ainda sinto-me naquela sala de aula
Com as expectativas de novas lições e constantes testes
Simulados relâmpagos, conceitos, anotações,
E paredes rabiscadas de crayons
Ah, saudade que dá do tempo de escola...
Saudade dos passeios no barquinho de papel
Saudade dos crayons!

A Lenda

 Por Jefferson Acácio



Reza a lenda que o ser humano sabe viver
Silenciosamente a lenda é desmistificada
Nossa aldeia global está em extinção
As fronteiras da informação cada vez menores
As fronteiras entre as pessoas cada vez maiores
O homem tem dedicado mais tempo à ignorância.
Temos uma meta: Não pensar apenas no próprio nariz
Se soubéssemos diluidamente
Cada segundo do que é estar sozinho,
Saberíamos valorizar melhor a presença do outro.
Precisamos nos refazer e fazer valer a lenda

Coreografias e Melodias

 Por Jefferson Acácio



Eram melodias de maestro, sem ensaio, sem platéia.
Eram as linhas implícitas dos nossos olhares.
Tension-release, intensidade, carnudos lábios. Negrume.
`Contratempos`, cama, lençóis amarrotados de amor
Tombes, cabriolés, mise-en-scenes calorosos.
Bailamos suados em pas-de-deux.
Empinadas... Rebeldias... Simetria de pernas
Formas geométricas e partituras
Ela sem collant, colando-se mim
... Sapateado... Fox Trot... Duelos... Alma... Corpo...
Cansaço... O sono... Madrugada...

O despertar

Levantei-me com passos intrépidos até a cozinha.
Som BG da porta.
Ela partiu com um zoom-out seco e amargo!
Velas e terços... Lenço e patuá...
Incenso e chamas no meu travesseiro...
Taças quebradas próximo à cama...
Sangue no meu pé direito...
De volta às melodias envenenadas

Anônima, Café e Melodia

 Por Jefferson Acácio

                             

Quando parei na sinaleira
Ela atravessou a rua
Pude senti-la atravessando verticalmente minha garganta
Descendo com minha saliva.
Eu precisava salvá-la de um possível afogamento
“Estranho Esgotamento”.
Poesia, música e danças emolduram seu jeito de andar
Uma obra artística...
Eu estava esgotado de circular de rua em rua
Na esperança de encontrá-la novamente.
Enfim, encontrei-a no cartaz do teatro
“Estranha coincidência”.
Ela apareceu divina num vestido florido,
Deslumbrando os mercenários
Com pernas e braços nus, esmalte vermelho, batom...
Ela se enfeitava no espelho do cenário.
Minha atenção a ela se convergia
E somente aquela deusa era o meu foco ritualístico.
Corria o tempo em fast motion
Meu peito invadido de uma intenção de cortejá-la,
Mais tarde, fui tomar um licor caribenho no bar ao lado
Quando ela entrou e pediu café.
– “Dois dedos, por favor. Bem quentinho!”
– disse com um sorriso mágico.
Espantei-me, e me senti borbulhando
Dentro de sua xícara quentinha esfumaçando o desejo
“Mulata, cor de café, eu também quero dois dedos” – pensei
Fizemos um passeio que chegou até a porta do meu apartamento
A porta... O trinco... O arco... A flecha... Os olhos... Os braços... Mãos... Cintura... Um laço... Os lábios... O calor... É amor?... A cama... Estávamos zens em zoom - in e zoom - out.
Uma sinuosa trama de entregas... Suspiros! É festa!... O zíper... Encosta. O peito... Respeito?... Carinho... Os lençóis... Um nó... Pernas e braços nus... Pão-Francês... Garganta... Leite... Pescoço... Lingerie... Os beijos... Uma cena... Incenso... No quarto... Alfazema e também um perfume de rosas... Pecado nos quadris... Linda melodia!

Cédulas da Felicidade

 Por Jefferson Acácio



Encontrei ontem uma cédula de cinqüenta reais. Simbólica
E continha escrita: -“Qual o custo da sua felicidade?”
Pergunta simbólica que mexeu com meu imaginário
Cochilei com o nariz no farejo da nota de papel
No sonho eu via as “onças” se multiplicarem até formar um safári.
E um leopardo carnívoro me avistou de longe
Veio em minha direção com passos silenciosos e astutos
Em seu pelo havia o escrito “felicidade”
O leopardo saltou com dentes afiados
- Quimera eu ser a presa capturada pelas mandíbulas da felicidade, mas eu havia acordado do sonho.

A felicidade poderia ser como as garoupas,
Escondida em algum canto profundo de um oceano.
Ou quem sabe fosse baseada na materialidade.
As pessoas se transformariam em moréias venenosas
Defendendo seus royalties da felicidade.
Acho que a felicidade tem uma natureza mais fraternal,
Como os micos-leões dourado
A felicidade precisa nos fazer lúdicos como as araras.
Já pensou, se ela pousa nas mãos de um sortudo em forma de garça? A felicidade estaria então nas mãos de muitas pessoas

Muita gente devia ser feliz nesse planeta.
Mas encontrar a felicidade parece ser uma idiossincrasia.
As pessoas verdes temem serem "a presa" da felicidade.
O impacto de suas mandíbulas carnívoras assusta.
As pessoas maduras lamentam por não terem se permitido mais,
E vivem a triste culpa de confundirem amor com prisão e trocado a felicidade pela solidão.

Sorrisos simbólicos e prazeres imediatos.
Abismos, Ilusões, prisões pessoais, carências, insônias...
Quero tirar do meu corpo e alma estas tatuagens
Em troca da mordida da felicidade
Pois ser feliz não tem o custo de uma cédula
E se fosse, seria um beija-flor
É muito barato e pode até ser pago com um beijo!
Corra felicidade, venha feroz com sua mordida!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Poesias Bastardas


 Por Jefferson Acácio



Eu sou puta!

Tenho filhos bastardos
Sou puta por gerar poesias e entregá-las ao mundo
Ainda descalças e sem um registro de nascimento. Bastardas.
Mas prefiro a incerteza dos caminhos por onde elas andam
Certamente se oferecendo à leitura nos faróis, semáforos e esquinas das cidades virtuais
Elas nascem sem embriões já alfabetizadas no HTML e códigos binários
Não sei se encantam ou entortam o nariz de quem as lêem
Só sei que a poesia é bastarda e o poeta é uma puta
O poeta mistura os espermatozóides da criatividade com hormônios extraídos da vida social
São diversos parceiros anônimos vivendo e gozando e o poeta germinando poesias
É quase uma permuta sincera, o qual vocês me dão e eu dou-lhes em retorno às minhas filhas!
Sou quase um ninfomaníaco literário.
Diversas vezes deleito-me às leituras e escritas.
Suor, suspiros e excitação de espíritos.
Nessas horas penso em tanta gente e juro não é pro benefício da masturbação
Mas meu peito e mãos também pulsam como na hora do orgasmo
Pulsam forte sufocando a caneta no papel
Pulsam forte martelando as teclas com golpes ligeiros dos meus dedos
O poeta sente, finge, fareja, mata, ressuscita, geme, morde e ladra
O poeta é verdade e é mentira, tem medo, e tem coragem
Menstrua, ovula, e germina.
E é uma puta que entrega ao mundo suas crias!


Só sei que a poesia é bastarda que se ofere à leitura  e o poeta é uma puta que entrega suas crias ao mundo!

Vamos dar um tempo?

 Por Jefferson Acácio







- “Vamos dar um tempo?” - disse-me após uma discussão inútil e saiu.

Não deu tempo para cuspir de volta o resto do seu beijo. Nem tempo de retocar a maquiagem borrada. Sinto ter perdido o meu tempo com a farsa desse relacionamento com a qual ele levava como um endosso. Assim ele mastigava o malfeito debaixo dos meus olhos freados de estupidez. E agora ele mesmo fez o trabalho sujo de empurrar a bagunça pra debaixo do tapete.

- “Quero você o tempo todo!” – dizia-me com intensidade.

Nem parecia que tivesse ouvido essas palavras há pouco tempo tamanha contradição. Acho que me teve tão freneticamente que o tempo expirou.

- “E o tempo nunca chegava” – Eu reclamava.

As semanas passaram fluidamente despercebidas e as madrugadas incompreendidas, e mais nada rendia senão a espera pelo tempo prometido. Pensei em subordinar o tempo, mas sua função é bem paga: atrasar, apressar e interromper.

- “Quero um tempo!” – Desejei.

 Sem pedir licença, vou aproveitar que não tenho mais o tempo para me impedir de sair atrasada, sem hora marcada, sem compromissos e tomar umas tequilas numa balada. Ah, quero blackouts na memória. Quero fazer um escarcéu e expulsar o infeliz de mim com um grito de liberdade. Estou cheia de vaidade!

- Pode chegar tempo com uma profunda ressaca que eu já apaguei.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Poema das metades

Por Jefferson Acácio





Você - A outra metade de mim - que me trazia alegria

Agora é metade de outra que me traz inveja e agonia
E a metade que era eu virou silêncio
Por me acostumar em sua metade,
Metade de mim quase morre.
Tive que abandonar a sua metade ainda tão morna e modesta
Em minha vida que um dia foi inteira.

Juntei os farrapos de memórias.
Alinhavei, costurei e transformei tudo em ponto cruz
Feri o dedo que manchou a manto de retalhos
Costurei tudo, cobri-me do manto, e parti em busca de uma nova metade.

Se a outra metade que foi embora com outra metade
Não tivesse deixado a mim pela metade
Agora não estaria sozinho
Pois soube que foi deixado pela outra metade
Tudo poderia ser diferente e não estaríamos os dois pela metade.
Nem esse poema seria o das metades! 




sábado, 26 de março de 2011

Restos de Amor


Por Jefferson Acácio



Prometa-me que há amor no fundo do poço
Que eu vou me reduzir à lama para buscar
Por dentro de mim apodreceu o coração
Desidratado na falta do liquido
Ardente e suave que somente o amor proporciona.
Desde então me tornei um resto de vida predatória,
Um corpo quase inorgânico
Que duraria 100 anos para se decompor.
Sou uma natureza quase morta,
Um andarilho quase biodegradável,
Bem capaz de nunca morrer de vez
Para não poluir o ventre da terra.
Por isso, suplico-te, força invisível,
Mago ou qualquer ser oculto.
Ouça atentamente ao meu chamado,
Pois te rogo por esta causa particular.
Varra o planeta com sua magia e
Revele-me o esconderijo do amor
Estou numa guerra fria dos sentimentos devastados.
Prometa-me que há amor num terreno genocida
De uma civilização contaminada pelas piores doenças
Quero deslizar minha língua sob o solo
Pior é padecer de incompletude
Não dispensarei qualquer fagulha ou resto de amor
Eu faria o milagre da multiplicação;
Prometa-me cirurgicamente arrancar de mim
As memórias dos amores inventados;
Sugar toda a saliva dos que já me profanaram;
Dilacerar e escalpelar da minha derme todo disfarce
Prometa-me provar a existência do amor
Quero esse sabor mesmo no último segundo de vida
Contamina-me de amor radioativo,
Pois de agora em diante eu sou puro
Para ser revestido unicamente pelo amor!
Amor!
Ferva em mim como larvas de um vulcão adormecido!