segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Poesia Oral

- Corpo na Poesia
Por Jefferson Acácio





Existo dentro do meu corpo como um feto num casulo
Esta pele é apenas uma camada de tecido aquecido
Por dentro há um mistério inefável que vive de silêncios
Você quer tocar o meu corpo e passear com a língua de volúpias
Mas saiba que meu corpo tem contato direto com o coração
Ele é uma bomba nuclear pronta a disparar involuntariamente
Sim, dentro desta pele mora um homem-bomba
Que tem alta capacidade de explodir de amor!
Uma bomba até hoje preservada para o dia de sua glória sísmica
Então tome cuidado com seus lábios de cio e sal
A língua é uma erva venenosa que pode nos profanar de desejos
E o desejo é um mistério que combina com meu corpo e minha poesia
Estou cheio de movimentos sinuosos de quem procura por perigo
Conspirando as obviedades do corpo com a poesia
Me excito com essa cifragem de códigos
Ler o movimento da tua boca é uma emergência
E quando se morde - seduza-me com a tua linguagem!
Tudo é uma linguagem, e essa é de carne e osso
Essa carne exibe os dentes como lobo
E me deseja ferozmente pra minha distração
Não me importa o efêmero ou o eterno
A luz ou a escuridão ou outros contrastes
Meu corpo tem pressa de ser saciado pela poesia
A poesia que tua língua inicia escrevendo meu nome sob a pele
Eis-me livro teu!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

UMA MERA QUESTÃO DE COMO SENTIR

Por Jefferson Acácio

­Quem nunca teve o prazer de experimentar
as coisas mais simples do mundo irá compreender
a falta do que é não tê-los por longo tempo
Por quinze anos estive num completo exílio
firmado há mais de 10 mil metros de profundidade
Não sabia nem a referência de tempo
exilado num oceano absurdamente escuro
sem conhecer a luz da superfície e as belezas terrestres
Ainda ameaçado por habitantes de vida marinha
Que sequer eu sabia que tipo de organismos eram
Mas sentia que eram ameaças ao meu habitat
porém protegido por uma espécie de manto ou placenta
que apresentava funções sensoriais em forma de
uma massa gordurosa, de musculo mole, visceral...
me trazia oxigenação ali chamado de trocas gasosas
e capturava alimentos de onde não se imaginaria encontrar
De repente naquela escuridão gélida, ao mesmo tempo morna
sombria... claustrofóbica... antisocial... nojenta...
toda a vida de certo modo estava ali no enxcerto, em pleno movimento do EXISTIR
E nenhum predador ousaria o êxito de conseguir a captura.
Pois meu exílio era revestido de uma força rochosa, de cálcio, ferro, sei lá...
nada atingia... Exuberante fortaleza...
Quinze anos de minha evolução passei nesse exílio camuflado
como um feto indefeso, em formação genética tardia...
como um feto amedrontado que não quis brotar para a superfície
e sequer conheceu a superfície e sequer teve a natural curiosidade
Ali na minha pequenina prisão de liberdade, onde tudo era místico
onde o todo era um vasto compacto da natureza e perdido no lugar comum
O meu lugar, o meu lar dentro de um mundo exótico, larval, laboratorial...de sentir!
O estágio da minha evolução era observado e sentido pouco a pouco
Em nenhum instante desejava dirigir-me por caminhos estranhos fora dali
em busca de outros substratos necessários e adequados
para completar essa metamorfose
eu queria criar raízes, cordões e nós de fixação até os fins dos meus dias incontáveis
E por aparente desastre um grande predador surgiu em meio à escuridão vazia
tudo se mexia simultaneamente e agressivamente como se quisesse me expulsar
Uma cavadeira com um tecido estranho abriu as valvas da minha moradia
Chamaram esse evento violento de “nascimento” e deram-me o nome de “Pérola”
E também disseram que assim é que somos reproduzidos – como produto da dor
Fui expulso do meu pequeno-grande mundo e forçado a sentir a superfície luminosa
Luzes de efeitos diversificados, incandescente, causando uma cegueira que me fez enxergar
- Sem necessidade de polimento – Diziam ao me observar esfericamente.
Outros terrestres exclamavam – perfeito brilho!
Símbolo do amor, riqueza, vida, perfeição, beleza, brilho...
Assim conheci outras infinidades de pérolas com diferentes identidades e grupos...
pérolas japonesas, australianas, dos mares sul...
De plurais cores cremes, amareladas, esverdeadas...
brancas, negras, prateadas, rosadas, champanhe, azuladas...
Uma porcentagem de formas, redondas, ovais, gotas, botões, irregulares, regulares...
E com toda essa beleza caminhando por joalherias, pescoços, braços, gavetas...
Encantando homens e mulheres, vestidos, bolsas, artigos variados...
e muito além disso, conhecendo a mais profunda escuridão...
e a mais estonteante luz invasora da superfície ...
E quando me deparava em mãos de quem nada tinha para comer
tendo a jóia como a saída para suprir a fome avassaladora e real
E quando me deparava em mãos de quem outras joias exibia em abundância
tendo a jóia como mais uma da coleção para suprir a fome avassaladora e real
No poder dessas mãos, numa eu era a jóia preciosa como o pão da vida
Noutra eu era a jóia roubada, a prova de condenação como a culpa que mata
Noutra eu era a jóia do poder, da vitalidade, da supremacia...
pronto para ser exibida a qualquer momento e conservada por tradições
Em todas essas e situações senti-me como num outro estágio inacabado
E a jóia aqui nada mais que exibe o simples fato inevitável – A VIDA.
Há quem rejeita ou não teve a chance de senti-la em suas profundidades.
Na luz ou escuridão, é uma mera questão de como sentir!



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