segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Poesia Oral

- Corpo na Poesia
Por Jefferson Acácio





Existo dentro do meu corpo como um feto num casulo
Esta pele é apenas uma camada de tecido aquecido
Por dentro há um mistério inefável que vive de silêncios
Você quer tocar o meu corpo e passear com a língua de volúpias
Mas saiba que meu corpo tem contato direto com o coração
Ele é uma bomba nuclear pronta a disparar involuntariamente
Sim, dentro desta pele mora um homem-bomba
Que tem alta capacidade de explodir de amor!
Uma bomba até hoje preservada para o dia de sua glória sísmica
Então tome cuidado com seus lábios de cio e sal
A língua é uma erva venenosa que pode nos profanar de desejos
E o desejo é um mistério que combina com meu corpo e minha poesia
Estou cheio de movimentos sinuosos de quem procura por perigo
Conspirando as obviedades do corpo com a poesia
Me excito com essa cifragem de códigos
Ler o movimento da tua boca é uma emergência
E quando se morde - seduza-me com a tua linguagem!
Tudo é uma linguagem, e essa é de carne e osso
Essa carne exibe os dentes como lobo
E me deseja ferozmente pra minha distração
Não me importa o efêmero ou o eterno
A luz ou a escuridão ou outros contrastes
Meu corpo tem pressa de ser saciado pela poesia
A poesia que tua língua inicia escrevendo meu nome sob a pele
Eis-me livro teu!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

UMA MERA QUESTÃO DE COMO SENTIR

Por Jefferson Acácio

­Quem nunca teve o prazer de experimentar
as coisas mais simples do mundo irá compreender
a falta do que é não tê-los por longo tempo
Por quinze anos estive num completo exílio
firmado há mais de 10 mil metros de profundidade
Não sabia nem a referência de tempo
exilado num oceano absurdamente escuro
sem conhecer a luz da superfície e as belezas terrestres
Ainda ameaçado por habitantes de vida marinha
Que sequer eu sabia que tipo de organismos eram
Mas sentia que eram ameaças ao meu habitat
porém protegido por uma espécie de manto ou placenta
que apresentava funções sensoriais em forma de
uma massa gordurosa, de musculo mole, visceral...
me trazia oxigenação ali chamado de trocas gasosas
e capturava alimentos de onde não se imaginaria encontrar
De repente naquela escuridão gélida, ao mesmo tempo morna
sombria... claustrofóbica... antisocial... nojenta...
toda a vida de certo modo estava ali no enxcerto, em pleno movimento do EXISTIR
E nenhum predador ousaria o êxito de conseguir a captura.
Pois meu exílio era revestido de uma força rochosa, de cálcio, ferro, sei lá...
nada atingia... Exuberante fortaleza...
Quinze anos de minha evolução passei nesse exílio camuflado
como um feto indefeso, em formação genética tardia...
como um feto amedrontado que não quis brotar para a superfície
e sequer conheceu a superfície e sequer teve a natural curiosidade
Ali na minha pequenina prisão de liberdade, onde tudo era místico
onde o todo era um vasto compacto da natureza e perdido no lugar comum
O meu lugar, o meu lar dentro de um mundo exótico, larval, laboratorial...de sentir!
O estágio da minha evolução era observado e sentido pouco a pouco
Em nenhum instante desejava dirigir-me por caminhos estranhos fora dali
em busca de outros substratos necessários e adequados
para completar essa metamorfose
eu queria criar raízes, cordões e nós de fixação até os fins dos meus dias incontáveis
E por aparente desastre um grande predador surgiu em meio à escuridão vazia
tudo se mexia simultaneamente e agressivamente como se quisesse me expulsar
Uma cavadeira com um tecido estranho abriu as valvas da minha moradia
Chamaram esse evento violento de “nascimento” e deram-me o nome de “Pérola”
E também disseram que assim é que somos reproduzidos – como produto da dor
Fui expulso do meu pequeno-grande mundo e forçado a sentir a superfície luminosa
Luzes de efeitos diversificados, incandescente, causando uma cegueira que me fez enxergar
- Sem necessidade de polimento – Diziam ao me observar esfericamente.
Outros terrestres exclamavam – perfeito brilho!
Símbolo do amor, riqueza, vida, perfeição, beleza, brilho...
Assim conheci outras infinidades de pérolas com diferentes identidades e grupos...
pérolas japonesas, australianas, dos mares sul...
De plurais cores cremes, amareladas, esverdeadas...
brancas, negras, prateadas, rosadas, champanhe, azuladas...
Uma porcentagem de formas, redondas, ovais, gotas, botões, irregulares, regulares...
E com toda essa beleza caminhando por joalherias, pescoços, braços, gavetas...
Encantando homens e mulheres, vestidos, bolsas, artigos variados...
e muito além disso, conhecendo a mais profunda escuridão...
e a mais estonteante luz invasora da superfície ...
E quando me deparava em mãos de quem nada tinha para comer
tendo a jóia como a saída para suprir a fome avassaladora e real
E quando me deparava em mãos de quem outras joias exibia em abundância
tendo a jóia como mais uma da coleção para suprir a fome avassaladora e real
No poder dessas mãos, numa eu era a jóia preciosa como o pão da vida
Noutra eu era a jóia roubada, a prova de condenação como a culpa que mata
Noutra eu era a jóia do poder, da vitalidade, da supremacia...
pronto para ser exibida a qualquer momento e conservada por tradições
Em todas essas e situações senti-me como num outro estágio inacabado
E a jóia aqui nada mais que exibe o simples fato inevitável – A VIDA.
Há quem rejeita ou não teve a chance de senti-la em suas profundidades.
Na luz ou escuridão, é uma mera questão de como sentir!



segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Galeria de Arte



Por Jefferson Acácio




O céu e você são um retrato na minha memória
Uma pintura que suja minha camisa com gotas de tinta fresca
Você e a paisagem do cotidiano são uma bela criação das artes plásticas
Como um quadro vivo que se move formando novos desenhos
Estou a te contemplar como minha gravura figurativa e abstrata
Teu desenho remodela-se em meus pensamentos como rabiscos no papel
Teu corpo banha-se na paleta de cores e me seduz na tela em branco
Seu contraste nas superfícies  assume todas as texturas, tons e matizes
Expressionista! Aglutinante! Indivisível - minha obra de arte!
Meu corpo e alma são a tua galeria!

Poeta e Rotinas


Por Jefferson Acácio




A rotina me amansou em doses de tarefas operacionais
Eu vivo mais nos carnavais! Doces dias infernais!
Meu paletó sempre passado, minhas meias sempre suadas!
Vivo amassado nos braços da amada! Em teus seios eu suo mais!

Meus dias eram sempre samba, festa e orgia
Sai da boemia e cai na rotina!
Sai da bagunça e cai na faxina!
Sai da alegria, cai na melancolia!

Rotina cretina e traiçoeira
É como uma serpente astuta
Mata suas presas por constrição
Asfixia, imobiliza e engole

Nas páginas do meu diário
Quase morriam as poesias asfixiadas
Poucas linhas ainda havia,
Páginas de compromissos lotadas!

Em poucas linhas escrevi um verso
Desdenhando sobre o dia sistemático
E reconheço que quase seriam as árvores em vão sacrificadas
Por pouco não teriam gerado o fruto-poesia em suas páginas pálidas

Por pouco também eu se esquecia do escritor
De alma vagabunda de ócios e muito amor
Jaz varejista e não mais artista em ofício
Por pouco poderia a poesia abandoná-lo por completo

Mas a poesia não nos abandona
Faça chuva ou faça sol, ela se encaixa
Amo as mais vagabundas e honestas
Que chegam despidas e desprovidas de rotinas!

Córregos e fossas de minha natureza


Por Jefferson Acácio




Dentro de mim um mundo inabitado construído por ruas vazias sem nome
Córregos inundados em tempo de tempestades correm por minhas veias
A vontade de desaguar toda a sujeira no oceano sobrenatural
Minhas veias entupidas de vivacidade e desejos latejantes
Pulsam como bernos cavando crateras no peito em busca de liberdade
Senhor, tenho sonhos aprisionados nas artérias e pulmão
Sequer posso respirar para não perdê-los de vista
Ausências estupidas e medos volúveis, o que posso fazer?
Por mais que eu me entregue mais profundo eu mergulho em mim
E mais escuro são as fossas onde meus sonhos se escondem da superficie
Se ao menos esses córregos transbordassem por minha garganta
E tomasse a forma da palavra dentro de uma estrutura sonora estridente
E num grito forte toda a minha resistência de desarmasse para o mundo
E para o mundo eu libertaria os meus sonhos
Quem cuidaria dos meus sonhos, sujos de córregos e fossas da minha alma?
Quem lhes daria banho, carinho e alimento para crescerem fortes?
Não tenho medo da morte! Tenho medo da chuva!
A chuva que inunda as ruas das minhas noites vazias!
Um grito de sobrevivência clama por um forasteiro desbravador
Que, com coragem e astucia, iria caminhar pelos córregos, contra a correnteza
Viria me resgatar de minha prisão inventada, somente para provar de um beijo
Um simples beijo representa a muralha vencida que barram as aguas da minha felicidade
Meus sonhos querem correr livres em alta velocidade como uma cachoeira despenca do alto
Minha felicidade se revela nessa queda-livre e meus sonhos assim sobrevivem!

domingo, 9 de outubro de 2011

O QUE ME VESTIR MELHOR

Por Jefferson Acácio

O bom de ser EU é que não existo
Visto a roupa imaginária que me cabe
O mal de ser EU é que nada me cai bem
Não tenho medidas exatas na personalidade
Me falta o corte certo e o alinhamento 
A nudez é o meu manto eficaz
Não gosto do tecido da sua ignorância grudado no corpo
Colada ao meu corpo somente quero a tua pele - Nada a mais!
Não tenho vergonha dos traços que me desenham
E meu desenho tem colaboração artística do Bem e do Mal
Pro seu bem, venha e vista meu corpo de uma grife chamada amor
Pro seu mal, venha e vista meu corpo do seu corpo!
Para nosso pecado nos levar ao paraíso eterno!
E se não vier, entrego o meu corpo à poesia!
A poesia me veste melhor!


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Hipocrisia Hipodérmica (manifesto)



Por Jefferson Acácio


Silêncio! Não digam nada seus caóticos seres insuportáveis
Por agora dispenso os julgamentos prévios de quem lê esse gorfo azedo
Não me façam sensacionalismo enquanto perfuro meu próprio peito
Removendo cirurgicamente com bisturis uma mancha cinzenta
Que veio a tinturar esse coração hipócrita de poeta burguês
Eu sou um desses seres insuportáveis e infames igual à vosmecês.
Eu sou um desses que condenam condutas pútridas alheias
Enquanto assistem do alto do apartamento as enfermidades desse mundo doentio
E que antes de deleitar sobre um colchão reconflex pensa sobre as desigualdades
Então simplesmente movido de inspiração na desgraça do próximo redige uma poesia
E volta para o conforto e fecha os olhos para a miséria que beija-lhe a face todos os dias
Tantos Judas por aí meu Deus, e eu ainda ouço e ouso chamar pelo Teu Nome
E depois de escrito ainda surgem os elogios condizentes
“Nossa quanta sensibilidade!” “Lindo o seu desabafo” “Que bela poesia”
Por favor, sem julgamentos, não façam de mim mais hipócrita do que sou
Deixe-me vomitar sozinho o sangue coagulado, o joio, o berno, a bicheira...
Deixe-me cuspir as convenções sociais, as éticas massificadoras e pacificadoras
Tem um enfermo dentro de mim que precisa de água, comida, amor e ideais
Não vou tratá-lo como um número de hospital computado nas estatísticas
Tem um enfermo dentro de mim contestado e deteriorizado de estigmatizações sociais
Que adoeceu pelo efeito de um vírus emitido pelo transmissor “mídia”
O vírus da subalternização dos processos hegemônicos da sociedade organizada em massa
Esse enfermo que vos escreve está  iludido pelo sentimento de que faz parte
De uma sociedade secreta e restrita de pensadores, humanos sensíveis...
Preciso remoer e remover essa cartilagem cinzenta grudada na minha artéria
Inventando sentimentos tenros e sinceros de compaixão
Que compaixão coisa nenhuma! É covardia! É hipocrisia!
Fingimento de anseios, jurando ter uma vida difícil. Coisa nenhuma!
Uma vez ouvi uma prostituta com cheiro de gozo, de bosta, de chão, de lama...
Que disse em voz alta a uma senhora que se benzeu em sua intenção
Como se estivesse prostrada diante de uma entidade demoníaca ou uma inimiga publica
Então a “puta da alma vendida ao diabo” bradou “Venha benzer a minha fome, o meu frio, a minha dor de cheirar o corpo dos amigos que morrem todo dia nesse chão onde você pisa e cospe sua velha recalcada. Venha cuspir aqui na minha...” (digamos assim, “venha cuspir aqui na minha vergonha ou na minha genitália”).
Ah, puta, o recado pareceu ser uma indireta pra mim que não se benzeu, mas olhou com nojo
Agora, é um nojo do enfermo, lazarento, torpe, sujeito adoecido dentro de mim.
E do que adiantaria correr pra casa ou para uma igreja mais próxima e rezar?
Reza é falatório para não ouvir. Todo mundo quer falar, acusar, apontar e julgar. Há até cursos de oratória, mas nunca vi anunciado por aí algum curso de escutatória.
Além de tudo o enfermo acinzentado e hospitalizado dentro de mim é cego
Cheio de filosofias que lhe permite ver as coisas (árvores, prévios, flores, borboletas...)
Imagens que passam pelas janelas abertas e caem num mar de idéias que desfragmentam seus referenciais. Ficam outras coisas.
Estou farto desse poeta de muito falatório, filosofia, poesias, desabafos...
De poeta quero ser mergulhador, pois dentro do oceano faz-se silêncio
E assim posso exorcizar esse enfermo hipodérmico que se manifesta em forma de poeta hipócrita
Debaixo da minha pele e da minha alma reside uma catedral submersa
Pode ir, me deixe aqui com minhas chagas, meus leves infortúnios, minha hipocrisia
Eu me entendo com minha própria massa acinzentada
A qualquer momento degusto da “Bala mágica” ou do “emplasto” e tudo passa
Você não precisa dizer nada, se abrir a boca pode contrair dessa epidemia

terça-feira, 24 de maio de 2011

Mãos, Lábios e Línguas de Vulcão

 Por Jefferson Acácio



Elas vêm correndo  feito o balanço das gangorras
Correm soltas em direções paralelas
Avorassadas me abraçam tocando minhas costas
E puxam-me com força comprimindo dois corpos
Mãos abençoadas, santas mãos, beatificadas...
Trouxe para mim a energia da minha amada
E quando falo bobagem, elas rapidamente tocam minha boca
E minhas palavras voltam quietinhas pra garganta, soluçam e adormecem no peito
E meus lábios captam o tato de seus dedos quentinhos
Então me pede silêncio, pede minha tranqüilidade...
É quando suas mãos transmutam-se de santidade para sensualidade
Descem devagar escorrendo dos meus lábios, descem leves e suaves
Medicando meu corpo, estou cheio de chagas...
São mãos enfermeiras...
Encontra no caminho traçado no meu corpo o destino na vertical
Avassaladoras, as mãos, magnéticos os lábios, frenética, a língua!
Ouço harpas e flautas, ouço suspiros e flutuo nas asas da minha hárpia!
Esses seres mitológicos sempre me enfeitiçam, ninfas, sereias, deusas gregas...
Eu viajo para orientes e ocidentes
Meu corpo grita e jorra alegria!
Mas agora, suas mãos se despedem, estão distantes, num barco vazio sem direção
As mãos da minha majestade dançam bailarinas num sinal de adeus
Está muito longe para calar meus lábios...
Longe para por represas nos meus olhos...
Nenhuma arte é mais quente e verdadeira que o seu olhar,
Que seu corpo banhado do nosso suor...
Nenhuma arte resiste e nenhum poema se deitará nos seios d’outra mulher!
Minha ave de rapina partiu rápida no vôo
Despediu-se com mãos, lábios e línguas de vulcão

domingo, 15 de maio de 2011

Seu corpo, minha poesia!

 Por Jefferson Acácio



Eu quero freqüentar você
Para lavar meu corpo da monotonia
Para ser uni subserviente a você
Quero freqüentar sua boca com minha lâmina
Porque nosso corpo tem poesia

Eu quero encontrar você
Para eu escapar do transito da metrópole
Para ser uni presente onde quer que esteja
Quero encontrar sua cútis com minhas digitais
Porque nosso corpo tem poesia

Eu quero aplaudir você
Para ter um pouco mais de alegria
Para ser a tua platéia
Quero aplaudir sua cena em carnais fantasias
Porque nosso corpo tem poesia

Eu quero sentir você
Para ter a palpitação de novas poesias
Para ser a minha xamã, deusa cabalística e ninfa
Quero sentir teu pecado em meu dedo de acusação
Meu corpo sozinho só reproduz palavras e não fecunda vida

Se desprezar meus pedidos
E condenar-me do castigo de sua distância e abstinência
Não vou querer residir mais na monotonia, não...
Vou mudar-me para o vicio da boemia, sim...
Seu crime não terá sido a sua apatia
Mas a causa da morte da poesia
Minha poesia tem pacto com o seu corpo
É o meu caderno de caligrafia que percorrem silhuetas e retas!
Ela se constrói do suor do nosso sexo tântrico
Além do meu anatômico mora um poeta indissociável de você
Separar de ti é o esgotamento de mim
Sepultamos as poesias de morte súbita
E o corpo sem poesias é nudez vergonhosa e apenas produto de orgia!

sábado, 14 de maio de 2011

Moleque prodígio

 Por Jefferson Acácio





Do alto galho da árvore da vida
Eu clamo – não me deixe cair!
Lá de baixo, menino passou e disse – fruto maduro, mãe!
Será mesmo que apontou para mim?
- Não, não! Estou verde! Sou verde!
Verde é azedo, não faz suco doce nem misturando sumo da cana
Afastem-se de mim andorinhas com o tempo carregado no bico
Os ponteiros estão desajustados, ainda não é hora, ainda não está acabado!
Não me chamem de menino maduro, porque maduro cai do pé
Ainda estou conservado e juro sinto-me parte dessa árvore
Sinto a genética de suas raízes e como um produto vivo em desenvolvimento...
Sinto ainda o cheiro forte da grama lá em baixo, do vento acariciando-me...
É gostoso residir nessa árvore de tronco frondoso oxigenando a vida, semeando sabedoria e há muito o que fotossintetizar!
Chame-me de moleque prodígio - que tem casca verde e por dentro é vivido - 
Os frutos maduros são mais doces, mas os de cascas verdes não caem
A não ser que sejam colhidos mais cedo, mas não quero ir pra nenhum cesto!
É proibido chupar do fruto verde, não tem gosto bom...
Apesar do ditado do pomar - frutos proibidos são mais saborosos...
Não sei disso, não...
Mas olhe, sou muito verde!

Como eu saí da sua vida?

 Por Jefferson Acácio



O carma existencial que tanto te incomoda
É saber como eu saí da sua vida
Ora, acaso não sabes que sei nadar?
Achou que eu fosse me afogar por pular do seu barco em alto mar?
Ainda lhe afirmo vilmente que conheci incríveis arquipélagos
Juro que decorei as pigmentações de todos os corais que encontrei
Assim que achei firmamento, pisei e dispararei forte como um tornado
Tenho super poderes chamados felicidade, autodisciplina, coragem, positividade
Ah e combato todos os carmas com minha potente habilidade de amor próprio
E minha visão é meu prisma, a fé é meu talismã e os pés têm asas de Ícaro
Sou terrestre marítimo aéreo e mágico, capaz de me teletransportar!
Era assim que eu fazia quando estava no seu barco, eu me teletransportava
Levei-te a lugares mágicos, e também viajei por paraísos onde me isolava de você
Não saí da sua vida, saí do seu barco, que agora segue horizontes infinitos no oceano
Outros faróis, portos, tempestades, rezo pra não sofrer naufrágios
Bons ventos guiem o seu leme!

domingo, 24 de abril de 2011

UM TORNADO DE AMOR

 Por Jefferson Acácio


Ei
Não é esse tipo de amor que eu quero
Não adianta conceituá-lo como inexplicável
Não adianta defender-se com preceitos formidáveis
De que amor é isso aí, é o que você tem a oferecer
E que já está em suas mãos, também não discordo
Amor é isso aí mesmo, do jeito que você vê, é o que você sente
Não lhe cabem regras que não comprove que você ama
Você ama, eu sei, eu vejo e ponto.
Mas não é esse tipo de amor que eu quero
Via cruzes! Entenda!
Quero um amor do tipo katrina!
Devastador, demolindo ruínas e muralhas do sem fim
Quero um amor do tipo mar vermelho
Para eu fazer um mergulho relativamente inofensivo
Que  pode ser fatal, mas só o mergulho por si basta
Quero um amor do tipo Arco-íris de fogo
Com inteira participação do sol em vários espectros de luz
Quero um amor nobre, real, vulcânico e vitalício
Com freqüência diária de explosões
Quero um amor que me corte como a linha do equador corta o planeta
Sou metade teu pelo dia, outra metade sou teu pela noite
Quero um amor que de olhos fechados...
Eu veria eclipse, auroras polares e estrelas cadentes!
Quero um amor ardente, 100° na escala Celsius e Fahrenheit
E se eu chorasse devido à intensidade dessa força
Minhas lágrimas seriam ágata, quartzo e safiras
E quando eu sorrisse notariam facilmente meus olhos
Como brilhante de zircão, cristal de citrino e esmeraldas
Quero amor jóia, que brota precioso da natureza
Quero um amor do tipo diamante, nada o corta senão ele mesmo
Não é esse tipo de amor o qual você me oferece como carta comercial
Com divisão de bens, compartilhando benefícios...
Repartindo os resquícios da fonte 
    maior e magnífica que há dentro de ti
Quero um amor que entale minha saliva na garganta
E meus olhos se enchem como uma represa de tanta alegria
E jorre como maré alta do tipo tsunami
Um tipo de amor que aqueça as águas superficiais do meu oceano
Que seja pacífico, tropical, anormal, transgressor...
Hei, eu evolui tanto pra chegar até você
E o que tem a oferecer é esse amor do tipo água de torneira?
Perdão, não é desse tipo de amor que falo de dentro do peito
É o amor de fenômenos que me refiro, porque sou um tornado!






segunda-feira, 11 de abril de 2011

Crayons (Primeiras Poesias)

 Por Jefferson Acácio


Ah, saudade que dá do tempo de escola...
Eu cá da janela imaginando com meu caderno e lápis
Lembrando dos primeiros poemas escritos no quadro-negro
Os primeiros passos da alfabetização das poesias
Os primeiros ensaios de declamação para a sala de aula vazia
Os crayons coloridos destacando a poesia
Entre hieróglifos marcados nas paredes e carteiras
Passava horas lendo cada rabisco dos colegas
Os primeiros indícios da minha curiosidade social
As paredes eram o espelho confessionário de cada um
A necessidade vital de expressar e relatar
Ainda sinto-me naquela sala de aula
Com as expectativas de novas lições e constantes testes
Simulados relâmpagos, conceitos, anotações,
E paredes rabiscadas de crayons
Ah, saudade que dá do tempo de escola...
Saudade dos passeios no barquinho de papel
Saudade dos crayons!

A Lenda

 Por Jefferson Acácio



Reza a lenda que o ser humano sabe viver
Silenciosamente a lenda é desmistificada
Nossa aldeia global está em extinção
As fronteiras da informação cada vez menores
As fronteiras entre as pessoas cada vez maiores
O homem tem dedicado mais tempo à ignorância.
Temos uma meta: Não pensar apenas no próprio nariz
Se soubéssemos diluidamente
Cada segundo do que é estar sozinho,
Saberíamos valorizar melhor a presença do outro.
Precisamos nos refazer e fazer valer a lenda

Coreografias e Melodias

 Por Jefferson Acácio



Eram melodias de maestro, sem ensaio, sem platéia.
Eram as linhas implícitas dos nossos olhares.
Tension-release, intensidade, carnudos lábios. Negrume.
`Contratempos`, cama, lençóis amarrotados de amor
Tombes, cabriolés, mise-en-scenes calorosos.
Bailamos suados em pas-de-deux.
Empinadas... Rebeldias... Simetria de pernas
Formas geométricas e partituras
Ela sem collant, colando-se mim
... Sapateado... Fox Trot... Duelos... Alma... Corpo...
Cansaço... O sono... Madrugada...

O despertar

Levantei-me com passos intrépidos até a cozinha.
Som BG da porta.
Ela partiu com um zoom-out seco e amargo!
Velas e terços... Lenço e patuá...
Incenso e chamas no meu travesseiro...
Taças quebradas próximo à cama...
Sangue no meu pé direito...
De volta às melodias envenenadas

Anônima, Café e Melodia

 Por Jefferson Acácio

                             

Quando parei na sinaleira
Ela atravessou a rua
Pude senti-la atravessando verticalmente minha garganta
Descendo com minha saliva.
Eu precisava salvá-la de um possível afogamento
“Estranho Esgotamento”.
Poesia, música e danças emolduram seu jeito de andar
Uma obra artística...
Eu estava esgotado de circular de rua em rua
Na esperança de encontrá-la novamente.
Enfim, encontrei-a no cartaz do teatro
“Estranha coincidência”.
Ela apareceu divina num vestido florido,
Deslumbrando os mercenários
Com pernas e braços nus, esmalte vermelho, batom...
Ela se enfeitava no espelho do cenário.
Minha atenção a ela se convergia
E somente aquela deusa era o meu foco ritualístico.
Corria o tempo em fast motion
Meu peito invadido de uma intenção de cortejá-la,
Mais tarde, fui tomar um licor caribenho no bar ao lado
Quando ela entrou e pediu café.
– “Dois dedos, por favor. Bem quentinho!”
– disse com um sorriso mágico.
Espantei-me, e me senti borbulhando
Dentro de sua xícara quentinha esfumaçando o desejo
“Mulata, cor de café, eu também quero dois dedos” – pensei
Fizemos um passeio que chegou até a porta do meu apartamento
A porta... O trinco... O arco... A flecha... Os olhos... Os braços... Mãos... Cintura... Um laço... Os lábios... O calor... É amor?... A cama... Estávamos zens em zoom - in e zoom - out.
Uma sinuosa trama de entregas... Suspiros! É festa!... O zíper... Encosta. O peito... Respeito?... Carinho... Os lençóis... Um nó... Pernas e braços nus... Pão-Francês... Garganta... Leite... Pescoço... Lingerie... Os beijos... Uma cena... Incenso... No quarto... Alfazema e também um perfume de rosas... Pecado nos quadris... Linda melodia!

Cédulas da Felicidade

 Por Jefferson Acácio



Encontrei ontem uma cédula de cinqüenta reais. Simbólica
E continha escrita: -“Qual o custo da sua felicidade?”
Pergunta simbólica que mexeu com meu imaginário
Cochilei com o nariz no farejo da nota de papel
No sonho eu via as “onças” se multiplicarem até formar um safári.
E um leopardo carnívoro me avistou de longe
Veio em minha direção com passos silenciosos e astutos
Em seu pelo havia o escrito “felicidade”
O leopardo saltou com dentes afiados
- Quimera eu ser a presa capturada pelas mandíbulas da felicidade, mas eu havia acordado do sonho.

A felicidade poderia ser como as garoupas,
Escondida em algum canto profundo de um oceano.
Ou quem sabe fosse baseada na materialidade.
As pessoas se transformariam em moréias venenosas
Defendendo seus royalties da felicidade.
Acho que a felicidade tem uma natureza mais fraternal,
Como os micos-leões dourado
A felicidade precisa nos fazer lúdicos como as araras.
Já pensou, se ela pousa nas mãos de um sortudo em forma de garça? A felicidade estaria então nas mãos de muitas pessoas

Muita gente devia ser feliz nesse planeta.
Mas encontrar a felicidade parece ser uma idiossincrasia.
As pessoas verdes temem serem "a presa" da felicidade.
O impacto de suas mandíbulas carnívoras assusta.
As pessoas maduras lamentam por não terem se permitido mais,
E vivem a triste culpa de confundirem amor com prisão e trocado a felicidade pela solidão.

Sorrisos simbólicos e prazeres imediatos.
Abismos, Ilusões, prisões pessoais, carências, insônias...
Quero tirar do meu corpo e alma estas tatuagens
Em troca da mordida da felicidade
Pois ser feliz não tem o custo de uma cédula
E se fosse, seria um beija-flor
É muito barato e pode até ser pago com um beijo!
Corra felicidade, venha feroz com sua mordida!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Poesias Bastardas


 Por Jefferson Acácio



Eu sou puta!

Tenho filhos bastardos
Sou puta por gerar poesias e entregá-las ao mundo
Ainda descalças e sem um registro de nascimento. Bastardas.
Mas prefiro a incerteza dos caminhos por onde elas andam
Certamente se oferecendo à leitura nos faróis, semáforos e esquinas das cidades virtuais
Elas nascem sem embriões já alfabetizadas no HTML e códigos binários
Não sei se encantam ou entortam o nariz de quem as lêem
Só sei que a poesia é bastarda e o poeta é uma puta
O poeta mistura os espermatozóides da criatividade com hormônios extraídos da vida social
São diversos parceiros anônimos vivendo e gozando e o poeta germinando poesias
É quase uma permuta sincera, o qual vocês me dão e eu dou-lhes em retorno às minhas filhas!
Sou quase um ninfomaníaco literário.
Diversas vezes deleito-me às leituras e escritas.
Suor, suspiros e excitação de espíritos.
Nessas horas penso em tanta gente e juro não é pro benefício da masturbação
Mas meu peito e mãos também pulsam como na hora do orgasmo
Pulsam forte sufocando a caneta no papel
Pulsam forte martelando as teclas com golpes ligeiros dos meus dedos
O poeta sente, finge, fareja, mata, ressuscita, geme, morde e ladra
O poeta é verdade e é mentira, tem medo, e tem coragem
Menstrua, ovula, e germina.
E é uma puta que entrega ao mundo suas crias!


Só sei que a poesia é bastarda que se ofere à leitura  e o poeta é uma puta que entrega suas crias ao mundo!

Vamos dar um tempo?

 Por Jefferson Acácio







- “Vamos dar um tempo?” - disse-me após uma discussão inútil e saiu.

Não deu tempo para cuspir de volta o resto do seu beijo. Nem tempo de retocar a maquiagem borrada. Sinto ter perdido o meu tempo com a farsa desse relacionamento com a qual ele levava como um endosso. Assim ele mastigava o malfeito debaixo dos meus olhos freados de estupidez. E agora ele mesmo fez o trabalho sujo de empurrar a bagunça pra debaixo do tapete.

- “Quero você o tempo todo!” – dizia-me com intensidade.

Nem parecia que tivesse ouvido essas palavras há pouco tempo tamanha contradição. Acho que me teve tão freneticamente que o tempo expirou.

- “E o tempo nunca chegava” – Eu reclamava.

As semanas passaram fluidamente despercebidas e as madrugadas incompreendidas, e mais nada rendia senão a espera pelo tempo prometido. Pensei em subordinar o tempo, mas sua função é bem paga: atrasar, apressar e interromper.

- “Quero um tempo!” – Desejei.

 Sem pedir licença, vou aproveitar que não tenho mais o tempo para me impedir de sair atrasada, sem hora marcada, sem compromissos e tomar umas tequilas numa balada. Ah, quero blackouts na memória. Quero fazer um escarcéu e expulsar o infeliz de mim com um grito de liberdade. Estou cheia de vaidade!

- Pode chegar tempo com uma profunda ressaca que eu já apaguei.

siga por email