domingo, 24 de abril de 2011

UM TORNADO DE AMOR

 Por Jefferson Acácio


Ei
Não é esse tipo de amor que eu quero
Não adianta conceituá-lo como inexplicável
Não adianta defender-se com preceitos formidáveis
De que amor é isso aí, é o que você tem a oferecer
E que já está em suas mãos, também não discordo
Amor é isso aí mesmo, do jeito que você vê, é o que você sente
Não lhe cabem regras que não comprove que você ama
Você ama, eu sei, eu vejo e ponto.
Mas não é esse tipo de amor que eu quero
Via cruzes! Entenda!
Quero um amor do tipo katrina!
Devastador, demolindo ruínas e muralhas do sem fim
Quero um amor do tipo mar vermelho
Para eu fazer um mergulho relativamente inofensivo
Que  pode ser fatal, mas só o mergulho por si basta
Quero um amor do tipo Arco-íris de fogo
Com inteira participação do sol em vários espectros de luz
Quero um amor nobre, real, vulcânico e vitalício
Com freqüência diária de explosões
Quero um amor que me corte como a linha do equador corta o planeta
Sou metade teu pelo dia, outra metade sou teu pela noite
Quero um amor que de olhos fechados...
Eu veria eclipse, auroras polares e estrelas cadentes!
Quero um amor ardente, 100° na escala Celsius e Fahrenheit
E se eu chorasse devido à intensidade dessa força
Minhas lágrimas seriam ágata, quartzo e safiras
E quando eu sorrisse notariam facilmente meus olhos
Como brilhante de zircão, cristal de citrino e esmeraldas
Quero amor jóia, que brota precioso da natureza
Quero um amor do tipo diamante, nada o corta senão ele mesmo
Não é esse tipo de amor o qual você me oferece como carta comercial
Com divisão de bens, compartilhando benefícios...
Repartindo os resquícios da fonte 
    maior e magnífica que há dentro de ti
Quero um amor que entale minha saliva na garganta
E meus olhos se enchem como uma represa de tanta alegria
E jorre como maré alta do tipo tsunami
Um tipo de amor que aqueça as águas superficiais do meu oceano
Que seja pacífico, tropical, anormal, transgressor...
Hei, eu evolui tanto pra chegar até você
E o que tem a oferecer é esse amor do tipo água de torneira?
Perdão, não é desse tipo de amor que falo de dentro do peito
É o amor de fenômenos que me refiro, porque sou um tornado!






segunda-feira, 11 de abril de 2011

Crayons (Primeiras Poesias)

 Por Jefferson Acácio


Ah, saudade que dá do tempo de escola...
Eu cá da janela imaginando com meu caderno e lápis
Lembrando dos primeiros poemas escritos no quadro-negro
Os primeiros passos da alfabetização das poesias
Os primeiros ensaios de declamação para a sala de aula vazia
Os crayons coloridos destacando a poesia
Entre hieróglifos marcados nas paredes e carteiras
Passava horas lendo cada rabisco dos colegas
Os primeiros indícios da minha curiosidade social
As paredes eram o espelho confessionário de cada um
A necessidade vital de expressar e relatar
Ainda sinto-me naquela sala de aula
Com as expectativas de novas lições e constantes testes
Simulados relâmpagos, conceitos, anotações,
E paredes rabiscadas de crayons
Ah, saudade que dá do tempo de escola...
Saudade dos passeios no barquinho de papel
Saudade dos crayons!

A Lenda

 Por Jefferson Acácio



Reza a lenda que o ser humano sabe viver
Silenciosamente a lenda é desmistificada
Nossa aldeia global está em extinção
As fronteiras da informação cada vez menores
As fronteiras entre as pessoas cada vez maiores
O homem tem dedicado mais tempo à ignorância.
Temos uma meta: Não pensar apenas no próprio nariz
Se soubéssemos diluidamente
Cada segundo do que é estar sozinho,
Saberíamos valorizar melhor a presença do outro.
Precisamos nos refazer e fazer valer a lenda

Coreografias e Melodias

 Por Jefferson Acácio



Eram melodias de maestro, sem ensaio, sem platéia.
Eram as linhas implícitas dos nossos olhares.
Tension-release, intensidade, carnudos lábios. Negrume.
`Contratempos`, cama, lençóis amarrotados de amor
Tombes, cabriolés, mise-en-scenes calorosos.
Bailamos suados em pas-de-deux.
Empinadas... Rebeldias... Simetria de pernas
Formas geométricas e partituras
Ela sem collant, colando-se mim
... Sapateado... Fox Trot... Duelos... Alma... Corpo...
Cansaço... O sono... Madrugada...

O despertar

Levantei-me com passos intrépidos até a cozinha.
Som BG da porta.
Ela partiu com um zoom-out seco e amargo!
Velas e terços... Lenço e patuá...
Incenso e chamas no meu travesseiro...
Taças quebradas próximo à cama...
Sangue no meu pé direito...
De volta às melodias envenenadas

Anônima, Café e Melodia

 Por Jefferson Acácio

                             

Quando parei na sinaleira
Ela atravessou a rua
Pude senti-la atravessando verticalmente minha garganta
Descendo com minha saliva.
Eu precisava salvá-la de um possível afogamento
“Estranho Esgotamento”.
Poesia, música e danças emolduram seu jeito de andar
Uma obra artística...
Eu estava esgotado de circular de rua em rua
Na esperança de encontrá-la novamente.
Enfim, encontrei-a no cartaz do teatro
“Estranha coincidência”.
Ela apareceu divina num vestido florido,
Deslumbrando os mercenários
Com pernas e braços nus, esmalte vermelho, batom...
Ela se enfeitava no espelho do cenário.
Minha atenção a ela se convergia
E somente aquela deusa era o meu foco ritualístico.
Corria o tempo em fast motion
Meu peito invadido de uma intenção de cortejá-la,
Mais tarde, fui tomar um licor caribenho no bar ao lado
Quando ela entrou e pediu café.
– “Dois dedos, por favor. Bem quentinho!”
– disse com um sorriso mágico.
Espantei-me, e me senti borbulhando
Dentro de sua xícara quentinha esfumaçando o desejo
“Mulata, cor de café, eu também quero dois dedos” – pensei
Fizemos um passeio que chegou até a porta do meu apartamento
A porta... O trinco... O arco... A flecha... Os olhos... Os braços... Mãos... Cintura... Um laço... Os lábios... O calor... É amor?... A cama... Estávamos zens em zoom - in e zoom - out.
Uma sinuosa trama de entregas... Suspiros! É festa!... O zíper... Encosta. O peito... Respeito?... Carinho... Os lençóis... Um nó... Pernas e braços nus... Pão-Francês... Garganta... Leite... Pescoço... Lingerie... Os beijos... Uma cena... Incenso... No quarto... Alfazema e também um perfume de rosas... Pecado nos quadris... Linda melodia!

Cédulas da Felicidade

 Por Jefferson Acácio



Encontrei ontem uma cédula de cinqüenta reais. Simbólica
E continha escrita: -“Qual o custo da sua felicidade?”
Pergunta simbólica que mexeu com meu imaginário
Cochilei com o nariz no farejo da nota de papel
No sonho eu via as “onças” se multiplicarem até formar um safári.
E um leopardo carnívoro me avistou de longe
Veio em minha direção com passos silenciosos e astutos
Em seu pelo havia o escrito “felicidade”
O leopardo saltou com dentes afiados
- Quimera eu ser a presa capturada pelas mandíbulas da felicidade, mas eu havia acordado do sonho.

A felicidade poderia ser como as garoupas,
Escondida em algum canto profundo de um oceano.
Ou quem sabe fosse baseada na materialidade.
As pessoas se transformariam em moréias venenosas
Defendendo seus royalties da felicidade.
Acho que a felicidade tem uma natureza mais fraternal,
Como os micos-leões dourado
A felicidade precisa nos fazer lúdicos como as araras.
Já pensou, se ela pousa nas mãos de um sortudo em forma de garça? A felicidade estaria então nas mãos de muitas pessoas

Muita gente devia ser feliz nesse planeta.
Mas encontrar a felicidade parece ser uma idiossincrasia.
As pessoas verdes temem serem "a presa" da felicidade.
O impacto de suas mandíbulas carnívoras assusta.
As pessoas maduras lamentam por não terem se permitido mais,
E vivem a triste culpa de confundirem amor com prisão e trocado a felicidade pela solidão.

Sorrisos simbólicos e prazeres imediatos.
Abismos, Ilusões, prisões pessoais, carências, insônias...
Quero tirar do meu corpo e alma estas tatuagens
Em troca da mordida da felicidade
Pois ser feliz não tem o custo de uma cédula
E se fosse, seria um beija-flor
É muito barato e pode até ser pago com um beijo!
Corra felicidade, venha feroz com sua mordida!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Poesias Bastardas


 Por Jefferson Acácio



Eu sou puta!

Tenho filhos bastardos
Sou puta por gerar poesias e entregá-las ao mundo
Ainda descalças e sem um registro de nascimento. Bastardas.
Mas prefiro a incerteza dos caminhos por onde elas andam
Certamente se oferecendo à leitura nos faróis, semáforos e esquinas das cidades virtuais
Elas nascem sem embriões já alfabetizadas no HTML e códigos binários
Não sei se encantam ou entortam o nariz de quem as lêem
Só sei que a poesia é bastarda e o poeta é uma puta
O poeta mistura os espermatozóides da criatividade com hormônios extraídos da vida social
São diversos parceiros anônimos vivendo e gozando e o poeta germinando poesias
É quase uma permuta sincera, o qual vocês me dão e eu dou-lhes em retorno às minhas filhas!
Sou quase um ninfomaníaco literário.
Diversas vezes deleito-me às leituras e escritas.
Suor, suspiros e excitação de espíritos.
Nessas horas penso em tanta gente e juro não é pro benefício da masturbação
Mas meu peito e mãos também pulsam como na hora do orgasmo
Pulsam forte sufocando a caneta no papel
Pulsam forte martelando as teclas com golpes ligeiros dos meus dedos
O poeta sente, finge, fareja, mata, ressuscita, geme, morde e ladra
O poeta é verdade e é mentira, tem medo, e tem coragem
Menstrua, ovula, e germina.
E é uma puta que entrega ao mundo suas crias!


Só sei que a poesia é bastarda que se ofere à leitura  e o poeta é uma puta que entrega suas crias ao mundo!

Vamos dar um tempo?

 Por Jefferson Acácio







- “Vamos dar um tempo?” - disse-me após uma discussão inútil e saiu.

Não deu tempo para cuspir de volta o resto do seu beijo. Nem tempo de retocar a maquiagem borrada. Sinto ter perdido o meu tempo com a farsa desse relacionamento com a qual ele levava como um endosso. Assim ele mastigava o malfeito debaixo dos meus olhos freados de estupidez. E agora ele mesmo fez o trabalho sujo de empurrar a bagunça pra debaixo do tapete.

- “Quero você o tempo todo!” – dizia-me com intensidade.

Nem parecia que tivesse ouvido essas palavras há pouco tempo tamanha contradição. Acho que me teve tão freneticamente que o tempo expirou.

- “E o tempo nunca chegava” – Eu reclamava.

As semanas passaram fluidamente despercebidas e as madrugadas incompreendidas, e mais nada rendia senão a espera pelo tempo prometido. Pensei em subordinar o tempo, mas sua função é bem paga: atrasar, apressar e interromper.

- “Quero um tempo!” – Desejei.

 Sem pedir licença, vou aproveitar que não tenho mais o tempo para me impedir de sair atrasada, sem hora marcada, sem compromissos e tomar umas tequilas numa balada. Ah, quero blackouts na memória. Quero fazer um escarcéu e expulsar o infeliz de mim com um grito de liberdade. Estou cheia de vaidade!

- Pode chegar tempo com uma profunda ressaca que eu já apaguei.

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