CRÔNICAS

* Cédulas, Amores e Abismos                                         

Por Jefferson Cruz


Atenção: Antes ou depois desse texto leia Anônima, Café e Melodia (é uma continuação)



“Custa caro senhor! Senhor, Senhor... Senhor!” repetia o garçom ao pé do meu ouvido e, ao mesmo tempo, todos os ruídos de vozes das mesas sumiam, as luzes desciam lentamente e o grupo de músicos daquela noite também desaparecia com o “chorinho. A penumbra envolveu tudo numa cortina de fumaça. Ficou apenas eu, o balcão, meu chope e o belo par de pernas da moça que acabara de entrar no bar e restaurante Tartarugas.

Levantei o chope apontando em direção à jovem que acabara de entrar no bar. Inclinei a cabeça em forma de admiração e bebi uma cascata do chope – sem tirar o olho de suas pernas. Minha garganta estava regada do líquido gelado diluindo o álcool na minha corrente sanguínea. Silêncio total, até mesmo a própria respiração.

Foram longos dias prezo no apartamento. Eu estava totalmente decadente após uma surpresa desagradável: Uma garota bailarina havia destruído em mim o que restava de credulidade nisso que chamam de paixão. E mais uma vez estou aqui a remoer o ódio e a culpa por colocar o próprio coração nesse cárcere privado. Essa garota surgiu quando eu me sentia um velho fracassado que entrou numa jornada ao grosso estilo Indiana Jones, porém mais para um alpinista desconhecido do que um herói. Um aventureiro aparentemente destemido portando um coração arqueológico escalando o monte mana no Himalaia. fantasioso, não é? Era assim que eu levava a vida esperando no tempo para entrar numa história fantástica digna de roteiros cinematográficos de amor ou inspiração para alguem que traduzisse em arte.

Nem acredito nas minhas próprias atitudes, me sinto um patético solitário avassalando corpinhos esguios de moças recém chegadas na fase adulta e carregando o espírito desbravador, sonhador e irreverente da juventude. Sentia-me um herói protetor, sempre de peito e braços abertos, imensos olhos, muita luxúria nos lábios, mãos paternais e feudais. Quem sabe até em vidas passadas eu debulhava as cavidades de “escravinhas”, com todo dengo, claro.

"Sentir" é muito perigoso quando se tem carência exacerbada. Tenho carência do calor humano, especificamente das humanas. A música sempre esteve muito presente sombreando meus passos. Como pianista, eu busco nas pessoas as melodias que elas precisam ouvir para sentirem-se seguras de que tudo está bem. Provo para as pessoas que o coração bate forte só pra anunciar que ainda funciona e não por exprimir dor e felicidade, pois estas são engendradas no próprio sistema nervoso.

Foi numa noite metropolitana de sexta-feira como hoje,um inverno estranho, com chuvas e uma brisa quente angustiante que conheci Ligia Matarazzo, a tal, ela mesma, avassaladora. Exatamente essa mesma angustia que contamina meu corpo ao pronunciar seu nome. Sinto calafrios. Meus impulsos me levaram à sombria caça por uma noite de prazeres imediatos, prática comum entre tantos  outros solitários. São meus refúgios das dores acumulativas de cada paixão, uma morte lenta e letal! Uma vez morto, nunca mais me permitimos amar e ser amados, só aos nobres corajosos ficam essas façanhas. Mas ainda estou vivo para tentar.

Expressivo nome para uma garota de vinte e dois anos, brasileira de descendência italiana e uma estonteante miscigenação com a matriz africana, bailarina, cândida e convidativa. Eu precisava senti-la e não sei ao certo se a senti, mas é possível que ela tenha sentido o meu “eu” muito mais, sem maliciosas entrelinhas. De fato, eu a toquei com todo o meu corpo, cheguei a acreditar que fossemos uma mistura homogênea não destilável!

Ela castigou-me de todas as formas, me deixou construir sonhos ao seu lado e no dia seguinte simplesmente partiu. Eu ainda a chamava de minha “bela adormecida de Tchaikovsky”. No dia seguinte eu fui cruelmente desperdiçado como a sobra de uma comida estragada. Quem já provou desses dissabores da vida sabe bem do que estou falando. Esse incômodo, é de uma dor tamanha que poderia comparar ao coração retalhado num açougue de quinta categoria. Há quem diz que essa minha franqueza límpida, doentio, e sensível não é própria para os homens do diminutivo aglutinador "macho". da espécie dos meros reprodutores. Mas esse forte aperto no peito não passa de uma farsa engendrada no meu cérebro. Queria acreditar no que falo. 

Ela havia recuperado minhas esperanças. A esperança? É como ver uma rara borboleta azul no meio de uma metropole caótica, sombria e poluída. Naturalmente deveria ser encontrada em lugares quase inacessíveis ao homem, em pequenas e camufladas áreas tropicais, mas é vista sobrevoando a cidade arrebatando nosso conceito sobre o "impossível".

Hoje quem sabe outra esperança incide novamente no meu peito hibernado e afagado nos vícios alcoólicos. Eu sempre fui um bom freqüentador do Bar Tartarugas, até me apresentei algumas vezes. É uma atmosfera de boemia, distração, um clima intimista, com focos de luzes vermelhas nos cantos induzindo as pessoas a deixarem os estímulos sexuais aguçados com as bebidas e o belíssimo repertório dos músicos. É um local indispensável para saciar ao menos o desejo de um delicioso drink e quem sabe levar uma companheira de brinde para casa.

Como de costume, eu troco conversas com os garçons, revejo amigos, confidenciamos nossos truques de raposas. Falamos de política, futebol, mulher e até mesmo de novelas. E quando não encontro os amigos, eu fico sozinho no balcão, onde aprecio as atrações musicais que enfeitam o palco. Faço bom proveito do momento para assistir a linda vida alheia. Já que a minha não está muito interessante para a telinha.

Recordo-me de como conheci Ligia. Eu aguardava o sinal, quando ela atravessou a faixa de pedestre em frente ao meu carro, e pude senti-la atravessando verticalmente pela minha garganta ressecada. Como havia dito, sentir é algo muito perigoso, altamente tóxico, e pode trazer esperanças cegas. Eu via até raras borboletas azuís como o colorido da sua roupa de ballet e a pintura facial. Aquela mariposa mulata, aquela linda borboleta que eu desejei colecionar, capturar, presentear com flores, ela havia fugido para seu ciclo natural: A liberdade imaginada. Ainda me questiono quem fora o predador.

Desde então não bebo mais café, pois me lembra também a sua estratégia de escape, o tom madeira sucupira da pele da minha mulatinha, do nosso encontro no barzinho decadente “Carpas”, da nossa conversa prolongada e da aventura no apartamento. Desde aquele dia, continuo na mesma frenética nota afirmativa de que não foi apenas sexo. Juro que da minha parte não. Ao menos eu queria que fosse mais do que sede, fome, fogo e miséria... Bebidas, culinária, sexo e rompimento... Gole, mordidas, gozo e castigo. Após o climax do gozo, eu também desejei abrir vôo para a liberdade. Liberdade de amar. Liberdade talvez inventada ou surreal. Liberdade que é confundida com prisão.

Três dias com as portas de casa trancadas, um mês de seguidas trepadas insignificantes com outras desconhecidas bonequinhas carregadas de maquiagem. Desculpe a minha porosidade, a falta de sutileza e polidez.Perdi a compostura! Envelheci mais um ano e estou com 43. Envergonhado com o meu reflexo. Pensei em abandonar meu piano envenenado e dedicar mais tempo na minha loja de instrumentos. Um desperdício.

A carência é o meu instrumento de sopro, age na minha mente e atinge o pulmão do qual eu castigo com cigarro, como se não bastasse o próprio ar poluído dessa cidade. Um ano passou e eu me sinto ainda estacionado naquela sinaleira onde avistei Lígia pela primeira vez. Desde então tudo ficou pela metade, café, trabalhos, sorrisos, inspiração, repertório, aplausos exceto os murros no próprio peito! Então dois dias antes de voltar ao Tartarugas, eu recebi uma carta da minha querida mãe Rosalinda. A carta estava suja de teias de aranha da caixa de correio que há tempos o zelador do prédio não zelava. Na verdade, não passava de um relato sobre as pessoas da vizinhança com o objetivo de me incentivar moralmente a encontrar uma parceira para mim.

Ao terminar de ler a carta, senti uma enorme sensação de pecado por estar sozinho. Meus irmãos, tanto que temiam se apegarem a alguém, que constituíram famílias, apesar das crises típicas. Ninguém quer ficar só. Muitos topam qualquer coisa pra não ficarem sós. A carência é um sentimento perigoso, o abismo da vontade, o lugar comum dos abandonados, desprezados e esquecidos. Esta carta não veio numa hora bem-vinda, quando ainda tenho medo de borboletas.

Revirei cartas antigas das minhas paixões traiçoeiras, entre elas, Mariana... (suspiro). Estudamos juntos no Colégio Suzano Alvorada. Enamorávamos na praça da cidade com beijinhos “estudantis” e sinceros... Era carnaval quando firmamos nosso namoro estreado com o nosso primeiro beijo seguido de abraços pueris. Dividíamos os mesmos sabores da vida. O que nos importava era experimentar.

Seu pedido de casamento surtiu após cinco anos de namoro e eu estava prestes a ingressar na faculdade. Era uma fase de idealizações, inquietações e principalmente de escolha. Meu desejo era conhecer outras civilizações, eu idealizava uma carreira exemplar em Medicina ou qualquer outra de status, e me tornei pianista. Mariana riria das minhas convicções. Pena não ter escolhido ela para continuar experimentando a vida. Essa sim é traiçoeira. A vida. Suas surpresas são reveladas depois que tudo passou. Queria viver no passado ou que o tempo fosse sempre o presente de finitas edições. 

Cá estou eu e o garçom, divididos pelo balcão, momentos antes da triunfante chegada de uma mulher. Já tomei três caipirinhas, no preço promocional de dois reais, um inteligente chamariz para os habitues da casa. As prostitutas disfarçadas de boas moças estão sentadas às mesas, lógico, convidadas pelos melindrosos senhores de carros importados e cartões de créditos sem limites. Daqui vê-se uma competição entre recordistas: quem mais bebe e quem mais paga.

Olha só o que encontro! Uma nota de cinqüenta reais. Simbólica. Foi propositalmente esquecida no balcão por algum “palhaço” a fim de pregar uma peça em algum “bobo”.  Mas há algo escrito aqui que diz: “Qual o custo da sua felicidade?”. Boa pergunta para um bobo como eu responder. Enquanto eu acendo o cigarro vou pensar numa boa resposta. - Garçom, o isqueiro por favor - As chamas acendem a imagem de uma onça pintada. As “onças” se multiplicam até formar um safári. Então um leopardo carnívoro me avista de longe, e chego até a travar o cigarro entre os lábios. Então ele vem na minha direção com passos silenciosos e astutos, com uma marca no pêlo escrito “felicidade”, e de repente o salto! Quimera eu ser a presa capturada pelas mandíbulas da felicidade! Vou guardar essa nota no bolso.

E continuando no delírio do álcool...Por outro lado a felicidade poderia ser demersal como as garoupas, escondida em algum canto profundo de um oceano. Ou quem sabe fosse baseada na materialidade. Creio que não. Caso fosse, as pessoas se transformariam em moréias venenosas defendendo seus royalties da felicidade. Acho que a felicidade tem uma natureza mais fraternal, mais fundamentada na árvore da família como os micos-leões dourado - os sujeitinhos pequenos de vida social defendem seus territórios apenas com o grito. A felicidade precisa ter graça, precisa voar, e não apenas saltar. A felicidade precisa de asas coloridas e precisa nos fazer serem pessoas lúdicas como as araras. Ou quem sabe como uma garça. Já pensou, se ela pousa nas mãos de um sortudo. Como posso ver, a felicidade estaria então nas mãos de muitas pessoas ou escondida nos oceanos profundos de cada uma delas.

Muita gente devia ser feliz nesse país, nesse continente, nesse planeta. Mas encontrar a felicidade parece ser incoerente ou uma idiossincrasia. As propagandas, novelas e filmes vendem uma imagem de vida social feliz. Há outros felizes que investem na matéria, na carne... Cuidam da estética, do superego, da forma física e dos prazeres imediatos, da vaidade e da luxúria. É um investimento caro que, em suas particularidades, importantes, principalmente quando relacionado à saúde. E em centenas de casos, nos preparamos com a melhor roupa, acessórios e perfumes caríssimos apostando num ritual de atração dos relacionamentos. 

Mas ao olhar profundamente cada um, vemos que a maioria não se sente feliz, completos e donos de si. Eu mesmo adoraria ser meu próprio leviatã e não sofrer mais com os sinônimos da depressão: solidão, carência e vazio. Tantos investimentos para no fim da noite ficar sozinho – quantos já não passaram por isso, não é? O quanto você gastou de tempo em frente ao espelho, em salões, lojas, SPA, centros estéticos, cirurgias, academias, regimes, e tal e tal, para merecer alguém, que em alguns casos chega até a dedicar-se a você, mas depois descobrem superficialmente que não era isso que queriam.
Então você se abandona? Então você cria fugas aparentemente positivas? As pessoas verdes temem serem "a presa" da felicidade. O impacto de suas mandíbulas carnívoras realmente assusta. Mas é preciso ter coragem de se permitir diante do próprio medo. As pessoas maduras lamentam por não terem se permitido mais, e vivem a triste culpa de confundirem amor com prisão e trocado a felicidade pela solidão. E quem sou eu para falar dessas coisas. Um solitário cheio de máscaras enrugadas, em delírios, contradições e decadências do espírito.

Resta-me o meu velho escape no Tartarugas em busca de sorrisos fracionados por unidades indivisíveis do tempo. Sorrisos simbólicos e prazeres imediatos. Abismos, Ilusões, prisões pessoais, carências, insônias... Quero tirar do meu corpo e alma estas tatuagens em troca pela mordida da felicidade, mergulhar no oceano perdido dentro de mim, em algum oásis escondido nos olhos de alguém.

Enquanto isso, aqui vai mais gole de inveja, de nostalgias e outro gole é meu remédio. O burburinho de risadas, conversa na ponta da orelha, taças e colarinhos marcados de batom vermelho, perfumes de homens e mulheres, cruzadas de pernas, lambidas no pescoço, piscadas de olhos, um rodopio, dor de cabeça e peço um chope para fechar a conta.

Neste  exato momento, à meia noite, a tal desconhecida entra.Sua beleza parece silenciar tudo para ouvir o som do seu salto no piso de madeira. Eu digo comigo mesmo -"É castigo!". Não era Lígia, era uma nova borboleta! Na minha admiração, o garçom diz “Custa caro senhor!”, mas como não dei atenção, ele insiste “Senhor, eu disse custa caro”, o malandro está debochando de mim.

Um passo dessa nova anônima e uma dor é cravada no meu peito, outro passo e vejo a ponta do vestido longo furtando do lugar toda cor, outro passo e seu par de pernas me causam uma febre interna. Ela chega até o palco, cumprimenta os músicos do chorinho, pega o microfone... Sua boca umedece e deixa escapar a ponta da língua. Seu pulmão se enche de ar para nos deliciar ao som da sua voz e seus olhinhos de gude remetem-me à juventude pueril e sincera. Quando ainda não aprendemos a mentir com alto grau de cumplicidade.

Então respondo ao garçom com vibração e esperança nos olhos – “Não custa caro não rapaz. É um beija-flor!”. E neste instante, imagino o meu beija-flor num lindo coreto, e o tecido do seu lindo vestido soprado pela brisa de primavera, seu corpo nu, seu pulmão elastecendo-se, seu salto alto, e os olhinhos de gude brilhantes. A minha anônima é um beija-flor que veio para transmutar e pairar na janela da minha mente! Cédulas, amores e novos abismos!


* Anônima, Café e Melodia                                             

Por Jefferson Cruz


“Quero café!” – Foi seu penúltimo pedido assim que acordara. Meus olhos já espojavam sob o corpo dela. O cetim rasgado do lençol, as peças de roupas ainda espalhadas pelo chão do meu quarto e minha admiração por ela confirmavam que “gozei!” – repetia meu subconsciente provocando um sentimento de penetração.

A conheci nas minhas caçadas noturnas por uma graça que geralmente tem um preço que costumo pechinchar. Algumas madrugadas me renderam promoções do tipo ‘Pague menos por mais’, ‘cliente satisfeito come outra vez’ ou ‘se indicar mais freguesia ganha cortesia’. Mas essa noite me ocorreu o inusitado, pois não tratava-se de uma prostituta. Era uma bailarina, combinação perfeita comigo, pois sou um pianista. Música e dança se encaixando através das suas linguagens. As mãos e a voz manipulando o som, e temperando os sabores de cada emoção produzida pela música, simultaneamente traduzida pelo corpo a cada milésimo de segundo através da dança.

Fazia um absurdo calor aquela noite, eu dirigia de janelas abertas quando parei na sinaleira. Enquanto eu aguardava pelo sinal, ela atravessou a rua e pude senti-la atravessando verticalmente pela minha garganta e descendo com minha saliva. Eu precisava salvá-la de um possível afogamento no percurso que fazia até meu peito, correndo o risco de impedir meu fôlego. Ela não me viu, e sem saber estava na minha câmera subjetiva, registrada e mantida como cárcere na minha mente.

O Teatro XXII, Avenida dos Amores, Bloco A, travessa dos Acostumados, às 21h apresentava o espetáculo de ballet clássico e contemporâneo “Estranho Esgotamento”. Poesia, música e dança emolduravam a obra artística que abordava a relatividade do tempo, a espera, e a frustração pelos desejos. Eu estava esgotado de circular de rua em rua na esperança de encontrá-la novamente. De repente esse cartaz do teatro tornou-se uma pista que me levaria até a minha Anônima.

Afinal, ela estava apressada, com a polpa do cabelo arrumada, previamente pronta para vestir o figurino, e agora confirmo que havia um entusiasmo e talvez uma ansiosidade nos seus passinhos de garça. Ela ia se apresentar para toda aquela plateia, cerca de 700 pessoas, e ainda não fomos apresentados.

Primeiro toque, eu sentado na primeira fileira, como se ela fosse me reconhecer. Por outro lado, eu poderia contemplá-la mais de perto. As Cortinas estavam ainda fechadas, assim como meus olhos na tentativa de lembrar-se do seu rosto para que eu pudesse identificá-la entre as outras bailarinas. Tarefa difícil, pois são todas padronizadas com chitas, filós, saias, anáguas, sapatilhas, a base excessiva nas madeixas, e o mesmo sorriso ensaiado.

Segundo toque, ouvia-se ainda o burburinho do publico, todos ansiosos pelo espetáculo. Certamente haviam ali seus familiares, os amigos da escola, pois não escondia ter uns 22 anos. Possivelmente devia ter um namorado da mesma faixa etária, embora meus 43 não me desconcertavam da chance de conquistar sua atenção. Na verdade, eu estava mesmo preocupado.

Terceiro toque. “Silêncio, Silêncio. Já vai começar” – alguém da plateia, por coincidência tirara essas palavras da minha cabeça. Aos poucos, todos diminuíam o volume sonoro de suas vozes, agora sussurradas. Quando, de repente: Cortinas abertas, iluminação, pulsação vital, trilha sobe lentamente com entrada e saídas do corpo de ballet, iniciando uma cena.

Ela apareceu divina num vestido florido, deslumbrando os mercenários com pernas e braços nus, esmalte vermelho, batom... Ela se enfeitava no espelho do cenário. Na ponta dos pés, e braços erguidos, ela desenhava uma fada com o corpo refletido das luzes cenográficas, e fazia um movimento de rotação, assim como a lua. Eu desejava movimentos de translação e revolução, beijos e talvez tocar para ela, e desposá-la ali mesmo naquele palco. Minha atenção a ela se convergia e somente aquela deusa era o meu foco ritualístico.

Corria o tempo em fast motion e o relógio apontava meia noite, a lua minguante estava cheia de beleza, e meu peito invadido de uma intenção de cortejá-la, mas também invadido de uma tensão. “Ela não é uma prospituta, mas eu sou um cachorro no cio”, eu dizia para mim mesmo, interpretando um equilibrista, contendo meus impulsos e temendo não se precipitar. “Por que a deixei partir? Por que não fui elogiá-la no palco? Que espécie de homem sou, em deixar uma mulher daquela escapar de mim?” – eu agonizava pela minha falta de atitude.

Terceiro gole de um licor caribenho, num barzinho decadente, quando ela entrou e pediu café. – “Dois dedos, por favor. Bem quentinho!” – disse com um sorriso mágico. Me espantei, e por pouco sentia-me borbulhando dentro de sua chicara quentinha esfumaçando o desejo pelos dois dedos de café. Pensei comigo mesmo “Mulata, cor de café, também quero dois dedos”. Graças ao licor, levantei e me aproximei elogiando a bela apresentação.

Conversamos despercebidamente, como se as horas se escondessem no preparo do vinho que degustamos discutindo sua tese de monografia sobre a crise da masculinidade. Reconfigurações das identidades e as mudanças do comportamento do homem na sociedade pós-moderna... O discentramento dos sujeitos, homem submisso e mulher ocupando o topo das decisões. Finalmente, chegamos ao sexo, na discussão... Eu, objeto de análise, e ela, a minha bailarina de contemplação. “Qual o estado dessa arte? Qual o universo epistemológico nesse corpo nu?”, eu a imaginava sem anáguas.

Começamos esses estudos teóricos no barzinho decadente, passando por um restaurante requintado de culinária francesa, para afinar melhor nossa conversa, ao som de Villa Lobos. O pianista da noite, conhecido meu, ofereceu-me a honra de mostrar meus dotes à bailarina, que mostrou tambem seu número. Terminamos o passeio com um beijo ao deixá-la em frente ao seu apartamento. Foi inevitável, pois meu encantamento me polia de cometer um erro de tomar qualquer atitude, que podia ser julgada “indecente”. Mas, o beijo não partiu de mim. “Suba comigo!”. Este foi seu primeiro pedido, logo concebido e confesso ‘ela dirigiu a mim e o meu carro’.

No elevador, seus lábios visitavam os meus, minhas mãos visitavam a curvatura da cintura às coxas marcadas pela meia do ballet. Perdi o controle de mim entoando a melodia do apartamento, prova do meu delírio: A porta... O trinco... O arco... A flecha... A bailarina... Os olhos... O pianista... Os braços... Mãos... Cintura... Um laço... Os lábios... O calor... É amor?... A cama... Nós na interação em castidade e o tempo na cidade congelado ao nosso redor.

Estávamos zen e num zoom-in fazíamos um closer do beijo que decodificava o choque de prazer que sentíamos. Parecia uma incorporação de sentidos mágicos. Dois corpos celestes desabrigando-se do espaço e tempo zerados. Uma sinuosa trama de entregas... Suspiros! É festa!... O zíper... Encosta. O peito... Respeito?... Carinho... Os lençóis... Um nó... Pernas e braços nus... Pão-Francês... Garganta... Leite... Pescoço... Lingerie... Os beijos... Uma cena... Incenso... No quarto... Alfazema e também um perfume de rosas... Pecado nos quadris...

Eram melodias de maestro, sem ensaio, sem plateia. Eram as linhas implicitas dos nossos olhares. Os acordes eruditos do piano insistindo em tocar uma melodia fértil e dionística. As partituras do corpo dela faziam-se de melodia. Como bailarina, ela interpretava um perfeita pianista, agarrou-me por trás como se abraça uma harpa, e servi de instrumento. Ela me guiava num tension-release como ao ballet moderno de Martha Graham. Pensei que estivesse flutuando tamanha intensidade... Carnudos lábios... Negrume.

Numa ‘volta’ segurei seu corpo e girei-a sobre mim. `Contratempos`. Voltamos para os tombes e cabriolés, entrelaçamo-nos seguindo mise-en-scenes calorosos. Bailamos suados em pas-de-deux. Empinadas... Rebeldias... Que figura bela, quase simétrica de formas geométricas desenhava com ela em meu colo. Ela sem collant, eu colando-se... Sapateado... Fox Trot... Duelavamos compenetradamente irracionais... Alma... Corpo... Num ritual sagrado-profano dualístico... Um espetáculo de energias multidimensionais... Aplausos! Assovios! Chegamos ao apogeu ufânico do prazer.

Enfim o cansaço... O sono... A madrugada... Embrulhado nos abraços e entrelaçado... No relance dessa seqüência me apaixonei. O despertar... "Minha bela adormecida de Tchaikovsky", dizia eu em voz baixa enchendo-a de beijos minuciosos desde as mãos suaves, até os seios medrosos que se escondiam no sutiã, naquele vestido florido que estava jogado no chão. Arranquei-lhe tudo. "Perfeita", eu balbuciava.

Nos meus cálculos, minha puberdade começou aos oito anos se eu contasse a primeira vez que debrulhei um brotinho avermelhado, mas, de fato, foi aos dezesseis anos que eu projetava a barba, a voz... Aos dezoito, eu era um homem feito, e meu coração já começara a descontrolar-se com batidas apaixonadas. Desde então, vinte e cinco anos se passaram, namoros, noivados e casamentos falidos, e ali estava eu novamente, numa nova composição e cheio de esperança. Não era uma prostituta, era uma bailarina adormecida.

Ela despertou e pediu café, então levantei-me com passos imprecisos ainda numa espécie de transe até a cozinha. Som BG da porta que me despertara da derrota. Na mesma velocidade em que despiu-se, na noite passada, eficientemente vestiu-se, e sem maquiagem, sem café, partiu deixando um bilhete que dizia "Uma noite... Um sonho... Mas peço que guarde esse sonho por mim, não posso seguí-lo. Meu único sonho é o palco". Ao terminar de ler, sua presença foi se reduzindo a uma mancha desbotada, e sua imagem distorcia meus sentidos, que desapareceu como um vulto, como zoom-out seco e amargo.


Velas e terços... Lenço e patuá.... Incenso e chamas no meu travesseiro.... Taças quebradas próximo à cama... Sangue no meu pé direito... "Não era só sexo!", eu gritava em prantos, como um muleque indefeso magoado... "Não era só sexo!", essa foi a canção do dia inteiro... Rua fria, sob a lua morta... Nem lembro ao menos seu codenome... De volta ao clube decadente... De volta às caçadas noturnas sem sentido... Às canções líricas do piano envenenado e envelhecido... Anônima, café e melodia.






* Taurinos, Arenas e Touradas                                       

Por Jefferson Cruz


Quando terminamos um namoro, resolvemos ser donos da nossa própria vida, mesmo sem saber ao certo o que fazer, e ainda assim caímos nas armadilhas do entretenimento pra servir de comida, cobaia e mercadoria nos braços de monstros pitorescos. Eu ja cai em muitos desses abísmos. Com isso, já tive medo dos vampiros, sangue-sugas, feiticeiros, caçadores, e do lobo malvado das histórias infantis. Eu já havia superado a covardia por essas figuras masculinas sinistras, monstruosas, viris ou encantadoras, entretanto me deparei com um novo terror, que prefiro chamar de toureiro. Estes são tradicionalmente conhecidos como coches de gala, porque vestem-se como os rapazes do século XVIII ou os trajes do fim do século XIX. Sua aparência doce é contestável.

Taurino, como sou, busco a segurança, e por isso tento sair da rota de atração dos toureiros, mas o meu perfume exótico é captado vilmente pelo olfato apurado desses cavaleiros, e não há tempo de esconder-se, pois eles podem também chegar a cavalo, e interceptar minha fuga. Músculos, confrontos, suor, espadas e principalmente um talo verde de rosa vermelha carregado entre os dentes, e logo sou capturado pelo encantamento, do mesmo modo como atraio os jovens coches com meu inevitável temperamento sensual e a suavidade de meus cabelos.

Sou um taurino vulnerável, e carrego a senciência na minha natureza, assim tenho a sensível capacidade de sentir prazer, sofrimento ou fúria. A vulnerabilidade e a abstinência são minhas fraquezas confessas, assim escondo-me na pele invisível, áspera e empoeirada. Se tocarem minha pele serão despertados pela maciez, e farão de mim como os animais não-humanos - uma mera propriedade - dispondo da minha pele e da minha carne, para suprir seus desejos volumosos, e satisfazendo suas curiosidades volúveis, desde o paladar ou simplesmente por diversões voláteis.

Não escondo-me por muito tempo, pois a música me chama, assim como o cheiro de comida farta, de vinho doce, ou o cheiro de gente. Levo muito tempo resolvendo se quero um relacionamento realmente sério, pois tal conquista, quando vitoriosa, leva a minha noção de realidade, ou mais claramente, torno-me surdo por qualquer advertência de incompatibilidade apontadas pelos amigos. Quando apaixonado, quero transformar a semente em substância, aproximar o sol da lua, banhar-me de santa chuva e mergulhar em mil outras fantasias.

Certo domingo, um velho amigo visitara-me, contando nossas anedotas do passado, e outras lembranças das Ilhas Canárias, localizada numa região da Espanha, sendo Santa Cruz de Tenerife, a capital e nossa cidade natal. Rimos a beça, num clima descontraído, com bebidas e uma boa mesa, quando ele fez o convite para irmos a uma balada noturna. Convenceu-me rapidamente, pois tratava-se de um grande amigo, e não o deixaria insistir. Shasár é um dançarino, espanhol, da minha idade, 24 anos, quase do mesmo porte físico. Atualmente passamos uma vasta temporada no nordeste do Brasil, onde vim a turismo e nunca mais voltei até então. Trocamos figurinos, relembrando os velhos tempos, e fomos ao clube Tropicália, um luxuoso e recém reformado espaço de entretenimento de música eletrônica.

Ao chegar no local, assim que passamos pela porta que dá acesso à pista de dança, com os refletores quase hipnóticos e luzes vermelhas, enxerguei os olhares famintos. “Encontraram-me”, eu disse em pensamentos, balbuciando as palavras. Eles pareciam decifrar meus lábios simultaneamente. Um tocava nos ombros do outro, passando o comentário, e como um rastro de luz, todos os outros toureiros já estavam comunicados, que mais um taurino estava na arena eletrônica, e totalmente desprevenido. Shasár puxou-me pelo braço dizendo-me “Vamos Vegan, como nos velhos tempos!”, e assim me conduziu até a arena principal, próximo ao equipamento do DJ da noite. Eu sentia-me como um coelho numa armadilha, pronto para ser atacado.

Parecia a Plaza de Toros de las Ventas, em Madrid, mas tinha o clima atmosférico semelhante com a Plaza de Toros do México. Os outros touros estavam gastados, e no momento eu era a carne nova, que havia de ser repartida em pedaços iguais. Um novilho. O espetáculo havia começado, anunciado pela música estridente, e pelos assovios do público. A torcida estava eletrizante e expeliam fumaça de objetivas expectativas. Queriam ver a lide, e o touro completamente dominado.

Os forcados, grupo amador que enfrenta o touro a pé, foram os primeiros a avançar. Vestidos de adornos de ossos, pêlos e marfim. Os dentes trincavam, cheirando a sexo, e com um papo insolente e avassalador, com a tentativa de levar-me a uma vida social intensa, e me “castigar de prazer!”, dizia um deles, mascando um chilete, provavelmente antes de entrar no clube, e assim acreditava que chamava atenção. Foram muito insistentes, e tentaram imobilizar meu corpo com a força dos braços malhados, com um tom de madeira envernizada. Mas, eu continuei firme, enraizado na terra, e não cai na conversa.

Os bandarilheiros vieram em seguida, efetuando algumas manobras com um capote, com coreografias sincronizadas e sensuais, que pareciam dançarinos contratados para animar o ambiente. Admirei-os e até segui alguns passos. Havia um empinado, cintura curvada, com aqueles dois gumos na cintura. Outro derramou-lhe uma bebida nas costas. Este desceu, e ficou agaixado por alguns segundos, e então levantou-se como as morenas dos grupos de forró aqui do Brasil, jogando todo o traseiro para trás, faltando cinco centímetros para encostar em mim. Se eu estivesse nu, teria feito alguma diferença. Estes quase me cativaram, mas ainda não foi o bastante para derrubar este tauro. Vieram também os novilheiros, os campinos e outros intervenientes, aplicando as técnicas da arte tauromáquica.

Meu amigo Shasár estava o tempo todo ao meu lado, e corriqueiramente debruçava-se sobre os braços dos cavaleiros, enquanto eu media forças para defender-me. Estávamos no primeiro piso da Tropicália, e descemos para comprar um drink. Uma pausa para a entrada de um aventureiro, desconhecido para mim e Shasár, mas acalentava a espera dos demais. Era como a estrela daquela noite e vestia uma bela indumentária de rigor. Um tecido vermelho amarrado a cintura. Adornos de pérolas, penas, couro e camurça. Um tanto vampiresco, a pele alva, provavelmente fria e gélida do inverno fora daquele clube. Uma versão eletrônica de um tango tocou nesse exato momento. Em murmúrios e sussurros seu nome se repetia – Éduard Manert. Ele não olhou-me.

Eu continuava com a mesma sensação, como se estivesse correndo toda a arena pueril, repleta de pagantes ao redor, sentados nas arquibancadas, como no formato circular dos estádios de futebol, porém com um estilo romano, mais precisamente o Circo de Termes, na península ibérica, onde os celtiberos sacrificavam os touros em rituais sagrados. O vinho era servido em taças de ouro, e estes faziam as apostas em moeda, como nas competições de jóquei. A torcida clamava por sangue e desejavam o castigo do corpo. O meu corpo era o jogo. O corpo de um taurino, o corpo de um touro. E quem havia de ser meu capataz se todos os cavaleiros coches não conseguiram me derrotar? Mas confesso, que cansaram-me, minhas pernas já estavam quase frágeis de correr e eu clamava por Vênus para reger meus passos. E minha regente só mostrava-me o saliente rapaz, que parecia não me observar, ou assistia meu escarnio, esperando a hora do seu ataque de feromônio e virilidade. Ao meu redor só havia ele, Éduard! Éduard! Éduard! Bradava a plateia perturbando-me os pensamentos. Éduard! Repetia-se com uma cantiga de capoeira, rabo de arraia, benção, ponta-de-pé, rasteira. Eu estava completamente embevecido . E onde estaria Shasár? Meu nobre amigo abandonara-me.

Cansado e completamente passivo, vulnerável, e submisso feito um animal de circo entretendo o povo. Gargalhadas, palavrões e diversos tipos de ofensas.. Diziam aos berros “Agarrem-no pelos cornos, e puxem-no pelo rabo! Puxem-no pelo rabo!”, e cuspiam o vinho de uvas amargas, tal como denunciava o olhar de nojo. Em plena semana santa, e o pecado a flor da pele. Que frívolos e cruéis!

Vênus ainda não havia se manisfestado. Arrastei os pés no chão e supliquei por Gê, semelhante ao meu apelido na infância, embora seja mais conhecida como Gaia ou Géia, segunda divindade primordial após Caos, deusa da Terra, e dona de uma força absurda capaz de gerar sozinha o Urano, os Pontos e as Montanhas. Podia enviar um de seus doze filhos titãs, ou emprestar do peito o aço em foice afiada. Mas, nada. Eu estava mesmo sozinho, e rendido naquela noite de saga.

Quando a minha primeira gota de suor molhou o chão, Éduard curvou-se em minha direção, como um vampiro quando pressente o sangue latente de sua presa. Já fui mordido diversas vezes que acostumei-me, tanto que um dos meus últimos noivados falidos foi com um vampirinho de presas afiadas e olhar fulminante. Éduard aproximou-se tão rapidamente que eu poderia dizer que teletransporte existiu naquele momento, tal como os filmes contemporâneos. Em segundos suas mãos agarravam-me como uma águia, imobilizando-me, então passou a língua pelo meu pescoço da base do ombro até a ponta da orelha, arrepiando meus pêlos, e disse-me em latim “redemptio, corpus, taurus”.

E o grand finale havia chegado... A lide... o Confronto... A pega... Os demais cavaleiros vieram enfincando longas farpas e culminando em freqüentes enfiadas com ferros mais curtos, ditos “de palmos”. Éduard montou em meu dorso, ferozmente, amansando meu corpo até eu aceitar a dor. Aquela mesma dor de paixão, que eu havia recuperado do último namoro, estava novamente plantada no meu pulmão, pois no coração já seria crueldade demais. Em seguida, prometeu-me que iria me colocar ao lado das três estrelas mais brilhantes de tauri, Aldebarã, Alnath, e Hyadum I. Eu seria Delta, uma quarta estrela no espaço sideral.

Após o final deste espetáculo, saímos da balada no clube Tropicália, o sol radiante anunciava uma paixão ou no mínimo o coração amolecido, enfraquecido de tantas lutas e escudos, e praticamente esquecido dos próprio direitos de não ser tratado como propriedade. Desta vez escapei, mas aqui fora a arena tem a dimensão do planeta, e em qualquer lugar que eu vá, eles podem estar a minha espreita, a todo momento, exalando fumaça dos poros, a todo vapor. Estou a beira de novos confrontos... Taurinos, arenas e touradas..

* Insônia, Pânico e Silêncios                                           

Por Jefferson Cruz
É um engano acreditar que as madrugas foram feitas para o silêncio e para o sono. A madrugada é para os oprimidos. Durante o dia é um congestionamento de pessoas e automóveis, uma poluição de sons de todas as origens. E tudo se expressa e faz ruído ao mesmo tempo, competindo até mesmo com o nosso próprio pensamento. Então chega finalmente a madrugada e... Preste bem atenção... Lá fora...

Uma sacola dançando na pista da Rua dos Aflitos. A sacola plástica é carregada pelo vento que bate nas janelas e portas convidando para assistir ao espetáculo. O vento agressivo parece não ter força para atirar longe a sacola que voa levemente e dança sozinha um ballet clássico no asfalto, na calçada e arrastando-se de baixo para cima, de cima para baixo nas paredes das casas do bairro.



As janelas de vidros sambando frouxas, e as portas rangendo com os sopros frios e juntas emprestam um ritmo incessante de suspense ao vôo da sacola. Tudo parece um delírio, mas é uma grande orquestra. A cadência contínua é incrementada com o remexer de plásticos, garrafas e latas. O ruído produzido parece ser de algum rato revirando os lixos domésticos. Ou talvez um rato vestido de trapos, coitados, eles buscam os nossos desperdícios. E dentro de casa, os ratos fazem uma festa particular, e correm maratonas nos quatro cantos, atrás e em cima do guarda roupa e na cozinha. Nada roubam, apenas esticam as patas, uma exima liberdade




Todos instintivamente querem se comunicar e eu querendo dormir. Enquanto eu me queixo da insônia prejudicial a minha mente, ouço barulhos de alguma festa que provavelmente encerrará com o nascer do dia. Num momento estou coberto dos pés a cabeça, depois estou girando na cama, sem cobertor, então me levanto, ando pelas dependências da casa escura, o chão e as paredes geladas. Insights, murmúrios, sussurros duvidosos do apartamento ao lado. Se eu atravessasse as paredes... Se eu flutuasse como a sacola lá fora... Tenho certeza que escreveria sobre tantas coisas que não vemos a essa hora.


Um gole de vinho e volto para o quarto com um copo d’água, sento-me na beira da cama, e olhando as horas, o relógio marcando 2h, repito comigo mesmo “O que estou fazendo a essa hora? Meu Deus, por que não dormi ainda? Esse sono que não chega... E tudo ainda se move, o dia não se esgota, tudo ainda se agita! A noite não dorme, eu não durmo, a noite passa e eu continuo”.

De onde vem esse sono que ainda não chegou? Em que estrada ele anda? Todos os dias se perde no caminho e só chega pela manhã me derrubando de vez. Meu Deus, se acaso ouves meus pensamentos, Tu que também não dormes, com o barulho de todos os planetas juntos, Senhor... Silencie tudo, silencie meus pensamentos, eu lhe peço. Já estou sufocando a caneta contra o papel em branco para fazê-la confessar até o último jato de tinta sobre tudo o que vejo, ouço e penso que parece não ter fim. Isso não é para mim. Não vivo somente para escrever, eu preciso de outros meios de sobreviver.

E o que faz o sol que demora tanto a chegar? Nos esqueceu visitando outras terras e nos deixou aqui sob a companhia da lua? Ela, a única que não diz nada, nem emite luz própria, mas fica de lá influenciando as marés e o cântico das matilhas. E esse pássaro da noite, que tanto grita? Coitado, também não consegue dormir.

Há outros escritores com insônia? Transiente, intermitente ou crônica, em qual estado estaria a minha? Essa agonia, essa angústia, esse estresse inconivente, essa ansiosidade desnecessária e essa expectativa à toa. Da vontade de cuspir tudo, porque parece estar tudo na própria garganta, ou no pulso ou no peito. E um gole d´água às 3h, mas eu gostaria mesmo era de mergulhar no silêncio aprisionado desse copo.

Já rabisquei tanto que não sei a ordem dos escritos no papel. Tem coisa escrita de cabeça pra baixo, de traz para frente, em todas as direções e nos rodapés. Daqui a pouco estarei a escrever pelo meu corpo, nas mãos, braços, rosto... Olhei agora a pouco no espelho e vi o cansaço em mim.

- “Queria tanto ajudá-lo” – disse minha imagem refletida no espelho e continuou “mas estou aqui dentro, num silêncio inesgotável”

- “Deve ser triste aí dentro” – comentei

- “Durante o dia você nada diz... mas se penteia, escova os dentes, faz caretas, procura defeitos, tenta corrigi-los, às vezes desiste, às vezes volta com cremes e máscaras, às vezes arrumado, outras vezes nu, se olha inteiro... Às vezes fixa tanto o olhar, como se fosse dizer algo... Mas só agora você...” – Confessou a imagem fazendo uma pergunta “Está sem companhia?”

Eu balancei a cabeça respondendo que “sim”, e após uns segundos, passei a mão no rosto e toquei o espelho. “Seus dedos estão úmidos”- comentou a imagem.

- “Deve ser o suor das minhas mãos” – disfarcei e interrompi a conversa sem deixar alguma palavra de despedida, afinal se essa insônia não passar, mais tarde estarei de volta, pois um novo dia começou, mas pra mim, é o mesmo trivial dia com a mesma pergunta “Hoje começo a nova vida?!”.

O Jeito de Pensar                                                       

Por Jefferson Cruz



Nem sempre estamos alinhados com os nossos reais propósitos, ou nem pensamos ainda sobre o que estamos vivendo, simplesmente nos permitimos usufruir do ato de existir. E assim por diante, envelhecemos a cada passar de horas, enquanto que nosso consciente julga-se jovem. Se alcançamos a melhor idade caímos no conceito primitivo de profetizar os acontecimentos respaldados da nossa enganosa sabedoria. O tempo não determina nosso grau de sabedoria sobre as coisas, quanto mais se nossos conceitos se endereçarem no passado.

Uma criança com toda a sua inocência, pode inconscientemente, perceber que viver não é apenas historiar. Isso também não significa que nossas experiências não tenham significados, pelo contrário, não merecem nossa barbárie e censura. A relativização do tempo é real, nossos relógios biológicos é que não estão sincronizados. Ver é olhar mais do que de perto, é enxergar do outro lado, é exorcizar os fatos e diagnosticá-lo às aversas. Há uma selvageria de simbolos, convenções sociais, estigmatizações e subalternizações de identidades para que um indivíduo esteja consolidado socialmente.

Nunca teremos aprendido o suficiente, e ainda assim acreditamos na lógica orgânica que o envelhecimento responde a conformidade com o nosso processo de amadurecimento. Muitas pessoas dedicam-se a um estilo de vida recolhida de meros anceios e metas capitalistas, ou sonhos emergentes. Nosso ato de viver é condensado pela necessidade de sobrevivência. É nesse abismo existencial de discentramento que construimos nossas realidades. O tempo não abre nossos olhos, nem os fecha, e a morte não é a redencão ou o caminho da verdade. É o teu processo de pensamento, seu jeito de perceber esse mundo que determinará a tua sabedoria. Você pode viver cem anos e não ter mudado sequer um ponto de vista, e ter cometido cem vezes o mesmo erro, e ter se arrependido em dobro por cada falha, e depois chamar isto de "experiência de vida”, e filosofar belamente sobre as cenas que viveu.
Só para exemplificar, certa vez, um sábio senhor caminhava por um jardim, na verdade, um corredor florido. De um lado, flores delicadamente murchas e desbotadas, e do outro flores grosseiramente perfeitas. Não era algum caso de descuido ou desmatamento. Havia um segredo mágico e misterioso. O sábio manifestou um ar de obviedade e balbuciou estas palavras: - “Tenho vivido longos anos, e em muitas estradas já andei. E mesmo por ser a primeira vez que vejo um jardim com flores tão desiguais como essa, ainda assim não me surpreendo. Posso compará-las às sociedades em que visitei”.

Um garoto, aproximara do mesmo jardim, e logo foi convidado pelo sábio senhor que anciava por discursar sobre a vida. E começou a teorizar sobre a sociedade, e explicando que aquelas flores representavam as desigualdades sociais, e assim por diante discutiu sobre probreza, governo, histórias e tudo o que conseguiu pescar da sua memória arqueológica. Após horas de conversa, o garoto ilustrou a situação das flores daquele jardim, do qual inspirava as observações de vida do sábio senhor e contrapôs as predileções que ouvira. “Senhor, não acredito que essas flores representem a desigualdade social. Se observar mais de perto verá claramente que as flores com aspectos envelhecidos, na verdade, são reais e evidenciam um processo natural, enquanto que as flores belas são simplesmente artificiais”, retrucou o garoto discordando do senhor. O sábio senhor, obviamente, ficou perplexo. Ele não havia observado as flores tão de perto. O seu modo de pensar estava radicalmente baseado no passado, tanto que esqueceu de abrir os olhos para a realidade evidente.

É o seu jeito de pensar que julga os fatos e as pessoas, e se não tomar cuidado com as visões que desenhou sobre a vida, o espírito leviano poderá tomar conta da sua fronte.


* Belo, Coincidência, Testosterona                                  

Por Jefferson Cruz



Eu estava no meu caminho do trabalho para casa. Vim caminhando como de costume, pois são apenas algumas léguas que economizam o transporte para tomar uma cerveja no fim de semana. Poucos dias antecediam a semana santa, e eu já estava em clima de omissão dos pecados. Não ria de mim, não faço isso por maldade intencional, mas realmente prefiro omitir, pois é tanto pecado que uma semana me deixaria em dividas. Foi logo no cruzamento da Avenida Memorial com o Largo da Mariquita, que tombei num rapaz. Não foi nada proposital, asseguro que da minha parte não foi, pois eu andava descontraído com meus pensamentos. Tenho esse hábito de conversar sozinho pela rua.


Ao passar pelo rapaz, acho que suspirei de cansaço, e disse em voz baixa "Só me falta uma cama agora". Para ser mais preciso, eu fitei a presença do garoto que parecia estar também distraído, quando cruzou ao meu lado muito lentamente. Nesse mesmo momento que suspirei, e disse a tal frase, em segundos olhamos ao mesmo tempo para trás. Ele desculpou-se pelo pequeno e quase despercebido esbarrão. Nesse instante, observei-o e pensei em voz alta "é belo". O rapaz voltou-se e chamou-me dizendo "Me conhece?". Parei envergonhado, e sem respostas, com expressão de quem não ouviu a pergunta. Ele aproximou e refez "Disse que sou Belo. Como sabe meu nome?". Eu ri da situação, e realmente “não sabia seu nome, apenas pensei alto e surtiu a coincidência”, respondi-o. Suei frio, mas logo me subiu um calor.


Ele já movia o corpo pra continuar sua caminhada, quando compreendeu o elogio e voltou-se "E o que disse antes da coincidência?". Já estávamos reféns da circunstância, e no clima de uma paquera. Poeticamente, eu diria que estávamos reféns do destino. Repeti meu comentário, dessa vez intencionalmente semeei o apetite pelo belo com um olhar incisivo e compenetrado, articulando as palavras: "Só me falta uma cama agora", disse a frase com um meio-sorriso sádico.


“Safado”. Pode jogar na minha cara. Nem precisasse, ele mesmo o fez. Eu ri dissimuladamente pelo elogio retribuído e apontei o caminho para minha casa, mas a dele estava mais próxima. “Coincidência”, dissemos juntos. Ele envermelhou-se. Licença para uma narrativa poética, deliciada de figuras de palavras. Nossa! Só em pensar dá água na boca. Refiro-me à narrativa poética da nossa foda.


Sou um cuidadoso fazendeiro, e costumo arar muito bem a terra, deixar regada e macia. Corro todo o pasto molhando-o lentamente, apalpando o chão molhado. A textura estava muito boa, justamente como presumia baseado na minha experiência. Realmente farta terra! Um belo solo que fiz questão de sentir com todo o meu corpo, numa interação entre a carne e o barro. Adoro essa natureza! Como foi bela essa mistura de mim com a terra, que logo eu já fazia parte do ecossistema, criando raízes e entregando-me ao esquecimento do tempo. Enterrei um pedaço de pau. Procedimento de fazendeiro antes de cavar o fértil solo e plantar a semente. Sinceramente, eu já não sabia se era eu o fazendeiro ou eu era a terra tamanha interação. Um poder tremendo se manifestava entre nós. Testosterona e fertilizante aliados ao bom adubo afastavam todas as pragas e joios ao redor da fazenda Marquês.


"Belo, as nádegas"... Ele não se esquecia das boas palmadas, pois gostava da reação do meu contrair e dos gemidos. Ele enterrou toda a vergonha na cova, enquanto eu enterrava a minha no travesseiro. Quando entramos pra sua casa, ele gaguejava que estava curioso de saber como essas coisas acontecem. Curioso como ele gostou tão rapidamente das ‘coisas’. Como um iniciante em montaria, que, em segundos, toma as rédeas e sai cavalgando como um belo cavalheiro. “Você é aplicado e aprende rápido” – Comentei percebendo o short estufado. ‘Curioso’


Papeamos no sofá, pouco falatório, eu falava vinho e ele respondia vodka. Rasgamos nossas embalagens, nossos rótulos no percurso do sofá até cama. Minto, antes passamos pela cozinha acho que pra tomar mais um gole de cana. Logo ele exercia o poder fálico e nada falamos desde então. Nada decifrável e traduzível. Apenas monossílabo e expressões de linguagem coloquial, interjeições no intransitivo direto! O tempo arruína tudo, já era metade da madrugada, e dormir era necessário!