quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sobre o amor, quiromancia e alma, por minha viva avó.

Por Jefferson Acácio



Minha avó me dizia que terei vida longa, saúde e riqueza
Ela tinha um fascínio pelo traçado das minhas mãos
E continha uma obviedade em seu olhar detalhista.
Passávamos tardes inteiras lendo as mãos
Eu mais lia as rugas de suas expressões
Aquelas mãos abençoaram tanta gente
Preparam muitas ervas que curaram doentes
E eu pensava se ela desde cedo sabia de seu traçado
E quando eu perguntava – "Vó, você sabia que seria feliz?
Sabia que teria tantos filhos e netos?"
Ela dizia com um olhar distante, que sim, que sabia...
Mas lá no fundo havia um olhar de tristeza que eu não compreendia
E então, depois de um tempo, eu me apaixonei pela moça mais linda da sala
Na quarta série do primeiro grau, e aquela paixão era muito grande
que me fazia querer tirar dez em todas as matérias só pra chamar sua atenção
Para que ela precisasse de mim em algum reforço
E assim eu conseguia sempre estar mais próximo dela...
Demorou muito pra ser brindado com um beijo
Cheguei em casa cheio de felicidade, contei tudo pra minha vozinha contente...
E perguntei ansioso:
- "Vó, veja em minha mão se ficaremos juntos para sempre vó."
Ela sorriu e respondeu – “Se você acreditar muito e desejar você pode ter muito tempo
Você pode criar um lugarzinho pra ela aí dentro de você, e sempre estarão juntos”.
Mas eu insisti – "não vó, eu quero saber se ela já esta desenhada aqui na minha mão."
Ela disse triste – "Não está no alcance das mãos, mas pode estar do coração. Tudo que passa pelas mãos, não fica. Mas no coração, é seguro."
E fiquei sem minha resposta, eu queria algo concreto, um horizonte de felicidade que fosse premeditada, anunciada, pra minha tranquilidade.
E a resposta não veio.
Essa paixão passou de forma lenta e gradual. Não vi passar, escorreu levemente pelas mãos
Escorreu no silêncio, no descompasso, de uma sala pra outra, de um corredor pra outro...
Mudei de escola, mudei de amigos, e aos poucos a imagem dela foi se diluindo...
Desconfigurando-se e morrendo a cada nova manhã sem que eu perdesse a alegria de viver
Meu coração não veio com o selo de exclusividade...
Até que me cansei dos desencontros, do sabor da outra novidade que...
Eu já sabia que iria passar, iria se perder no silêncio, na acomodação, no escuro inconsciente...
Criando um vazio que seria novamente preenchido, de novo, e de novo...
Num movimento cíclico que parecia mais em lutar a favor da individualidade
A partir daí nenhum fio de esperança recompôs novamente  a harmonia
Abondei a minha alma numa rua qualquer, e deixei seguir apenas meu corpo
Até que um belo dia, olhando pras mãos, lembrei da quiromancia...
Voltei a minha avó para lhe perguntar...
 - "Vó, ainda vou encontrar o amor da minha vida? Está longe?"
E ela disse –“A gente nunca sabe quando ele chega, ele não avisa que já chegou...
E se não tomar cuidado, ele parte sem dar notícias, quando perceber, estará longe das vistas
Mas se você enxergar um pouco que seja dele, guarde-o depressa
pro tempo não tomar ele de você
Você terá um amor, mas não é na escrita das suas mãos que vai encontrar...
Vai ser na escrita do seu olhar, preste bem atenção...
Alguém vai segurar bem firme nessas mãos
Você vai sentir como é a mão de quem se destinará a você
É inevitável e a gente não se engana.
Essas mãos poderão segurar as tuas por poucos anos
Mas vai ser como se segurasse até o dia que você estiver na terra.”
 -" O vô segura ainda em suas mãos? "– Ela chorou
- "Tão certa quanto segura agora mesmo" – Respondeu
Então foi isso que ela fez... Ela percebeu o amor antes que ele partisse
- "Escondi – o do tempo, que não o levou totalmente de mim." - disse
Minha vó ainda vive segurando as mãos do meu avô
Que não conheci, mas pude conhece-lo através do seu olhar
E isso me acalmou bastante, embora ela dissesse ainda em tempo
nessa mesma conversa.
- "Nós temos longa vida meu neto, nossas mãos enterram quem amamos.
Mas não é a longevidade que mais vale pro humano.
Do que adianta viver muito, se o coração não faz plantio?
Plante o amor no coração, e ninguém que amamos será esquecido.
As mãos enterram, mas o coração fertiliza a vida!
Não importa muito o traçado das mãos
O que importa é o traçado que você faz no coração
Volte lá, não se abandona a alma.
Como vai enxergar quando o amor tiver chegado? Sem alma, sem visão...
Sem alma, sem destino... Estará enterrando a si próprio
Filho, é com a alma que escrevemos nossa história
É com a alma que nosso amor segura nossas mãos mesmo após a morte
Conserve tua alma em paz, em luz, e o tempo não tem poder sobre você!"


Nenhum comentário:

Postar um comentário

siga por email