segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Residentes e Resistentes entre a espada e a navalha!

 Versão de ficção científica da Crise em Salvador em 04 de fevereiro de 2012 - Por Jefferson Acácio


Final de tarde de quinta-feira, uma jovem caminhava pelas ruas da Avenida Sete da cidade de Salvador, capital baiana, voltava de uma clinica do bairro adjacente de Tororó. Estava contente com o anunciado do médico “o bebê está bem”. A jovem é uma camelô de 23 anos, trabalha na Praça da Piedade, moradora da favela do Unhão, na rua do contorno, próximo ao bairro Dois de Julho.
Próximo dali, uma coisa terrível se alastrava de forma obscura e silenciosa. Dos esgotos da cidade, da podridão subterrânea de Salvador, saiam sujos e torpes uma espécie de humanos com expressão de animais, canibalescas, bichos grotescos... Zumbis. De toda parte, os mais variados instintos sanguinários, com dentes e garras afiadas, surgiam das penumbras. Com caras de famintos, começaram agindo nos becos e proximidades de suas colmeias escondidas no coração da cidade. Fediam “mortos”, a pele acinzentada, ressecada, e um olhar assustadoramente fulminante.

Alice, a jovem gravida, ainda não sabia o que estava se passando, quando chegou ao Dois de Julho, vazio. De longe, alguns gritos partiam de lugares distintos. No caminho, observou algumas poucas pessoas correndo pra suas casas, e então acelerou os passos e nada mais pensava, apenas no bebê. Ao chegar ao seu humilde recinto, ligou de imediato a TV.

Não muito longe de sua casa, dois supostos assassinatos haviam sido confirmados e relatórios informavam investigações de possíveis crimes recentes. Em seguida, o pronunciamento de um governante declarava “estamos trabalhando para apreender os criminosos por façanhas tão cruéis, barbaras... Crimes horríveis. Atitudes condenáveis que precisam ser tratados urgentemente. Um reforço nacional de 2 mil homens armados tomará controle da situação de caos.”

As palavras pareciam aliviar a Alice, que logo recebera ligações de amigos e familiares, e do esposo Aldo, traficante, com a recomendação de que não saísse de casa neste dia. Com o consentimento, aguardou apreensiva, informada também que seu parceiro não voltaria tão cedo para casa e omitiu parcialmente a verdade por de trás das noticias.

Aldo não voltou para casa nesta noite, mas na manhã seguinte estava de volta, ferido, e quase agonizando, morreu nos braços de Alice. Bandido e pai de família, o mundo do crime havia decretado sua morte, já premeditada tantas vezes pela própria mulher. Ainda não se podia caminhar com tranquilidade pelas ruas. Alice velou o corpo em sua própria cama, em meio a lágrimas e muita dor, como se o tiro atingisse seu peito maternal. A pele de Aldo esfriava vagarosamente encostado ao corpo quente e suado de Alice. Uma febre interna se instaurava, mas Alice permaneceu o dia inteiro ao lado daquele corpo negro, gelado, e manchado de vermelho.

Caiu a noite com um clima fúnebre, com direito a trovoes e relâmpagos. Alice se medicava frente à televisão, com os noticiários informando a chegada da tropa nacional de armamento pesado. Chegariam à madrugada com a promessa de controlar o caos desconhecido ainda para Alice que só ouvia dizer que se tratava de boatos de uma infestação que havia contaminado grande numero da sociedade. A contaminação aconteceu no bairro de Pirajá, por causas ainda desconhecidas, cujos humanos infectados eram bandidos e policiais. O vírus se alastrou por toda a região causando terror aos moradores.

Aproximadamente duas da madrugada, em respeito da atual crise, a população permanecia acuada em suas residências sob o reforço mais rígido no horário de recolher. Era em outras palavras uma guerra aparentemente que começou em questão de segundos, impondo medo.

Assaltantes tomaram conta das ruas junto às forças armadas, em confronto, e sem nenhum medo da morte, assim como o Aldo, partiram para uma forma resistente, desesperada, e covarde. Arrombaram comércios, roubaram veículos, amedrontaram outros bairros cujas pessoas ainda se garantiam estar em segurança. As criaturas noturnas urgiam nas madrugadas, barulho de tiros se ouvia de todos os lados, e nenhum som de gente. Alice orava temerosa ao lado do corpo praticamente petrificado de Aldo.

Em Nazaré, outro bairro adjacente que compõe o conjunto de bairros do centro histórico de Salvador, Oseías, 25 anos, concursado, participava de uma festa de juízes e desembargadores, e por ironia haviam policiais não infectados, e exercendo seu posto de trabalho enquanto o resto da população se depreciava frente aos cães selvagens. Alguns policiais se recusavam a proteger as pessoas queixando-se de péssima remuneração, e por isso faziam greve durante esse evento critico de guerra ao terror na cidade de Salvador. Mas para os juízes e desembargadores eles estavam firmes, fardados e fortes para defendê-los dos zumbis.

Na conversa, em meio à drinks, dizia-se que a infestação começou com a autarquia, autorizando todo esse dilúvio de ataques internos de terrorismo, por causa de uma guerra interna em que uma parte dos policiais havia sido infectada junto com bandidos e políticos. Assim causavam o caos. As policiais sanguessugas se apropriaram da situação para alcançar mais vantagens com a crise, mantendo neutralidade de opinião. Não iam pra rua, mas também não se juntavam com os protestos de aumento salarial. Ficavam protegidos em suas casas aguardando o aumento de seus benefícios e remuneração.

Era então três diferentes classificações ideológicas, a polícia sanguessuga, a polícia traidora e a policia dominante. Essa última, a polícia dominante e legitimadora que racionalizam a greve e toda a arquitetura estratégica lutando por seus objetivos, respaldados por seu poder de dominação em relação aos atores sociais. Eles mesmos denominavam a policia que se opunha a eles, ainda que se juntasse a autarquia ou não, como “policia traidora”, mas também detinha entres esses alguns conchavos disfarçados de “traidores” freqüentando os banquetes e residências dos governantes. Quanto aos outros policiais mais neutros da situação, que somente recebiam as estratégias e comandos de legitimação, eram considerados como “sanguessugas”. Esses agiam na cibercultura, medindo e disseminando opiniões na rede social, pedindo maior participação da comunidade no seu desenvolvimento preocupando-se na conservação de seu próprio espaço, o que constitui um processo de sobrevivência coletiva. Nessa guerra, não há a participação da identidade de resistência e nem da identidade de projeto. Só há os dominantes e os dominados.

A policia detém o poder de armamento e principalmente de conhecimento sobre as colméias de onde surgiam essas criaturas sinistras que assolavam a capital. Questão é que essa mesma parcela de policiais planejou a contaminação nas colméias, para dar inicio à crise. A comunidade é refém de toda a situação, no meio dessa cortina de fogo, acuada por policiais “sem saber”, e por bandidos. A população está entre a espada e a navalha!

Por outro lado, as pessoas estão vivendo num mundo articulado de modo diferente pelos estados e pela mídia, em diferentes contextos nacionais e regionais, em que o medo freqüentemente parece ser a fonte e o fundamento para campanhas intensas de violência grupal, que vão de distúrbios civis até extensos terrorismos de zumbis.

A comunidade se sente forçada a viver nesse cenário de violência em larga escala, guerra civil, uma das piores que existe. Oseías volta para casa, indignado com o que observou na festa dos juízes e desembargadores, sentindo-se completamente indefeso e refém. O conflito armado fugiu ao contexto do estado-nação e extrapolou a lógica de qualquer tipo de realismo. O negócio em questão é a guerra como ordem. O terror, em nome de qualquer ideologia da equidade, liberdade ou justiça, procura instaurar a violência como principio regulador central da vida cotidiana. Isso é o que é mais aterrorizante pro Oseías, porque esse tipo de terror, além dos traumas que deixa no corpo, provoca auto-sacrifícios. Esse tipo de terror utiliza a emergência como lógica. Oseías olhou de perto a lógica desse pesadelo.

Por volta das 20h da noite de sexta-feira, Alice já queimava de febre e não havia mais medicamento em casa, consultou por telefone alguns amigos na tentativa de conseguir uma companhia ate a farmácia, do qual fizera uma ligação, por sorte havia apenas a farmácia próxima ao seu posto de trabalho como camelô, na Praça da Piedade. Ninguém se prontificou a ir com Alice e ainda aconselhou que ficasse em casa. Mas a febre de Alice estava pior, e também o odor do corpo do falecido.

Ela subiu a ladeira do Unhão, que estava deserto, do alto ainda havia helicópteros sobrevoando a cidade de Salvador. Passou pelo Dois de Julho, com lojas e supermercados semi abertos com agressidade, dos saques acontecidos nesse tumulto. Chegou a praça e já se avistada soldados armados de longe, ela apreensiva continuou em seus passos, tremendo de febre. Ao chegar na Praça da Piedade, ouviu uma série de disparos, então correu para dentro da Praça da Piedade. Alice foi atingida antes mesmo de chegar à farmácia. Momentos antes de fechar os olhos, vinha-se a imagem do ultra som, do seu bebê movimentando vida dentro do seu ventre, e as palavras do médico “o bebê está bem”. Ela sorriu, passou a mão na barriga de seis meses e morreu.

A noticia espalha-se rapidamente na rede social. Oseías compartilha a noticia sobre a jovem gestante assinada. Ele tenta imaginar como será que os governantes, a policia, os bandidos, os atiradores, e todos esses humanos, conseguem estar em paz com tanta atrocidade. Por quem essas pessoas rezam? Pela alma de Alice, no país da desordem, e não das maravilhas? A policia sentirá orgulho com o aumento salarial? O governo sentirá orgulho de controlar e conter a policia com outra medida que não seja o aumento? Sentirão orgulho, cada um com seus relógios atrasados? A solução nunca chega a tempo, e mais Alices e Aldos e Marias morrem no lugar da causa que eles não lutaram. Como se pode andar de cabeça erguida e caminhar pelo chão de sangue? Oseías estava completamente descontente com o governo, a policia, com mais ódio ainda dos bandidos, do homem, do país, do mundo... É o gosto de amargo que desce na garganta de todos.

O massacre continua crescendo gradativamente, com a infecção do vírus Violência, passando por Itabuna, Canavieiras, Teixeira de Freitas, Ilhéus, Porto Seguro, Jequié, Feira de Santana, Itapetinga, Vitória da Conquista, Barreiras, Itaberaba, Região Sudoeste das cidades Candido Sales, e Paulo Afonso. O vírus da violência adicionado à falta de melhor investimento na educação, melhores salários a classe de professores, melhor infra-instrutora das escolas do país... Enquanto isso as colméias urbanas e laboratórios de cárceres privados enchem cada vez mais de criminosos. E por trás de tudo isso, um grande sistema de desordem e imprudências de políticas e visão torpe em defesa de que? Da vida? Então as causas lutadas não são das mais legitimas. São desumanas, ou pior só podiam ser desenvolvidas por humanos mesmo, um tipo de humano geneticamente modificado, zumbis, que chega com um tipo de bicho chamado “violência” e toca o terror pra cima de todo mundo.

Esse cenário de horror de sobrevivência, medo ao pequeno numero, esse roteiro de zoológico de monstros e bichos selvagens, zumbis e pragas daninhas se espalhando pelo Estado da Bahia, procurou justamente explodir com a infestação justamente em duas semanas antecedentes ao maior evento de rua do mundo, o Carnaval. Uma ameaça constituída friamente, com a premeditação de mortes e demais conseqüências do sistema opressor em vigência. Mesmo que essa inflamação dolorosa encontre seu anti-inflamatório, a causa da ferida não será resolvida e o carnaval, que já está prejudicado, vai se tornar uma festa de contradição. Pessoas felizes e cantando “É festa” enquanto que mais de 20 pessoas morreram poucos dias antes pra essa festa acontecer. Do contrário, no lugar de abadas, coletes a prova de bala pra folia que não se cancelaria nem em tempo de guerra!

Turistas, Bem vindos a terra dos zumbis, onde a população são apenas residentes, de nada aqui a população governa, se tornam meros resistentes para sobreviver entre a espada e a navalha!

Por Jefferson Acácio

Em memória a mulher Gislene de Jesus, que não conheço, mas de um simples compartilhamento, me causou revolta e inspirou a personagem Alice. Gislene morreu nesta sexta-feira (03) por volta das 20h, enquanto amamentava sua filha de aproximadamente seis meses na Praça da Piedade no centro de Salvador, por onde passa o circuito do carnaval Campo Grande. Local onde daqui a duas semanas, provavelmente os foliões estarão sambando, transando, urinando, caindo de bêbados, e dançando os hits baianos do momento. A causa da morte de Gislene, segundo moradores, foi vitima de um homem armado e fardado, que atirou aleatoriamente contra a praça.
 

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